Retirada dos Estados Unidos da OMS assente em “razões falsas”
O governo dos Estados Unidos e o presidente da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, voltaram a trocar farpas. A decisão de Trump, formalizada através de uma ordem executiva logo após a sua tomada de posse, baseia-se em críticas ferozes à gestão da Organização. O presidente norte-americano apontou o dedo à forma como a OMS lidou com a pandemia da Covid-19 e outras crises, citando uma “incapacidade de demonstrar independência” e um “falhanço” na implementação de reformas.
Outro ponto de discordância foi a nacionalidade da liderança: a administração norte-americana considera injusto que, em nove diretores-gerais desde 1948, nenhum tenha sido americano, apesar do peso financeiro e técnico que o país sempre aportou. No entanto, embora os EUA tenham cumprido o pré-aviso legal de um ano, recusaram pagar contribuições pendentes superiores a 260 milhões de dólares (221 milhões de euros).
“Infelizmente, as razões invocadas para a decisão dos Estados Unidos de se retirarem da OMS são falsas”, escreveu Tedros Adhanom Ghebreyesus numa publicação na rede social X (antigo Twitter), sublinhando que a OMS “sempre dialogou com os Estados Unidos, e com todos os estados-membros, respeitando plenamente a sua soberania”. Também na mesma rede social, o secretário de Saúde norte-americano, Robert Kennedy Jr, afirmou que a OMS deveria ser responsabilizada “pelas mortes de americanos sozinhos em lares de idosos e pelas pequenas empresas destruídas por obrigações irresponsáveis”, como o uso de máscaras e a vacinação. “Estamos a recuperar a nossa independência, a proteger a segurança americana e a devolver a política de saúde pública dos Estados Unidos ao povo americano”, acrescentou o governante.
Para Tedros Adhanom Ghebreyesus essa declaração “contém informações imprecisas”. “Ao longo da pandemia, a OMS agiu rapidamente, partilhou todas as informações de que dispunha de forma rápida e transparente com o mundo e aconselhou os estados-membros com base nos melhores dados disponíveis”, justificou o presidente. Além disso, referiu, “a OMS recomendou a utilização de máscaras, as vacinas e o distanciamento física, mas em nenhum momento recomendou o uso obrigatório de máscara, vacinação obrigatória ou confinamentos”.
Os EUA aderiram à OMS através de uma resolução conjunta de 1948, aprovada por ambas as câmaras do Congresso, que foi subsequentemente apoiada por todas as administrações. A administração Trump critica que países com populações superiores à dos Estados Unidos, como a China, paguem menos contribuições.
A perda do financiamento dos EUA poderá prejudicar numerosas iniciativas de saúde global, incluindo o esforço para erradicar a poliomielite, os programas de saúde materno-infantil e a investigação para identificar novas ameaças virais. De acordo com um estudo da revista científica The Lancet publicado em julho do ano passado, a decisão dos EUA deverá resultar em mais de 14 milhões de mortes prematuras até 2030.
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