Hungria: “recuperar 19 mil milhões de fundos europeus” é a prioridade de Péter Magyar
As diferenças entre o vencedor das eleições húngaras, Péter Magyar, e o principal derrotado, Viktor Orbán – oriundos do mesmo partido político, o Fidesz, são suficientemente fortes para determinarem uma mudança nos fundamentos políticos do Estado e um consequente alinhamento com a União Europeia. As diferenças entre ambos “são suficientemente grandes para se perceber que a situação vai melhorar significativamente, de um lado para os próprios húngaros, porque o clima de domínio sobre o sistema judicial e sobre a regulação social não é o timbre de Péter Magyar, e depois porque os fundos que a Europa foi retendo ao longo do tempo por encobrimento das condicionalidades do Estado de Direito, já vão em quase 19 mil milhões de euros”, recorda o eurodeputado liberal João Cotrim de Figueiredo. Que acredita que o novo primeiro-ministro vai insistir na recuperação da imagem da Hungria.
Desde logo, assegura, apoiando o empréstimo à Ucrânia de 90 mil milhões de euros que estava aprovado desde o final do ano passado, mas que Orbán tratou de suspender. Mesmo assim, Cotrim de Figueiredo não tem dúvidas que a boa relação entre a Hungria e a Rússia não é para acabar de imediato: “isso é impossível”. Magyar “não é o maior dos amigos da Zelensky, não tem em relação à Ucrânia uma posição tão solidária como a generalidade dos países da União Europeia, mas não vai obstaculizar este empréstimo. E, por outro lado, cerca de 30% do petróleo e do gás que entram na Hungria são originários da Rússia: “não é possível desligar” essa ‘torneira’ de um momento para o outro. Aliás, recorda, “o mesmo se poderia dizer sobre a Eslováquia”.
Ou seja, admite, “não embandeiro em arco com tanta euforia como a maioria dos colegas europeus. Por este motivo da dependência energética, Péter Magyar não vai poder fazer ruídos muito antagónicos em relação à Rússia, portanto vai ser sempre pouco entusiasta relativamente ao aumento de envio de material militar para a Ucrânia ou a novos pacotes de financiamento”. Como também “não vai poder fazer ruídos muito antagónicos em relação à China, porque há um conjunto de investimentos estruturais que os chineses fizeram na Hungria nos últimos tempos que também não aconselham” a esse antagonismo. Ou seja, a Hungria tem “dependências que vai ter que gerir, e lá ir ao longo do tempo”.
De qualquer modo, o facto de o líder da oposição ter conseguido uma muito expressiva votação e ter atingido a maioria absoluta de dois terços do parlamento tem pelo menos a vantagem de permitir que o novo primeiro-ministro inverta boa parte das alterações constitucionais que foram introduzidas para afirmar o domínio do Fidesz. O próprio Magyar já prometeu esta segunda-feira que estas alterações são a sua prioridade imediata depois de formar governo.
Já para Paulo Cunha, eurodeputado do PSD, “a derrota de Viktor Orbán e a vitória muito expressiva de Peter Magyar reforça a esperança de todos os europeus e dos húngaros, em especial”. Nesse contexto, o eurodeputado não tem dúvida do “regresso do governo húngaro à linha política da União Europeia”, o que é em definitivo “uma boa notícia para as democracias e para a solidez das respostas que a situação geopolítica global exige”. Nem de outra forma podia ser, na sua ótica: “os resultados eleitorais foram muito claros e estou convencido que estão criadas todas as condições políticas para a desejada mudança”.
Os deputados portugueses António Rodrigues, do PSD, e Luís Graça, do PS, integraram a missão de observação eleitoral da Assembleia Parlamentar da OSCE, que enviou mais de 130 observadores às eleições legislativas da Hungria. Em declarações à Renascença, Luís Graça disse que “o candidato da oposição é um dissidente do Fidesz. Ou seja, era de esperar um parlamento húngaro só com deputados de direita: da direita do Fidesz, do dissidente do Fidesz e da direita mais radical ainda do Nossa Pátria. “Portanto, quando se olha para este cenário, para um socialista, é algo que deixa muita preocupação”, referiu ainda antes de conhecidos os resultados.
Quem é Péter Magyar?
Há vinte anos, um jovem advogado húngaro sedento de justiça social, ou pelo menos farto de ver a corrupção a evoluir no país tomando conta do aparelho do Estado, juntou-se ao partido que empunhava a bandeira da ‘limpeza’: chamava-se Fidesz e era liderado pelo então líder da oposição, Viktor Orbán. A ascensão de Magyar no quadro interno do partido não demorou – principalmente a partir do momento em que se casou (em 2006) com outra figura em ascensão, Judit Varga – com quem teve três filhos – antiga ministra da Justiça.
Membro do Parlamento Europeu, Péter Magyar foi o ‘pai’ do Partido Respeito e Liberdade (Tisza). Há três anos, entrou em rutura com o partido de Orbán quando ainda era o seu próprio partido, desistiu de todos os cargos relacionados com o governo e formou uma nova plataforma política para os húngaros descontentes – tanto com o governo como com a inoperante oposição. O discurso de Magyar foi inesperadamente bem recebido e o seu partido conseguiu ficar em segundo lugar nas eleições europeias de 2024, apenas atrás do Fidesz, obtendo quase 30% dos votos.
Em 2024, Péter Magyar divulgou gravações de uma discussão que manteve com a ex-mulher a propósito do famoso escândalo de corrupção Schadl-Volner, o que teve o benefício de o colocar solidamente no lugar de alguém que quer preservar a verdade, contra os esquemas ilícitos do poder de Viktor Orbán. O caso, que envolvia abusos sexuais de menores, não podia ser mais sórdido. O casamento não sobreviveu. A carreira política de Judit Varga terminou abruptamente, quando Orbán a responsabilizou pelo alegado encobrimento do escândalo. Varga demitiu-se no meio da crescente indignação com o perdão concedido a um ex-funcionário condenado por ajudar a encobrir abusos num orfanato.
De 45 anos, Magyar é oriundo de uma família conservadora e abastada de Budapeste, a capital. Entre os seus familiares contam-se advogados e juízes proeminentes, bem como o ex-presidente Ferenc Mádl, eleito durante o primeiro mandato de Orbán enquanto primeiro-ministro.
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