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O pato manco e o preço da arrogância

O pato manco e o preço da arrogância

Donald Trump pediu aos norte-americanos que votassem como se o seu nome estivesse no boletim de voto. Eles obedeceram. A derrota republicana nas eleições de meio de mandato foi também a rejeição de um presidente que confundiu poder com intimidação e liderança com licença para desorganizar o mundo.
O custo de vida, a guerra contra o Irão e o desgaste de um governo permanentemente em confronto ajudaram a desfazer a coligação que o elegeu. O eleitor pode tolerar a grosseria quando acredita que haverá prosperidade. Quando a conta chega ao supermercado e ao posto de gasolina, o espetáculo perde a graça.
No exterior, Trump tratou aliados como adversários ou vassalos. Os europeus, mais do que ninguém, sentiram isso na pele. Fez da imprevisibilidade um método e da arrogância uma linguagem diplomática. Ao embarcar na equivocada aventura militar defendida por Benjamin Netanyahu, apostou que a superioridade bélica produziria uma vitória política sobre o Irão. Confundiu capacidade de destruir com capacidade de vencer.
Os países do Golfo descobriram o preço dessa confusão. A presença militar norte-americana, apresentada como garantia de segurança, também os expôs à retaliação iraniana e ao reconhecimento de que o objetivo principal dessa presença é a proteção do Estado de Israel. Washington projetou força, mas corroeu a confiança na proteção que oferecia. A perceção do declínio dos Estados Unidos ganhou velocidade nas mãos de quem prometera restaurar a sua grandeza.
A vitória democrata não retira de Trump a Presidência. A partir de janeiro, porém, um Congresso oposicionista poderá restringir verbas, bloquear projetos e submeter o governo a investigações. No Senado, indicações para cargos importantes enfrentarão resistência. Trump continuará governando, mas como um pato manco. Pelo temperamento, provavelmente um pato manco raivoso.
Denúncias de corrupção e conflitos de interesse poderão receber escrutínio mais rigoroso. Um novo impeachment é uma possibilidade, caso haja fundamentos; a destituição, contudo, exige dois terços dos senadores presentes. Fiscalização não equivale à queda automática do presidente, mas encerra a confortável expectativa de governar sem prestar contas.
Para os republicanos começa uma disputa maior: como sobreviver ao trumpismo e ao movimento MAGA sem se tornar refém deles? O problema não termina com uma derrota eleitoral. Trump deixou hábitos, interesses e compromissos que limitarão seus sucessores. Biden já mostrou como é difícil desfazer certas políticas depois de se incorporarem no consenso em Washington.
Os eleitores que devolveram Trump ao poder agora tentam conter sua trajetória destrutiva. É, enfim, um gesto de responsabilidade. Mas conter o presidente não basta para reparar a confiança perdida. Os governos passam, mas os custos da sua arrogância permanecem.

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