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Estamos mesmo a “perder” os nossos jovens mais qualificados para a emigração?

Estamos mesmo a “perder” os nossos jovens mais qualificados para a emigração?

A saída de jovens portugueses qualificados para o estrangeiro deve ser, antes de mais, entendida como um exercício de liberdade individual. Podem partir por insatisfação com as condições materiais oferecidas no país, mas também para procurar novos horizontes, pessoais e profissionais, diferentes dos que encontram em Portugal. Antes de fazer contas a eventuais perdas ou ganhos, importa celebrar a possibilidade que têm de explorar o mundo, procurar oportunidades e ganhar novas experiências.
Só depois devemos perguntar: estamos realmente a “perder” os nossos jovens mais qualificados?
Uma análise do Banco de Portugal, da autoria de Nuno Alves e Vanda Cunha, ajuda a colocar esta discussão em perspectiva. Portugal tem uma taxa elevada de emigração jovem. Mas os jovens com ensino superior emigram proporcionalmente menos do que os que não o completam. Os autores analisaram os jovens nascidos em Portugal que tinham entre 25 e 34 anos em 2021: 31% dos que viviam no estrangeiro tinham ensino superior, contra 39% dos que residiam em Portugal. A análise mostra ainda que a percentagem de emigrantes com ensino superior tem aumentado, mas esse aumento foi ainda mais acentuado entre os jovens residentes em Portugal.
Como conciliar este fluxo elevado de saída de jovens qualificados com um stock elevado e crescente de jovens qualificados no país? Uma hipótese plausível é que muitos destes jovens saiam de Portugal, mas regressem depois dessa experiência. Os dados existentes não permitem confirmá-lo, mas são compatíveis com essa possibilidade.
Feita a análise dos números, importa avaliar o seu impacto na economia portuguesa. Não existem, tanto quanto sei, estudos rigorosos sobre o impacto causal da emigração qualificada em Portugal. A evidência internacional é mais abundante. Num artigo que publiquei na revista “Science” com vários co-autores, revemos a evidência causal sobre os efeitos da emigração qualificada nos países de origem.
O discurso em Portugal e em muitas outras partes do mundo tende a focar-se na perda directa de pessoas qualificadas na economia. Os potenciais impactos positivos são múltiplos, substanciais, mas menos óbvios. As oportunidades de emigrar podem incentivar o investimento em educação, causando um aumento líquido do número de pessoas qualificadas no país – o que, no caso português, ajudaria a explicar porque temos mais jovens qualificados no país, apesar do aumento das saídas.
Nas Filipinas, por exemplo, novas oportunidades de emigração para os Estados Unidos levaram tantos jovens a formar-se em enfermagem que o número de enfermeiros qualificados no país aumentou, superando largamente o aumento das saídas. O mesmo aconteceu na Índia, onde maiores oportunidades de emigração contribuíram para aumentar substancialmente o número de engenheiros informáticos. Em Cabo Verde, mostrámos também que melhores perspectivas de emigração aumentaram a escolaridade dos jovens.  São muitos os exemplos deste “ganho” de cérebros: a possibilidade de saída pode aumentar o capital humano no país de origem.
Estes ganhos não são automáticos. A saída de profissionais pode criar custos, sobretudo no curto prazo. E é preciso que o sistema educativo consiga responder à procura de formação, e que as empresas aproveitem as novas competências.
Os benefícios da emigração qualificada não se ficam por aqui. As remessas dos emigrantes podem financiar estudos e novos negócios. As diásporas podem facilitar comércio, investimento e transmissão de conhecimento. Quem regressa pode trazer competências e redes. Mesmo quem fica no estrangeiro pode continuar ligado a Portugal.
Importa, por isso, não confundir saída com perda definitiva. Entre a “perda” e o “ganho” há espaço para a circulação de cérebros. Se queremos que mais jovens regressem, devemos valorizar a sua experiência e criar condições para que queiram voltar. Isto exige salários competitivos, carreiras que recompensem o mérito, oportunidades de investigação e inovação, menos burocracia e boas condições para criar empresas. São também estas condições que atraem talento internacional.
Assim se podem formar pólos de talento, juntando portugueses que regressam, estrangeiros que chegam e profissionais que permanecem ligados ao país a partir do exterior. A troca de conhecimento e a colaboração entre estas pessoas podem estimular a produtividade, a inovação e a criação de novas empresas. O objectivo não deve ser impedir os jovens de conhecer o mundo. Deve ser fazer de Portugal um país para onde queiram regressar e onde outros talentos também queiram viver.

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