Na Antena 2, a arte que toca é muito mais que um slogan
Os sons da cidade ficaram lá fora. O trânsito, as pessoas que passam, o pulsar da urbe não entra aqui. Mas entram muitos mundos. É só fechar a porta, premir uns quantos botões e ligar o microfone para ver acontecer. Uma luz acende. “No ar”. Tudo a postos. O programa vai começar. O nosso interlocutor é Nuno Galopim, um excelente conversador que, desde outubro de 2025, é sub-diretor da Antena 2, onde se estreou nas ondas hertzianas em 1989. “O meu primeiro programa de rádio foi sobre os compositores minimalistas, na Antena 2, chamado ‘Música em 12 partes’. Depois passei para a Antena 1 e ali fiquei. Depois para a XFM. Daqui fui para a Antena 3, depois para a Radar, voltei à Antena 3, depois Antena 1, e de novo para a Antena 2.” Nos últimos quatro anos de Antena 1, coube-lhe dirigir também a RDP África e a RDP Internacional. “No fundo, fiz o ecossistema todo, o que é muito bom,” conclui, sorridente.
Queremos saber se lhe deu gozo. “Muito, muito, muito gozo, mas este é o que me dá mais. Porque é onde me sinto em casa.” Uma palavra forte, esclarecedora. “Apesar de ter trabalhado, sobretudo enquanto jornalista, durante 30 anos, à volta da música popular, o que sempre ouvia em casa e o que sempre gostei de comprar, de ler e tratar como um espaço de conforto, foi a música clássica. E sobretudo as músicas do século XX e agora do século XXI, não deixando eu de ter os séculos XIX, XVIII e XVII representados. Mas gosto muito da música do nosso tempo.” Se David Byrne é alérgico à nostalgia, Nuno Galopim faz a apologia da música que “cruza os ecos do nosso quotidiano e traduz a sociedade em que estamos.” Sem nunca prescindir do que a precede. Pausa. Ajustamos o foco que aqui nos traz: a Antena 2. E do papel da antena naquilo a que podemos chamar de literacia da escuta, na divulgação dos mais diversos géneros musicais. E não só.
“Quando aqui voltei, uma das primeiras coisas que fiz foi falar com a equipa toda e tentar perceber os gostos e interesses de cada um e repensar a grelha de programas, valorizando essa multiplicidade. Só em casa já tínhamos praticamente os ecossistemas a que a rádio tem que se votar cobertos”. Fala de ‘casa’, uma vez mais. Sem esquecer os “ecos do mundo”, pois esta é uma casa aberta, montra de novos talentos e também de músicas do mundo, “que mantém uma promoção diária à meia-noite, agora com vários autores”, diz ao JE, e que também integra “as novas expressões urbanas que são ecos do mundo de hoje.”
Divulgar as novas gerações de músicos
Uma casa feita de radialistas, sim, mas também de musicólogos, instrumentistas e “gente nova com conhecimento.” Uma combinação que acrescenta valor. Não tem dúvidas sobre isso. Por trás da secretária, na parede, um quadro exibe a grelha de programação. Uma espécie de GPS para navegar e fazer brainstorming. A solo e com toda a equipa, claro. Os encontros começaram por ser semanais, para “partir pedra e afinar as notas”. Mais recentemente, com as notas a fluir, passaram a ser quinzenais. A equipa reagiu bem ao ritmo que imprimiu, ele que é “um bocadinho acelerado”, confessa. Modus operandi oleado a entusiasmo, questionamos. Nuno Galopim confirma. “Acho que entusiasmo é a forma como trabalhamos aqui. É entusiasmo pela música e gosto em partilhar. Sai um disco, uma gravação, e damos por nós aqui a conversar. O entusiasmo depois acaba por passar para a antena. Em todas as frentes e com todas as músicas.”
O cânone está bem representado – são vários os programas focados na música erudita, antiga e contemporânea –, mas também estão atentos às rotinas da novidade na criação musical. E dá um exemplo recente. “Sleep”, uma peça de 8 horas, de Max Richter, que a Fundação Louis Vuitton estreou no YouTube e que a Antena 2 transmitiu. Mas eis que a conversa já seguiu viagem rumo aos jovens intérpretes portugueses que a estação se orgulha de nutrir. E que são cada vez mais e melhores. “Temos novas gerações de músicos de altíssima qualidade a serem colocados em grandes orquestras. Ainda há dias, uma das grandes orquestras europeias revelou que, na próxima temporada, vai acolher 25 músicos portugueses, cinco em permanência e 20 como uma espécie de segunda linha.”
Aqui, um prémio irrompe na conversa. O Prémio Jovens Músicos (PJM) da Antena 2 que é uma montra do talento jovem. Chega este ano à 39ª edição e “já colocou no mapa muita gente importantíssima. Muitos dos grandes músicos de hoje já passaram por aqui. E eu dizia, a caminhar entre os concertos na última edição, que andar por ali é estar a caminhar entre as orquestras do futuro.” O PJM é uma peça central da programação da Antena 2, mas, salienta, “creio que é também visto pela RTP como uma das suas principais iniciativas, o que é muito bom.”
Programas pensados para o digital
Chamamos o serviço público à colação. “Isto é puro serviço público”, sublinha Galopim. “Agora, não esgotamos no PJM a nossa relação com os jovens músicos. Já temos a rotina feita com a Orquestra Sinfónica Juvenil e vamos começar agora com a JOP – Jovem Orquestra Portuguesa. A cada concerto que eles dão vêm dois músicos a estúdio falar de si, contar a sua história. ‘Porque é que eu comecei a estudar violino, porque é que eu cheguei a este instrumento, como tem sido o meu percurso, que perspetivas vejo para a minha vida futura’. Ou seja, aproveitamos cada concerto para dar a conhecer quem são os músicos do futuro e, depois, ao mesmo tempo, fazemos conteúdos digitais para dar a conhecê-los nas redes [sociais]. Aí é onde eles andam.”
Já tardava falarmos na adaptação da rádio ao digital. Não é fenómeno novo, mas ganhou novo impulso. “É onde temos de estar para os chamar para a marca Antena 2, esperando eu que eles depois cheguem, eventualmente, ao consumo dos programas.” Em streaming, em Audio on Demand, na RTP Play, onde estão disponíveis. O entusiasmo ganha novo elã. “Abrimos uma linha chamada ‘Antena 2 Ao Vivo’, com gravações feitas aqui em estúdio.” O violinista Jihang Wang, que está na Orquestra Sinfónica Juvenil, é o próximo. Objetivo? “Trazer jovens músicos ao estúdio com regularidade para dar a conhecê-los para além do trabalho nas orquestras. Para ajudá-los a criar um portefólio, porque saem daqui com vídeos, gravações áudio, que são partilhadas no site da Antena 2.”
A dinamização da operação digital da rádio passa, precisamente, por aqui, “porque os jovens músicos são o ponto de partida dos futuros ouvintes da Antena 2. Eles e os seus amigos, e o mundo ao seu redor”. Mas não se esgota no PJM. Já foi dito e as audiências da FM assim o atestam. Eis algumas pistas. “Nos níveis de uma rádio de nicho, como a Antena 2, os valores são estáveis. Agora, nós sentimos um crescimento da operação digital, e isso é muito importante. E também é curioso ver as medições do próprio streaming em direto, de verificar os horários em que as coisas estão a funcionar, porque é importante ter uma noção.”
Há uma boa resposta em Audio On Demand (AOD) de programas noturnos, mas o streaming em direto ao longo do dia “já é bastante estável”, realça. É o caso do programa da manhã e do fim da tarde, que têm boa escuta em carro. Já no streaming em direto, o fim da manhã e o início da tarde “tem muita gente a ouvir”, apesar de ao longo do dia “estar muito estável”, reforça Galopim. “Depois notamos que há uma série de programas que já geram tração digital fora dos horários. As pessoas já começam a ouvir os programas quando querem.” Dá alguns exemplos, como o Compositor do Mês, o Jazz a 2 – premiado pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) em 2018 como Melhor Programa de Rádio – e A Ronda da Noite, que é o programa mais ouvido em AOD.” Nem de propósito, Luís Caetano, apresentador da ‘Ronda’, recebeu esta semana o Prémio Igrejas Caeiro 2026, também atribuído pela SPA.
“Há vários programas que estão a criar o seu público e que os ouvem quando entendem. Esse é o futuro da distribuição das rádios que não vivam da informação em direto ou dos grandes eventos em direto. O futuro tem muito a ver com esta capacidade de chegarmos a um relacionamento com os conteúdos semelhante ao que já temos com o audiovisual nas plataformas.” No caso da rádio, “ouvir o que queremos, quando queremos.”
A revolução está em curso, ou melhor, a adaptação ao mundo digital, de uma equipa de 12 pessoas. O núcleo duro, entenda-se. A que se juntam colaboradores e parceiros. Mas a verdade é que muitas vezes não se tem a noção do quanto ‘poucos’ podem ser muitos, na diversidade de propostas que é, no fundo, a essência da Antena 2. E que espraia o seu alcance estando presente na plataforma da EBU – European Broadcasting Union, para que as rádios de serviço público clássicas de outros países europeus possam divulgar os seus programas.
As linhas da frente da invenção do futuro
O futuro não se faz apenas de novos ouvintes, mas também dos indefetíveis de longa data da antena. E de programas com qualidade, tempero imprescindível a uma rádio que se recusa a estagnar. “É fundamental manter a operação linear o mais bem possível e recheada de bons programas, mas ao mesmo tempo ter capacidade de trazer alguns desses programas, e também conteúdos originais, para estas novas formas de comunicar”, afiança Galopim. E sorri perante a inevitável questão dos desafios que a Antena 2 tem pela frente. “São tantos… Apesar de não haver a questão comercial, de não termos objetivos comerciais, queremos ter público. Não podemos viver sem querer saber se nos ouvem ou não.” A apatia aqui não entra e os desafios antecipam-se. “Um deles é conseguir manter uma relação com a produção cultural do país e dar voz às várias expressões de tudo o que é feito. Porque isso tem de continuar a acontecer e nem sempre todos os órgãos de informação têm muito espaço para dar conta da variedade de propostas que existem.”
A motivação é essa e persegue-se com garra, determinação e muito ânimo. Até porque, sendo a programação musical o core business da Antena 2, é ponto de honra garantir a diversidade de géneros e apontar ao futuro. Como diz Nuno Galopim, com ênfase, “aqui cabe quase tudo. Cabem muitos séculos e cabem as linhas da frente da invenção do futuro.” Damos, então, a palavra ao futuro. Como quer ele ver a Antena 2 a breve trecho?
“Já com ecos deste relacionamento com novas gerações de músicos, sem perder o público fiel que está connosco há muito tempo. É também para eles que é pensada grande parte da programação diária. E espero que esta dinamização maior da criação e exposição de conteúdos digitais comece a mobilizar públicos, não necessariamente para o FM, mas para o Audio On Demand e streaming. Ou seja, que se consiga fazer uma transição digital recrutando novos públicos. Acredito que entre as escolas de música, entre as jovens orquestras, está um ponto de partida, não o único, mas um ponto importante, para lhes mostrarmos que esta rádio fala deles.” A tecnologia pode arrombar a porta e entrar sem pedir licença, mas a capacidade de reinvenção da rádio, à boleia, precisamente, da tecnologia, vai continuar a fazê-la vibrar. Para ouvirmos o que quisermos, onde quisermos. Com prazer.
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