CEO da BlackRock releva importância do investimento e defende que o capitalismo está a “fragmentar-se”
O CEO da BlackRock, Larry Fink, que dirige uma das maiores gestoras de ativos do mundo, publicou esta segunda-feira a sua carta anual onde defende que o antigo modelo de capitalismo global “está a fragmentar-se” destacando ainda as potencialidades da inteligência artificial e o virtuosismo do investimento a longo prazo na geração de riqueza, mesmo em ambientes de incerteza.
A carta começa com um tom de incerteza. “Todos os anos, escrevo esta carta como um resumo de um ano inteiro de conversas com clientes e colaboradores, líderes mundiais, CEO — e pessoas que investem para a reforma. Ultimamente, não importa quem está a falar, todos dizem a mesma coisa: não sabemos como lidar com este momento”, começa por escrever Larry Fink.
Larry Fink referiu que esta incerteza que se vive é “compreensível”, adiantando que se vive num período em que coisas que definiriam uma década se “tornaram rotina”, como por exemplo: “guerras com repercussões globais, empresas bilionárias, uma reestruturação fundamental do comércio internacional e o advento da tecnologia mais significativa desde, pelo menos, o computador”.
O CEO da BlackRock salienta que com demasiada frequência isso é filtrado “por uma perspetiva de curto prazo” em que os movimentos diários do mercado são tratados como “sinais de mudanças duradouras, e as transições económicas ou tecnológicas complexas são reduzidas a manchetes”. Larry Fink salienta ainda que se vive num mundo onde a informação se “move instantaneamente” e as reações surgem à mesma velocidade. “Por vezes, pode parecer que tudo é movido a dopamina — onde o estímulo constante recompensa os impulsos de curto prazo. Mas a velocidade pode distorcer a perspetiva, sufocando o pensamento a longo prazo”, reforçou o CEO.
“Para sermos justos, nos mercados financeiros, toda esta atividade de curto prazo tem um propósito. É assim que a nova informação é absorvida, os riscos são precificados e o capital é alocado”, acrescenta.
CEO da BlackRock destaca importância do investimento
Apesar de tudo isto, Larry Fink considera que ao longo do tempo “manter-se investido tem sido muito mais importante do que acertar no momento certo”, salientando que nas últimas duas décadas, cada dólar investido no S&P 500 [índice bolsista norte-americano] rendeu mais de oito vezes. “Se perdesse apenas os dez melhores dias, teria ganho menos de metade disso. E alguns dos dias mais fortes do mercado ocorreram no meio das notícias mais preocupantes”, salientou o CEO da BlackRock.
Para Larry Fink o perigo reside em nos concentrarmos tanto no ruído que nos “esquecemos do que realmente importa”, sublinhando que as forças por detrás das manchetes de hoje “têm vindo a acumular-se” há muito tempo.
“O antigo modelo de capitalismo global está a fragmentar-se. Os países estão a investir somas enormes para se tornarem autossuficientes — em energia, defesa e tecnologia”, destaca o CEO da gestora de ativos.
Larry Fink adianta que a vasta maioria da riqueza “fluiu para as pessoas que possuíam património”, e não para aquelas que ganhavam a maior parte do seu dinheiro a trabalhar. “Desde 1989, um dólar no mercado bolsista norte-americano valorizou mais de 15 vezes o valor de um dólar ligado ao rendimento mediano. Agora, a inteligência artificial ameaça repetir este padrão a uma escala ainda maior — concentrando a riqueza entre as empresas e os investidores em posição de a captar”, considera o CEO da BlackRock.
CEO destaca investimento a longo prazo
“É daí que vem grande parte da ansiedade económica atual: uma sensação profunda de que o capitalismo está a funcionar — só que não para um número suficiente de pessoas. E focar-se em investimentos de curto prazo não é a solução para isso. Na verdade, é o investimento a longo prazo que permite aos países construir indústrias nacionais, que permite às pessoas acumular riqueza duradoura e mostra como o crescimento do seu país também as pode beneficiar”, considera BlackRock na carta publicada esta segunda-feira.
Larry Fink destaca que na sua melhor forma o investimento a longo prazo realiza uma espécie de “milagre cívico”. O CEO da BlackRock refere que quando as pessoas investem as suas poupanças, ao longo de décadas, e não de dias, os mercados de capitais “colocam esse dinheiro a trabalhar”, financiando empresas, infraestruturas e empregos. “E quando este ciclo acontece no seu próprio país, o seu futuro e o futuro da sua nação tornam-se interligados. Ajuda a financiar o crescimento do país. O país ajuda a financiar o seu”, afirma.
“A minha crença neste milagre cívico é obviamente moldada pelo meu trabalho. Mas não falo apenas como CEO da BlackRock — esta crença reflete décadas de experiência a observar como o investimento pode ajudar mais pessoas a partilhar o crescimento económico”, reforçou Larry Fink.
Larry Fink fala de como família fez crescer a sua riqueza
E na carta Larry Fink deixa também o seu lado mais pessoal quando aborda a importância que o investimento teve na construção de riqueza por parte dos seus pais. “O meu pai nasceu em 1925. A minha mãe, em 1930. Não vieram de famílias ricas. O meu pai era dono de uma sapataria. A minha mãe era professora de inglês. Mas pouparam o que puderam e investiram”, conta Larry Fink na sua carta.
“Isto aconteceu nas décadas de 1950 e 60, precisamente quando o Sistema Interestadual de Autoestradas estava a ser construído, o boom industrial de meados do século estava a arrancar e o setor automóvel estava a remodelar a vida americana. E, à sua maneira, ajudaram a financiar tudo isto. Fizeram parte do capital que construiu a América moderna. E, com o tempo, os lucros voltaram para eles. Quando se reformaram, tinham poupanças suficientes para viver confortavelmente bem depois dos 100 anos. Porque a sua riqueza cresceu a par com a economia americana”, conta Larry Fink sobre os seus pais.
Larry Fink adianta que esta experiência, vivida pelos seus pais, tem também paralelos em outras regiões do mundo, que não os Estados Unidos.
“As famílias que investiram de forma ampla e consistente — durante períodos de depressão e guerra, inflação, crises financeiras e até uma pandemia global — tiveram a oportunidade de ver o seu património crescer juntamente com as suas economias. Esta história é a razão pela qual continuo otimista a longo prazo. Não porque o caminho seja fácil, mas porque os mercados tendem a recompensar aqueles que permanecem investidos no meio da incerteza”, conta o CEO da BlackRock.
Larry Fink salientou que é preciso expandir esta oportunidade de modo a assegurar que “mais pessoas possam ter uma participação no crescimento dos seus países”, tendo em conta que muitos estão de fora.
“Muitas pessoas não têm dinheiro para investir — famílias que vivem de salário em salário. Não pode investir se não tem a certeza se vai conseguir pagar a renda do próximo mês, as compras da próxima semana ou uma conta inesperada. Por conseguinte, o ponto de partida deve ser ajudar as pessoas a construir uma segurança financeira básica”, considera o CEO da gestora de ativos.
Larry Fink considera que isso já está a começar a acontecer. “As contas de poupança de emergência, nas quais os empregadores podem igualar as contribuições e os trabalhadores podem levantar sem penalizações, estão a ganhar força. E um número crescente de países está a experimentar contas de investimento abertas desde o nascimento, dando às crianças uma participação no crescimento do seu país desde o momento em que saem do hospital”, descreve o CEO.
CEO defende maior acesso a mercados de capitais
Mas mesmo perante este otimismo Larry Fink adianta que ainda assim cerca de 40% da população não tem acesso aos mercados de capitais.
“Os mercados funcionam quando os investidores confiam que podem comprar e vender a um preço justo”, considera o CEO. “Esta confiança ajuda as empresas a captar o capital necessário para crescer e permite às famílias diversificar os seus investimentos em vários ativos a baixo custo, em vez de dependerem apenas de um”, acrescenta Larry Fink.
“Alargar o acesso a este sistema — através de melhor tecnologia e educação financeira — poderá ajudar mais pessoas a participar no crescimento económico. Com o tempo, os mesmos avanços tecnológicos poderão também ajudar a trazer maior transparência e, potencialmente, um acesso mais alargado a partes dos mercados privados — áreas como as infraestruturas e o crédito privado, que tradicionalmente estão fora do alcance da maioria dos investidores individuais”, defende o CEO da gestora de ativos.
Na parte final da sua carta Larry Fink salienta que metade da população mundial transporta uma carteira digital no seu telemóvel. “Imagine se essa mesma carteira digital também lhe pudesse permitir investir numa vasta gama de empresas a longo prazo — tão facilmente como enviar um pagamento. A tokenização poderá ajudar a acelerar este futuro, atualizando a infraestrutura do sistema financeiro — tornando os investimentos mais fáceis de emitir, negociar e aceder”, escreve o CEO da BlackRock.
“Por fim: escrever esta carta faz parte do meu dever para com os nossos acionistas e clientes. Mas é também uma carta. E as cartas servem para iniciar conversas. Espero que esta consiga. Procurarei uma variedade de perspetivas e pretendo destacar algumas que contribuam significativamente para a discussão”, finaliza Larry Fink.
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