Ray-Ban ajudou a criar o negócio dos óculos com IA. Agora arrisca ser vítima do próprio sucesso
Os óculos já não servem apenas para ver melhor ou completar um visual. Com câmaras, microfones e inteligência artificial, permitem tirar fotografias, ouvir música e interagir com assistentes digitais sem tirar o telemóvel do bolso. A combinação entre tecnologia e design ajudou a tornar os Ray-Ban Meta num dos produtos mais visíveis desta nova categoria.
O sucesso está, porém, a despertar o interesse de outros fabricantes. Segundo a Reuters Breakingviews, a Google e a Samsung estão entre as empresas que procuram conquistar espaço no mercado dos óculos inteligentes, enquanto fabricantes chineses também desenvolvem soluções concorrentes. Para a EssilorLuxottica, que produz os Ray-Ban em parceria com a Meta, o desafio será manter a vantagem numa categoria em rápida transformação.
Os números mostram que o negócio continua a ter dimensão. De acordo com a Reuters, a EssilorLuxottica registou receitas de 7,49 mil milhões de euros no terceiro trimestre de 2026, mais 9% do que no mesmo período do ano anterior. As receitas da área dos dispositivos tecnológicos, que inclui os óculos inteligentes, atingiram 486 milhões de euros. O crescimento desta atividade abrandou para 20%, depois de quase 100% no trimestre anterior.
A concorrência não é o único desafio. A rentabilidade também merece atenção. Segundo a Reuters, que cita estimativas do Bank of America, as margens brutas dos óculos inteligentes poderão rondar os 40%, abaixo dos mais de 60% associados aos óculos tradicionais. A diferença não significa necessariamente que o novo negócio seja menos interessante, mas mostra que vender um produto mais tecnológico não garante, por si só, margens superiores.
A privacidade é outra preocupação. Os dispositivos estão sob maior escrutínio regulatório devido à possibilidade de captar imagens e conversas de forma discreta. A presença de câmaras numa armação aparentemente normal levanta questões sobre o consentimento das pessoas filmadas e sobre os limites da utilização destes equipamentos em espaços públicos e privados.
A EssilorLuxottica continua a beneficiar da força das suas marcas e da sua rede de distribuição. Mas a entrada de novos concorrentes poderá alterar o equilíbrio do mercado, obrigando a empresa a competir não apenas no design dos óculos, mas também nas funcionalidades e na experiência tecnológica.
A inteligência artificial abriu uma nova oportunidade para a indústria da ótica. O próximo desafio é perceber quem conseguirá transformar essa oportunidade num negócio duradouro — e se a Ray-Ban continuará a liderar quando os óculos inteligentes deixarem de ser novidade.
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