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Cai Guo-Qiang: “Desde muito novo que as livrarias são o meu paraíso”

Cai Guo-Qiang: “Desde muito novo que as livrarias são o meu paraíso”

 
Somos feitos de futuro e também de passado. Cai Guo-Qiang não antecipou que viria a ser “Mestre da Pólvora”. Já lá vamos. Mas percebeu muito cedo que queria ser artista. A arte entrou na sua vida, primeiro, pela palavra. O pai geria uma livraria em plena Revolução Cultural. Sim, estamos na China, em meados da década de 60. Só entravam os livros autorizados, claro. Mas Cai Ruiqin ia guardando edições da era pré-comunista, que haviam sido vendidas à livraria e que agora estavam proibidas. Porquê? Porque o mundo era muito mais vasto e ele não queria encurtar horizontes. Cai Guo-Qiang lembra-se de ajudar o pai a queimar livros, em segredo. E de aqueles terem sido, na sua infância e adolescência, uma “abertura estreita na porta” para o mundo.
“Tenho uma ligação profunda com livrarias. Desde muito novo que as livrarias são o meu paraíso”, diz ao JE. “Lembro-me que, depois da escola, muitas vezes corria até à livraria onde o meu pai trabalhava, sentava-me num pequeno banco atrás do balcão e ficava a folhear livros de banda desenhada.” Em casa, chegavam-lhe às mãos outros universos. Livros restritos que existiam nas livrarias para serem estudados e ‘criticados’ pelos altos funcionários locais. Desde obras literárias do “imperialismo americano” a Mikhail Sholokhov, passando pelos mais recentes laureados com o Prémio Nobel. “O meu pai trazia esses livros para casa, em segredo, e exigia que eu os lesse num só dia”. Os riscos eram muitos, obviamente. Mas Cai não esquece aquilo a que chama a sua “odisseia pelas culturas modernas no estrangeiro”, explica ao JE.
Cai Guo-Qiang nasceu em 1957, em Quanzhou, província de Fujian, no sudeste da China. É mais conhecido pelas suas ‘explosões’, ou melhor, pelas quimeras monumentais que desenha no céu utilizando pólvora. Foi ele o maestro que orquestrou o estrondoso fogo de artifício nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, que fez uma ligação poeticamente explosiva entre a famosa ponte Millenium, de Norman Foster, e a Sala das Turbinas, da dupla Herzog & de Meuron, na Tate Modern, em Londres. Ou que ‘incendiou’ a fachada do Pompidou, antes de o emblemático centro de arte de Paris fechar temporariamente para obras, em outubro passado.
Abraçar o desconhecido
“Só quando me tornei artista é que comecei lentamente a compreender o meu pai.” Cai refere-se aos desenhos do progenitor, também calígrafo e pintor, como “uma expressão do seu amor e nostalgia pela terra natal, pelo seu país. Pintou, “com o coração”, um sem-número de caixas de fósforos. “Mil hectares cabiam naquele pequeno ‘espaço’ entre os seus dedos. As caixas de fósforos podiam ser pequenas, mas as emoções e o mundo que desenhava eram vastos e profundos”, recorda. “Só mais tarde percebi que foram essas caixas que me permitiram ‘acender fogueiras’ por todo o mundo.”
Cai Guo-Qiang formou-se na Academia de Teatro de Xangai, em design cénico, o que lhe deu um conhecimento profundo das artes de palco, depois plasmado nas suas composições espaciais. O sentido de espetáculo começa aqui a ganhar forma, numa estética que cruza tradição chinesa e cultura cinematográfica, numa prática que abarca elementos da cultura oriental e ocidental. Mas não só. Cai também se interessa por disciplinas e conceitos como a física, o tempo, o espaço, a guerra, o esoterismo, a natureza.
“O meu processo criativo normalmente começa com uma pergunta, um local ou uma relação de energias. Para um projeto como este do Babell, no Porto, primeiro tento perceber a história, a natureza, o clima, as memórias das pessoas e a sua relação com o mundo de hoje. Claro que, através deste processo, também procuro oportunidades que ecoem a minha criação artística. Mas não existe um tema fixo. O trabalho cresce, tanto quanto possível, a partir do local onde é apresentado.” Cai explica que a pólvora é um material que usa há muito tempo. “É destrutivo, mas também criativo. E como quero obter um determinado efeito, quero controlá-lo bem. Mas também aguardo com expectativa as suas surpresas. Mantenho-me aberto ao acaso e ao desconhecido. O facto de não ter total controlo interessa-me, pois isso mantém-me humilde”, confessa o artista.
Pintar o invisível
Em 2017, começou a investigar o potencial da inteligência artificial (IA) e desenvolveu um modelo de IA à sua medida, o cAI — pronuncia-se “AI Cai” —, que encara como seu “parceiro.” Juntos, realizaram uma série de projetos de diferentes escalas, incluindo o evento explosivo do ano passado, The Last Carnival, para a cerimónia de encerramento do Centro Pompidou, em Paris. “A imprevisibilidade da pólvora não só me inquieta, como também me entusiasma. O mesmo acontece com a minha interação com a IA. As qualidades desconhecidas e incontroláveis da inteligência artificial são, de facto, perturbadoras. Mas, hoje, perante a fragilidade e o conservadorismo da arte contemporânea, espero que a IA possa ajudar-me a libertar a minha criatividade e a atingir dimensões para além da cognição humana.”
Uma carreira é feita de marcos? – questionamos. “Os marcos de uma carreira não são necessariamente uma obra, exposição ou prémio. Mais importante são os momentos que permitiram redescobrir-me e compreender os limites da arte”, sublinha ao JE.
“No final de 1986, mudei-me da minha terra natal, Quanzhou, para o Japão. Nesse período, interessavam-me as cosmologias metafísicas e a relação entre humanos e natureza. Em 1995, fui viver para Nova Iorque e comecei a dar mais atenção a assuntos ligados a política internacional”, conta. “O público pode estar mais familiarizado com o meu trabalho na Bienal de Veneza, a minha retrospetiva individual no Guggenheim, ou os fogos de artifício para a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, mas estes projetos não foram relevantes apenas pela sua escala. Cada um deles impeliu-me para um novo limite.”
Questionar é um exercício, uma forma de investigar constante na prática de Cai Guo-Qiang. E dá-nos exemplos. “Pode a criação de um grande evento público tornar-se uma obra de arte? Pode uma obra de arte fixar-se na memória pública? Pode ser, ao mesmo tempo, grandiosa e íntima? Será que o sonho de uma pessoa pode tornar-se um momento testemunhado coletivamente por muitos?”.
Cai é um pensador, mas diz-nos que não se atreve a dar conselhos a jovens que querem ser artistas. Foi um pedido nosso, a que respondeu com generosidade. “A arte não é, em primeiro lugar, sobre resolver problemas sociais; é, antes de mais, um lugar para [cada um] enfrentar os seus próprios problemas, desejos, medos, memórias e contradições.” Importa compreender a história da arte e o mundo atual e, por outro lado, ter um profundo autoconhecimento, para “poder tecer uma relação com os outros a partir da obra criada.” Ele que acredita que a arte constrói pontes porque pode criar “um espaço de experiência partilhada e de diálogo.” Ora, o Babell, no Porto, quer reunir as pessoas através da arte e da literatura. Uma mensagem forte e necessária que a 1ª edição do festival quer disseminar.
A obra site-specific que Cai vai apresentar, a 27 de junho, está imbuída dessa vontade. E explica-nos como. “Cada vez estamos mais habituados a informação rápida que consumimos num ecrã. Por isso, criei para o Babell uma obra que procura abrir uma ‘página’ no céu, acima do Porto, como uma página de um livro que, ao mesmo tempo, pode ser uma ave; vazio e possibilidade — deixando espaço para a imaginação e para a escuta.” One Page, assim se intitula esta performance, será como um “verso breve” que, espera o artista, permita que pessoas de todo o mundo, reunidas sob o céu do Porto, nas margens do Douro, “abrandem por um momento, sintam o calor da escrita”, os mil e um universos que habitam a literatura, e abracem “aquela dimensão mágica do tempo e do espaço.”
O seu sonho de criança era ser pintor. As suas obras são, muitas vezes, descritas como “pinturas no céu.” É nesta imensa tela que Cai Guo-Qiang continua a explorar possibilidades, a imaginar sonhos poéticos, a pintar o invisível. No fundo, a comunicar com o cosmos.
‘One Page’, Cai Guo-Qiang | 27 junho, 20h15 | Ribeira do Porto-Cais de Gaia: no âmbito do evento literário Babell

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