A carregar agora

Lugar onde se vive condiciona “acesso, sucesso e distribuição regional” no Ensino Superior

Lugar onde se vive condiciona “acesso, sucesso e distribuição regional” no Ensino Superior

As condições socioeconómicas, bem como a presença – ou ausência – de instituições de ensino superior no município de origem do estudante são determinantes nas decisões de candidatura. Esta é uma das principais conclusões do relatório Desigualdades Regionais e Mobilidade de Estudantes no Acesso ao Ensino Superior, do EDULOG, think tank da Fundação Belmiro de Azevedo.
O estudo, da autoria de Pedro Luís Silva (coordenador), Carla Sá e Madalena Temudo,  divulgado esta quarta-feira, 28, aponta a distância como um dos fatores “mais penalizadores” da mobilidade, reduzindo, de forma significativa, os fluxos, sobretudo dos estudantes que concluíram os cursos científico-humanísticos. Já os alunos dos cursos profissionais tendem a realizar percursos mais curtos e concentram as suas escolhas em instituições politécnicas e opções de proximidade.
As perspetivas salariais e os custos de vida nos municípios onde se encontram as instituições exercem um papel crucial nessas escolhas dos candidatos ao Ensino Superior. Nas áreas metropolitanas, onde a oferta é mais ampla e diversificada, os estudantes revelam maior sensibilidade à distância. Em contrapartida, nos territórios do interior, a mobilidade é frequentemente uma necessidade, devido à escassez de alternativas locais, o que leva muitos estudantes a percorrer distâncias mais longas.
As universidades de grande dimensão, bem como as instituições com especializações em determinadas áreas, conseguem atrair estudantes além da sua região. Em contraste, os institutos politécnicos continuam a afirmar-se essencialmente como uma opção de proximidade.
Este enquadramento, conclui o estudo, evidencia um duplo desafio nacional: garantir que a origem geográfica não condiciona o acesso ao ensino superior e promover uma maior eficiência do sistema, reduzindo custos e mitigando o risco de abandono.
Estudar Medicina depende ainda mais das condições socioeconómicas do que outra área do conhecimento. De acordo com o estudo, Medicina acolheu, em média, apenas 2% dos diplomados do secundário que prosseguem para o ensino superior.
“Um sinal da elevada seletividade e da forte concentração institucional”, salienta, justificando: “Os resultados mostram que um aumento de 10% na distância entre o município de origem e a instituição de ensino superior traduz-se numa queda de apenas 1,5% nos fluxos de entrada, cerca de metade do observado no conjunto dos cursos científico-humanísticos”. Existe uma menor sensibilidade à distância, o que evidencia a forte atratividade de Medicina, “cujos elevados retornos e prestígio levam os estudantes a aceitar maiores custos de deslocação, atenuando o efeito dissuasor da distância”.
Os fatores socioeconómicos revelam um peso significativo nesta área. Um aumento de 10 p.p. na proporção de alunos que frequentam o ensino secundário privado está associado a um acréscimo de 3% nos fluxos para Medicina, salienta o estudo do EDULOG.
“A mobilidade dos estudantes no ensino superior continua fortemente dependente das condições socioeconómicas das famílias e do local onde vivem. A distância continua a ser um obstáculo determinante e, em muitas regiões, estudar fora permanece financeiramente incomportável”, sintetiza Alberto Amaral, membro do conselho consultivo do EDULOG.
Como agir face a estes resultados?
Os investigadores propõem que se reforcem as políticas públicas que reduzem as barreiras territoriais e evitem que a diferenciação institucional aprofunde as desigualdades existentes, nomeadamente através de apoios diferenciados à mobilidade. Propõem também o reforço do ensino superior no interior em áreas estratégicas, como a saúde, a tecnologia e as energias renováveis e a mitigação da desigualdade económica, através da monitorização de desigualdades no acesso consoante o background escolar e do reforço dos mecanismos de ação social escolar.
O estudo analisa as desigualdades regionais e a mobilidade dos estudantes no acesso ao ensino superior ao longo da última década. Baseado em dados administrativos de cerca de 724 mil jovens que concluíram o ensino secundário residentes em todos os municípios de Portugal Continental, o estudo usa um modelo gravitacional para estimar os fluxos de entrada nas diferentes instituições de ensino superior.

Share this content:

Publicar comentário