Quando o ego também faz aquisições: CEOs narcisistas compram mais empresas quando estão em alta
Um novo estudo publicado no Strategic Management Journal veio acrescentar uma peça importante ao puzzle sobre o comportamento das lideranças empresariais: afinal, quando a performance da empresa está acima do esperado, alguns CEOs sentem-se tão confiantes que partem para aquisições — mas apenas alguns. Mais precisamente, os mais narcisistas.
A investigação, conduzida por Korcan Kavusan, da Erasmus University, Daniel Z. Mack e Gokhan Ertug, da Singapore Management University e Matthew P. Mount, da Deakin University, procurou explicar um mistério antigo na literatura de gestão: por que é que certas empresas fazem grandes movimentos estratégicos precisamente quando tudo está a correr bem? Por um lado, há quem defenda que “em equipa que ganha não se mexe”; por outro, há quem argumente que bons resultados apenas libertam recursos e confiança para ousar mais. A resposta, segundo este estudo, pode residir menos nos números e mais na personalidade de quem ocupa a cadeira do CEO.
Narcisismo e ambição: uma combinação explosiva para fusões e aquisições
Baseando-se em dados de empresas industriais cotadas no S&P 1500, ou seja, o índice que agrega 1500 empresas dos EUA, cobrindo cerca de 90% do valor de mercado do mercado acionista norte-americano, os autores analisaram o historial de aquisições das firmas e cruzaram-no com indicadores de narcisismo dos seus CEOs — métricas já validadas em estudos anteriores. Depois, observaram o desempenho das empresas face às suas aspirações ao longo do tempo.
O resultado? Quando a empresa está com um desempenho financeiro acima do esperado, um CEO com elevada dose de narcisismo tem maior tendência para partir para a compra de outras empresas. Já os líderes menos narcisistas fazem precisamente o contrário: evitam aquisições e preferem manter os pés bem assentes no chão.
Como explica Kavusan num comunicado, “embora as aquisições sejam realizadas para obter novos recursos, expandir capacidades e acelerar o crescimento, muitas acabam por não atingir os seus objetivos, destruindo valor para os acionistas”. Ou seja, nem sempre estas decisões refletem apenas as necessidades organizacionais — às vezes espelham também o ego, isto é, as fortes ambições pessoais de quem está ao leme do negócio. “As nossas descobertas mostram que essas decisões nem sempre são guiadas puramente por motivações organizacionais, como deveriam ser num mundo ideal, mas também podem ser influenciadas pelas ambições pessoais dos altos executivos.”
Para conselhos de administração atentos: olho vivo no entusiasmo do CEO
A principal conclusão para investidores, administradores e gestores é simples: convém perceber se o entusiasmo por uma aquisição vem da estratégia da empresa… ou da autoestima do executivo. Afinal, decisões multimilionárias com impacto no futuro da organização não devem ser tomadas por impulso — mesmo que este venha embalado por um desempenho acima das expectativas.
Garantir que os movimentos estratégicos são coerentes com as capacidades reais da empresa e não apenas com a ambição pessoal do líder pode evitar dissabores, más surpresas e relatórios trimestrais indigestos. Por isso, para conselhos de administração, investidores e gestores, o estudo enfatiza a necessidade de compreender melhor as motivações pessoais daqueles que defendem uma aquisição: se as partes interessadas puderem garantir que as decisões de aquisição estejam alinhadas com as reais necessidades e capacidades da empresa, nomeadamente entrar em novos mercados, adotar tecnologias ou reestruturar operações — e não apenas com as ambições pessoais de um líder —, elas podem aumentar as chances de que as aquisições criem valor.
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