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José Maria Ricciardi: O banqueiro impetuoso que tentou “salvar” o BES quando já era tarde demais

José Maria Ricciardi: O banqueiro impetuoso que tentou “salvar” o BES quando já era tarde demais

Morreu José Maria Ricciardi, o banqueiro que assumiu a tarefa de convencer os membros da família Espírito Santo a assinar uma petição a favor da substituição de Ricardo Salgado, em 2013, quando uma calamidade financeira ameaçava abater-se sobre o Grupo Espírito Santo. Pensava-se, nessa altura, que desencadear o processo de sucessão de Ricardo Salgado, mudando a liderança do banco, poderia segurar o grupo nas mãos da família.
“Quero dizer que, em outubro de 2013 — pouco depois de começar a ficar alerta para os problemas do banco —, fiz um documento assinado por seis membros do conselho superior, onde propus que Ricardo Salgado saísse”, confessou o ex-administrador do BES e ex-presidente do BES Investimento, num julgamento do “Caso BES”.
Esta demarche quase levou à sua demissão por parte do presidente do Banco Espírito Santo, seu primo direito pelo lado da mãe. Tal como relatado no livro “O Fim da Era Espírito Santo”, nessa altura há uma tentativa de afastar José Maria Ricciardi da presidência do banco de investimento. Ricardo Salgado aventura-se a usar o poder que lhe dava o facto de ser presidente do banco para demitir o incómodo presidente da subsidiária. O argumento era simples: não podia manter um vogal que publicamente tinha afirmado que não lhe dava o voto de confiança.
Aponta-se a José Maria Ricciardi também a autoria das denúncias da administração do BES ao regulador. Numa carta dirigida ao Banco de Portugal, alertou para a concentração de poder “num núcleo pequeno sob a direção” de Ricardo Salgado, antecipando problemas que depois viriam a confirmar-se.
Nessa altura, as denúncias de José Maria Ricciardi ao Banco de Portugal debruçavam-se sobre suspeitas, nomeadamente relacionadas com as comissões que o primo recebia de clientes. Mais concretamente, a “liberalidade” do construtor José Guilherme, de 14 milhões.
Mais tarde, contou que o então governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, “respondeu-me que já tinha feito pessimamente em dizer coisas aos jornais” e disse-lhe que o BES era “um banco sistémico e que a guerra que estava a travar com Ricardo Salgado estava a prejudicar o setor financeiro”.
O antigo presidente do BESI só conheceu os problemas de falsificação de contas no grupo em 2014. “Se tivesse sabido de alguma coisa mais cedo”, teria feito “comunicado ao Banco de Portugal, cumprindo o dever de diligência ao qual qualquer administrador de um banco está obrigado”, disse numa entrevista ao Observador.
José Maria Ricciardi defendeu, quando foi ouvido no julgamento do “Caso BES”, que só teve a certeza da grave realidade do Grupo Espírito Santo quando uma “fonte anónima” lhe entregou um documento em maio de 2014. “Esse documento, que é uma espécie de conversa gravada entre Francisco Machado da Cruz e o Schumer [advogado], explicava a verdade. Quando esse documento me chegou às mãos, eu entreguei-o, nesse dia, ao Banco de Portugal. Foi o que fiz”, relatou.
O problema do Grupo Espírito Santo radicava numa holding que sustentava todo o grupo, sediada no Luxemburgo. O Banco de Portugal tinha denúncias e suspeitas, mas, quando batia à porta, respondiam: “Isto não é um banco e não é português”. Foi preciso, com a troika, que o Banco de Portugal tivesse ordens para pedir as contas dos 12 maiores clientes de cada banco e, então, lá estava a ESI (Espírito Santo Internacional). Foi esta análise (ETRICC) que permitiu descobrir que a ESI tinha apagado dívida do balanço, o que significava que estava falida. A dívida colocada nos clientes dos bancos e que vencia a curto prazo somava 6 mil milhões de euros e ameaçava ruir todo o edifício financeiro conhecido como Grupo Espírito Santo.
Numa das sessões do julgamento do “Caso BES”, José Maria Ricciardi foi explicando a alegada estratégia de Ricardo Salgado para cobrir a falta de liquidez da Espírito Santo Control, a holding que dominava o universo GES, e como isso implicava a movimentação de fundos da Espírito Santo Internacional, que tinha contas falsificadas e um prejuízo de 1.200 milhões de euros.
Estávamos no dia 11 de setembro de 2013, quando o Banco de Portugal decidiu aprofundar a avaliação dos créditos concedidos pelos bancos portugueses a um conjunto de grupos económicos, nacionais e estrangeiros, cuja recuperabilidade dependia exclusivamente da capacidade dos seus planos de negócio de médio prazo gerarem fluxos de caixa suficientes para assegurar o reembolso da dívida.
Foi em resultado dessa ETRICC 2 — por única e exclusiva atuação do Banco de Portugal — que foi detetado, no final de novembro de 2013, que as contas publicamente divulgadas pela ES International não refletiam a sua verdadeira realidade financeira.
A entrada de José Maria Ricciardi para a cúpula do Grupo Espírito Santo — o chamado conselho superior, liderado pelo pai, o comandante António Ricciardi — deu-se em 2012 e, logo nessa altura, as tensões entre os primos eram elevadas. Estamos a falar do órgão máximo que representava as cinco famílias que controlavam o grupo.
“A primeira vez que cheguei ao conselho estavam todos os membros, incluindo o meu pai. O meu pai informou-me de que não podia começar, porque não estava lá Ricardo Salgado. Foi um grande espanto, porque era um vogal como os outros.” Este foi o começo de um desentendimento. Nessa altura, Ricardo Salgado “começou a debitar o que decidiu fazer, o que tinha feito e o que se ia fazer, e eu levantei o braço e perguntei se o conselho era um sítio para discutir as estratégias do grupo ou se era um conselho para ouvir o que ele decidiu fazer”, contou José Maria Ricciardi num dos testemunhos no julgamento do processo BES.
O banqueiro era conhecido por ser temperamental e por ter discussões em que defendia “apaixonadamente” os seus argumentos. Foi profundamente afetado pelo fim do grupo da família.
“A propriedade tem um peso tão sagrado que ameaçá-la é correr o risco de ficar detido entre a desunião dos vivos, mais pesada que a justiça.” A desunião dos vivos marcou profundamente José Maria Ricciardi, que, em 2016, citado pela Sábado, admitia o isolamento no seio familiar: “Sou visto como um traidor pela família.”
José Maria Espírito Santo Silva Ricciardi, quinto filho do comandante da Marinha de Guerra e de Vera Cohen Espírito Santo, segunda filha do banqueiro do Estado Novo Ricardo Espírito Santo, morreu esta quarta-feira, dia 25 de março, com 71 anos, numa luta contra um cancro detetado em 2020.
Nasceu em Lisboa, a 27 de outubro de 1954. Ricciardi foi uma das figuras mais mediáticas da banca portuguesa. Economista de formação, construiu grande parte da sua carreira no Grupo Espírito Santo (GES), onde se destacou na área da banca de investimento.
Licenciado em Ciências Económicas Aplicadas pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, iniciou o seu percurso profissional no final da década de 1970, no Rio de Janeiro, no Brasil, no Banco Inter-Atlântico. Regressou à Europa para integrar a área financeira do universo Espírito Santo. Nos anos 90, entrou para a Espírito Santo Sociedade de Investimentos (ESSI), que viria a dar origem ao Banco Espírito Santo de Investimento (BESI), do qual se tornaria vice-presidente em 1995. Foi presidente executivo do BESI, o banco de investimento do Banco Espírito Santo, entre 2003 e 2017, sucedendo a Manuel Serzedelo de Almeida.
É à frente do BESI, sobretudo a partir de 2003, como presidente da comissão executiva, que Ricciardi ganha protagonismo. Sob a sua liderança, o banco de investimento reforçou a presença internacional e afirmou-se como um dos principais operadores portugueses na banca de investimento. O banco chegou a estar presente em 16 mercados, nomeadamente Brasil, Espanha e Reino Unido.
José Maria Ricciardi foi um gestor-chave neste percurso, que culminou na venda, após a crise do BES, em 2015, ao grupo chinês Haitong. Deixou a liderança do Haitong Bank (antigo BESI) em dezembro de 2016.
Depois de sair do Haitong Bank, regressou à atividade financeira enquanto investidor, entrando, em 2018, na Optimal Investments, consultora fundada dois anos antes por Jorge Tomé, antigo CEO do Banif e da Caixa Banco de Investimento.
Também em 2018 avançou com a candidatura à presidência do Sporting Clube de Portugal, para tentar suceder a Bruno de Carvalho, mas perdeu para Frederico Varandas.

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