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De presidente a primeiro-ministro em apenas uma eleição

De presidente a primeiro-ministro em apenas uma eleição

“Já somos membros de Schengen e da Zona Euro. As questões que se colocam são as seguintes: porque é que a concretização destes objetivos não trouxe estabilidade e satisfação; porque é que os búlgaros deixaram de votar; porque é que não confiam no sistema judicial e não confiam nos meios de comunicação social; porque é que os cidadãos inundaram as praças duas vezes; porque é que, numa Bulgária europeia, uma grande percentagem de pessoas se sente pobre e uma percentagem ainda maior vive na insegurança?” A catadura de perguntas não é feita por um membro da oposição, por um analista desiludido ou por observador desinteressado. É feita por Rumen Radev, um ex-major-general da Força Aérea da Bulgária, que até à terceira semana de janeiro era presidente do país. Demitiu-se ao cabo de nove anos na função, criou um novo partido, concorre ao cargo de primeiro-ministro nas eleições antecipadas para o próximo dia 19 de abril e está confortavelmente à frente nas sondagens. Além disso é eurocético (quis marcar um referendo sobre a entrada do país na Zona Euro, a 1 de janeiro deste ano, mas o parlamento não deixou) e pró-russo (“em nome do seu futuro político, alguns políticos estão a pôr em risco a vida pacífica dos búlgaros, no meio de uma guerra perigosa perto das nossas fronteiras”, disse recentemente).
Num país que foi governado durante vários anos pelo GERB (Cidadãos para o Desenvolvimento Europeu da Bulgária), de direita conservadora e populista, comummente conotado com a extrema-direita, a ascensão meteórica do Bulgária Progressista, o partido lançado por Radey há umas poucas semanas, só espanta quem não segue a política búlgara, marcada por sobressaltos políticos constantes. O último deles foi especialmente marcante: no dia em que o país entrou no euro, era governado por um executivo demissionário – que o era porque não tinha encontrado forma de fazer aprovar o Orçamento do Estado para 2026. O primeiro-ministro, à época demissionário, Rosen Zeliaskov, do GERB, conseguiu a proeza de, face à proposta orçamental, lançar os búlgaros em enormes manifestações de desagrado como há muito não se viam no país.
Não espanta, por isso, que o Bulgária Progressista se encontre à frente nas sondagens com mais de 35% das intenções de voto, bem à frente do GERB, que não consegue ir além dos 20%. A coligação PP+DB (de centro-direita, formada pelo Continuamos a Mudança e pelo Bulgária Democrática, surge em terceiro lugar, com 12%, seguido do Movimento pelos Direitos e Liberdades – Um Novo Começo, também de centro-direita, com 10%. As forças de esquerda surgem apenas na sexta posição, assumida pelo BSP, Partido Socialista Búlgaro, que tem apenas 4% das intenções de voto.
 
Dias difíceis para a UE
Se Rumen Radev ganhar, como tudo indica, a União Europeia pode contar com um novo problema – que pode não ser tão difícil como aquele que enfrenta na Hungria, mas que terá contornos repetidos: a sensação de que a longínqua Bruxelas olha com alguma reserva para os países da antiga Cortina de Ferro, aos quais permitiu a entrada na União Europeia porque não podia continuar a fazer de conta que a Europa não havia mudado radicalmente em 1991, com o fim da União Soviética. Situados lá longe nas margens do Mar Negro (como a Roménia e a Ucrânia), os búlgaros nunca conseguiram criar uma relação confortável com a União Europeia.
Apesar disso, o país tem crescido a um ritmo constantemente superior ao da média da União – entre os 2,5% e os 3,5% (salvo no período da pandemia), a pontos de alguns empresários portugueses terem dito há uns meses que Portugal estava prestes a ser ultrapassado pela Bulgária em termos de PIB per capita – o que, na sua ótica, era uma afronta inqualificável.
A sua economia está bem ancorada na União: a Alemanha é simultaneamente o seu maior fornecedor e o seu cliente mais importante. Mas a Bulgária não perdeu o pendor regional: a vizinha Roménia é o seu segundo maior cliente. Como também não perdeu laços históricos e vontade de diversificar para fora do bloco: a Turquia (herdeira do velho Império Otomano) figura em quarto lugar na lista dos seus maiores clientes.
 

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