A carregar agora

Do supermercado à habitação: fatura do dia a dia dispara, tudo sobe

Do supermercado à habitação: fatura do dia a dia dispara, tudo sobe

Do supermercado à habitação, passando pela energia, transportes, comunicações e seguros, quase todas as despesas diárias vão sofrer ajustes em alta. O JE fez um levantamento para saber quais os “estragos” na carteira dos portugueses. Com a viragem do calendário a dúvida quanto ao impacto da subida dos preços no orçamento familiar é sempre um dos temas quentes. Este ano não é diferente. Vamos começar pela inflação. Esta deverá manter-se relativamente controlada em 2026, rondando os 2%, segundo as projeções mais recentes do Banco de Portugal. No entanto, este valor está longe de significar estabilidade para as famílias portuguesas. Pelo contrário, o próximo ano será marcado por novos aumentos nos bens essenciais, serviços e encargos fixos, num contexto em que os salários e as pensões aumentam, mas continuam a ter dificuldade em acompanhar o custo real de vida.
Salários e pensões sobem, mas não anulam a pressão
A partir de 1 de janeiro de 2026, o salário mínimo nacional deverá aumentar para cerca de 920 euros brutos por mês, ou seja, mais 50 euros do que em 2025. Também as pensões serão atualizadas, incluindo prestações sociais como o Complemento Solidário para Idosos.
As pensões até cerca de 1.074 euros subirão cerca de 2,79%, superando a inflação. As  pensões entre 1.074 e 3.222 euros terão um aumento de cerca de  2,29%, e, por fim, pensões superiores a 3.222 euros receberão um aumento aproximado de 2%. O Governo prevê a possibilidade de atribuir um suplemento extraordinário às pensões mais baixas, mas a sua aplicação dependerá da folga orçamental em 2026. Embora estes aumentos ajudem a mitigar a perda de poder de compra, mas dificilmente compensarão a subida generalizada dos preços.
Alimentação continua a encarecer
O cabaz alimentar deverá voltar a subir em 2026, com estimativas de aumentos entre 6% e 7% em vários produtos essenciais. O peixe e carne de vaca estão entre os bens que mais deverão encarecer, pressionados pelos custos de produção e pela cadeia de distribuição.
O pão e os produtos de pastelaria também não escaparão a esta tendência. Apesar da estabilidade nos mercados internacionais da farinha, da energia e da logística, o setor antecipa um ligeiro aumento, motivado pelas revisões salariais e pelo aumento dos preços dos ovos, frutos secos e materiais de embalagem. Em contrapartida, produtos como carne de porco, leite, azeite e café deverão manter preços relativamente estáveis.
Entre novembro de 2024 e novembro de 2025, o preço do cabaz alimentar monitorizado pela DECO PROteste subiu 10,61 euros (4,55%), passando a custar 243,65 euros para uma cesta com 63 bens essenciais. Os produtos que registaram os maiores aumentos no último ano foram o café torrado moído (+29%), os ovos (+28%) e  a carne de novilho para cozer (+25%).
Desde que a DECO PROteste iniciou a monitorização, em janeiro de 2022, os maiores aumentos percentuais acumulados registaram-se na carne de novilho para cozer (+105%), nos ovos (+85%) e nas laranjas (+68%).
Rendas, crédito e IMI tornam a habitação mais cara
As rendas poderão aumentar até cerca de 2,24% em 2026, de acordo com o coeficiente legal de atualização, caso os senhorios decidam aplicá-lo. Isto equivale a uma subida de 2,24 euros por cada 100 euros de renda. Uma renda de 1.000 euros ficará 22,40 euros mais cara.
Para os titulares de crédito à habitação, a tendência de subida da Euribor deverá traduzir-se em prestações mensais mais elevadas. Além disso, serão novamente cobradas comissões bancárias por amortizações antecipadas. A comissão bancária na amortização antecipada de empréstimos com taxa de juro variável regressa aos 0,5% sobre o valor abatido. Para os empréstimos com taxa fixa, a comissão mantém-se nos 2%.
O IMI das casas novas ou reconstruídas vai aumentar, refletindo o aumento do valor médio de construção por metro quadrado, que passará para 38 euros em 2026, ou seja, um aumento de 38 euros, passando de 532 euros para 570 euros, segundo portaria publicada no Diário da República.
Luz e água sobem de forma moderada
 Segundo a ERSE, regulador do setor energético, os preços regulados da eletricidade vão aumentar, em média, 1% em 2026 para os mais de 800 mil clientes do mercado regulado, o que representa um acréscimo de 18 a 28 cêntimos por mês, já com taxas e impostos incluídos. Embora este aumento seja inferior à inflação prevista, terá um impacto direto na fatura mensal das famílias.
Os beneficiários da tarifa social continuarão a usufruir de um desconto de 33,8%, o que se traduz numa poupança média de 13,50 euros para um casal sem filhos e de 32,95 euros para um casal com dois filhos.
No mercado livre, algumas empresas anunciam reduções ligeiras, mas outras deverão refletir o aumento dos custos das redes. De acordo com a ERSE, as tarifas deverão aumentar, em média, cerca de 3,5%, no entanto, a EDP Comercial anunciou uma descida de 1% e a Galp de 0,5%.
No caso da água, ainda não existem valores definitivos, mas tudo indica que muitos municípios aplicarão aumentos próximos dos 1,8%, seguindo as recomendações do regulador.
 Telecomunicações e correios mais caros
As principais operadoras — MEO, Vodafone e NOS — já confirmaram atualizações de preços em 2026, alinhadas com a inflação e previstas nos contratos dos clientes.
Os CTT vão aumentar os preços do correio regulado em 6,2% (até 20 g de peso) a partir de fevereiro, tornando mais caro o envio de cartas e outros serviços postais essenciais. Será 4 cêntimos mais caro, com entrada em vigor a 2 de fevereiro.
Transportes: viagens mais caras, passes congelados
Os bilhetes ocasionais dos transportes públicos vão subir, tanto em Lisboa como no Porto, enquanto os passes mensais se mantêm inalterados. A CP aplicará um aumento médio de cerca de 2,26% aos serviços, tornando mais caro viajar de comboio, inclusive nas ligações de longo curso.
Nas autoestradas, as portagens vão subir mais de 2%, embora algumas antigas SCUT deixem de ser pagas, aliviando os custos de circulação em determinadas regiões.
A Carris também aumentará os preços: o bilhete de autocarro passará de 2,20 euros para 2,30 euros, o dos elétricos de 3,20 euros para 3,30 euros, o dos ascensores para 4,20 euros e o da tarifa de Bordo de Santa Justa para 6,10 euros (com direito a duas viagens).
A viagem pré-comprada de uma hora em toda a rede Carris/Metro sobe de 1,85 euros para 1,90 euros, enquanto o bilhete de 24 horas passa de 7 euros para 7,25 euros. Se juntar a Transtejo, o valor aumenta de 10 euros para 10,35 euros.
Viajar de avião poderá tornar-se ligeiramente mais caro devido ao aumento das taxas aeroportuárias e de controlo de tráfego aéreo, variam entre 0,65 % e 5 % consoante o aeroporto. Estes custos adicionais tenderão a refletir-se nos preços dos bilhetes, sobretudo em rotas com menor concorrência, como algumas ligações regionais e para os Açores. Ainda assim, promoções e tarifas especiais poderão manter voos a preços competitivos.
Mesmo sem alterações diretas no ISV ou IUC, comprar e manter um carro em Portugal poderá tornar-se mais dispendioso. O Orçamento do Estado prevê um aumento da receita gerada por estes impostos, o que se refletirá no custo de aquisição e na tributação anual, sobretudo para os veículos mais potentes ou com maiores emissões. A eliminação de alguns incentivos para modelos convencionais também poderá aumentar o custo total.
Seguros com aumentos expressivos
Segundo o 2026 Global Medical Trend Rates Report da Aon, os seguros de saúde em Portugal deverão registar aumentos significativos, podendo subir até 10%, muito acima da taxa de inflação. Este aumento reflete a escalada dos custos hospitalares, das consultas e dos tratamentos, bem como a pressão crescente sobre o setor privado face ao envelhecimento da população.
Em simultâneo, os seguros automóvel deverão aumentar entre 6% e 10%, impulsionados pelo aumento do preço das reparações, da mão de obra e das peças, bem como pelos custos crescentes de assistência. O panorama aponta para a necessidade das famílias reservarem uma fatia maior do orçamento, tornando a gestão financeira pessoal mais exigente no próximo ano.
 E na saúde?
Segundo portaria publicada no âmbito da Revisão Anual de Preços (RAP), todos os medicamentos essenciais e os fármacos com um preço de venda ao público de até 30 euros ficam isentos de qualquer aumento de preço, alargando o limite que anteriormente estava nos 16 euros. De acordo com o Infarmed esta medida visa proteger os medicamentos de baixo custo, evitar ruturas de stock e reforçar a sustentabilidade do SNS.
Os medicamentos com um preço no mercado hospitalar até 75 euros não serão sujeitos à revisão anual de preços. Os fármacos com um preço superior a 30 euros poderão ter o seu preço comparado com os praticados em Espanha, França, Itália e Bélgica. Se forem mais elevados em Portugal, poderão ser reduzidos, com um limite máximo de 20%.
Em 2026, os utentes do SNS deverão enfrentar apenas um ligeiro aumento das taxas moderadoras, de cerca de 2 %. Por exemplo, a taxa de uma consulta num centro de saúde passará de 2 euros para 2,04 euros, enquanto a de uma consulta hospitalar de especialidade aumentará de 5 euros para 5,10 euros. Mantêm-se as isenções para crianças até aos 12 anos, grávidas e pessoas com incapacidade elevada, e a marcação de consultas nos centros de saúde continua a ser gratuita.
Novas taxas e encargos indiretos
Em 2026, o Estado português espera arrecadar mais com impostos indiretos, o que se deverá refletir nos preços pagos pelos consumidores. A receita do IVA deverá subir cerca de 5,1%, atingindo aproximadamente 27,5 mil milhões de euros, enquanto o ISP deverá aumentar 4,6%, alcançando cerca de 4,25 mil milhões de euros. A cobrança com taxas e multas também deverá crescer, reforçando a receita pública.
A partir de abril de 2026, entrará em vigor em Portugal o Sistema de Depósito e Reembolso de embalagens, que prevê o pagamento de um valor adicional por cada garrafa ou lata de bebida de uso único no momento da compra, estimado em cerca de 10 cêntimos por unidade. Este valor é totalmente reembolsável quando a embalagem vazia é devolvida num dos pontos de recolha disponíveis. O sistema visa estimular a reciclagem e reduzir resíduos, garantindo que o custo final para o consumidor é nulo, desde que as embalagens sejam devolvidas corretamente.
Em suma, 2026 será um ano de aumentos generalizados, ainda que mais moderados do que nos anos de inflação elevada. Com os rendimentos a crescer de forma moderada e as despesas essenciais a subir em várias frentes, as famílias portuguesas terão de continuar a gerir o orçamento com atenção redobrada. A inflação pode estar mais baixa, mas o custo de vida continua, claramente, em alta.
 

Share this content:

Publicar comentário