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Portugal desperdiça cerca de mil toneladas de alimentos por dia, alerta da Zero

Portugal desperdiça cerca de mil toneladas de alimentos por dia, alerta da Zero

No Dia Internacional do Resíduo Zero, assinalado a 30 de março, a associação ambiental ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável lança um alerta contundente: as famílias portuguesas poderão estar a desperdiçar diariamente cerca de mil toneladas de alimentos. A estimativa resulta de um estudo recente conduzido no município de Ourique e agora divulgado publicamente.
A data, instituída pela Assembleia Geral das Nações Unidas em dezembro de 2022, serve de enquadramento para uma reflexão mais ampla sobre o desperdício ao longo de toda a cadeia alimentar — da produção ao consumo doméstico. E é precisamente neste último ponto que os dados revelados se mostram particularmente preocupantes.
Segundo a ZERO, “uma população de apenas 300 habitantes pode chegar a desperdiçar até 12 toneladas de alimentos por ano nas suas habitações”. A partir desta amostra, a associação extrapola que uma cidade com 100 mil habitantes poderá gerar cerca de 3760 toneladas de alimentos desperdiçados anualmente.
À escala nacional, o cenário torna-se ainda mais expressivo: “estaríamos perante números de desperdício alimentar que rondariam as 376 mil toneladas por ano, ou seja, 38 kg por habitante por ano, ou ainda cerca de mil toneladas por dia”. Um volume que, sublinha a organização, levanta “questões éticas, ambientais e económicas”, traduzindo-se numa perda significativa de recursos.
Radiografia ao lixo doméstico
O estudo baseou-se na caracterização física de resíduos indiferenciados recolhidos em três circuitos porta-a-porta no concelho de Ourique. No total, foram analisados 250 kg de resíduos em dois momentos distintos ao longo de um ano, seguindo normas técnicas nacionais e metodologias complementares utilizadas em regiões espanholas.
Os resultados mostram que 51% dos resíduos indiferenciados correspondem a biorresíduos. Dentro desta fração, o desperdício alimentar — que inclui restos de comida cozinhada ou alimentos ainda próprios para consumo — representa 28%, equivalendo a 16% do total de resíduos analisados.
“Mesmo havendo separação na origem dos biorresíduos alimentares, as famílias tendem a colocar uma parte importante dos alimentos no lixo indiferenciado”, refere a ZERO. Entre os exemplos identificados estão frutas, legumes, pão e até produtos ainda embalados.
Um problema estrutural
Para a associação, estes números evidenciam falhas estruturais na gestão de resíduos e nos padrões de consumo. Apesar da existência de sistemas de recolha seletiva, a sua utilização permanece insuficiente e o desperdício continua a ocorrer em larga escala.
O diagnóstico, defendem, deve ser aprofundado e replicado noutros municípios, envolvendo comunidades locais, escolas e empresas. Só assim será possível identificar padrões e implementar políticas públicas mais eficazes.
Soluções ao estilo “Resíduo Zero”
Face ao cenário traçado, a ZERO propõe um conjunto de medidas alinhadas com a abordagem “Zero Waste”, que podem ser integradas em planos municipais ou adotadas por entidades privadas.
Entre as principais recomendações estão o desenvolvimento de programas de racionalização de doses em escolas e instituições, campanhas de sensibilização em mercados municipais, promoção da doação de excedentes alimentares e a realização periódica de estudos de caracterização de resíduos.
A associação defende ainda a eliminação de critérios estéticos na comercialização de produtos agrícolas, como forma de reduzir o desperdício de frutas e legumes que, apesar de próprios para consumo, são rejeitados por razões de aparência.
“O caso de Ourique mostra que, mesmo quando existem soluções adequadas de tratamento, é fundamental conhecer a composição dos resíduos indiferenciados”, sublinha a ZERO, defendendo que esse conhecimento é essencial para decisões políticas mais informadas e eficazes.
Num dia dedicado à urgência de reduzir o desperdício, os números agora divulgados deixam claro que o desafio em Portugal está longe de ser residual.

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