Preço do hélio sobe com ataques ao Qatar e empresas sentem perturbações na oferta
O hélio, que é um subproduto do processamento do gás natural, é mais outra das matérias-primas que tem sido fortemente pressionada com o início do conflito no Médio Oriente tal como já aconteceu com o petróleo, o gás natural e os fertilizantes. Este gás tem aplicações nos semicondutores, saúde (exemplo: máquinas de ressonância magnética), na detecção de fugas, no enchimento de balões. Esta matéria-prima praticamente duplicou o seu preço desde o rebentar da guerra, de acordo com os dados divulgados pela CNBC através da Fitch Ratings. Empresas já sentem falta de fornecimento, como é o caso do setor tecnológico e da Air Liquide.
O Qatar é responsável por um terço da produção mundial de hélio. Em 2025, o país foi responsável por 63 milhões de métricos de um total global de 190 milhões de metros cúbicos, de acordo com um estudo do instituto geológico norte-americano. Mas as suas infraestruturas de gás natural, como é o caso de Ras Laffan (da Qatar Energy), anunciaram a suspensão do processamento de gás natural, com o rebentar do conflito no Médio Oriente.
O ataque ao complexo de Ras Laffan, local que processa cerca de 20% do fornecimento global de gás natural, em março, destruiu 17% da capacidade de exportação de gás natural do Qatar. Calcula-se que se possa perder 20 mil milhões de dólares em receitas anuais durante os próximos cinco anos, como admitiu o CEO da QatarEnergy, Saad Sherida Al-Kaabi, à agência de notícias Reuters. As reparações devem paralisar a produção de 12,8 milhões de toneladas de gás natural liquefeito, por ano, durante um período de três a cinco anos, disse o mesmo responsável.
Entre os maiores consumidores de hélio, vindo do Qatar, estão países como Coreia do Sul, Japão, China, numa lista onde também cabe Taiwan.
Os Estados Unidos são o maior produtor global de hélio, atingindo os 81 milhões de metros cúbicos, mais de 40% do total, de acordo com a Al Jazeera.
Empresas já sentem pressão no mercado
O grupo francês Air Liquide, que tem entre os seus fornecedores a QatarEnergy, confirmou a 30 de março que estava a existir uma “pressão” no mercado global por hélio, devido ao conflito no Médio Oriente, e assegurou que estava a trabalhar para “garantir o fornecimento” aos seus clientes. Isto porque o maior local de produção deste gás, da Qatar Energia, é Ras Laffan, uma infraestrutura que está danificada devido aos ataques decorrentes do conflito no Médio Oriente.
Em declarações transcritas pelo “Le Figaro“, a Air Liquide referiu que o grupo “depende de diversas fontes espalhadas por diferentes continentes, incluindo um local de armazenamento subterrâneo na Europa, para garantir o fornecimento” de hélio aos seus clientes.
No final de março a agência noticiosa Reuters dava conta que as perturbações ao nível da oferta no fornecimento de hélio, provocada pelo conflito no Médio Oriente, já estava a afetar a produção nas cadeias de abastecimento tecnológicas globais, tendo em conta que este gás é utilizado em várias etapas do fabrico de chips, deixando as empresas à procura de soluções alternativas.
“A escassez de hélio é uma preocupação absoluta”, referiu o sócio sénior da consultora de cadeia de abastecimento Tidal Wave Solutions, Cameron Johnson, citado pela Reuters, que referiu que uma escassez prolongada deste gás pode forçar cortes na produção e ter um efeito ‘bola de neve’ em setores que podem ir da eletrónica ao setor automóvel.
“Estávamos tão focados no fornecimento de gás que não nos apercebemos da escassez de hélio. O hélio é um componente essencial no fabrico de semicondutores, e uma parte significativa dele vem dos países do Golfo. Imaginem não ter chips para alimentar computadores portáteis, iPhones e pequenos eletrodomésticos? Tudo o que tem circuitos funciona com hélio, e todos estes dispositivos serão prejudicados se não conseguirmos obter hélio em breve”, acrescentou a especialista global em cadeia de abastecimento e professora associada de gestão de empresas na Darden School of Business da Universidade da Virgínia, Vidya Mani, citada pela CBS News.
A CBS News adiantou que os fornecedores de hélio já estão a avisar clientes, nos Estados Unidos, onde se inclui fabricantes de semicondutores e eletrónicos, para esperarem aumento de preços e escassez deste gás. “Já estão a receber cartas de force majeure (acontecimento que impede o cumprimento de uma obrigação contratual) e de alocação de recursos. Os efeitos já se fazem sentir”, referiu Cliff Cain, da Pulsar Helium, empresa de exploração e desenvolvimento de hélio, à CBS News.
Condicionamento do estreito de Ormuz afeta matéria-prima
O hélio está também dependente do Estreito de Ormuz e precisa de condições especiais de transporte sob risco de evaporação. O fecho deste ponto de passagem pressiona também a distribuição deste gás pelo globo.
“O hélio necessita normalmente de ser transportado até 45 dias após ser liquefeito, pois mesmo os tanques bem isolados aquecem gradualmente, fazendo com que o hélio evapore, a pressão aumente e este volte ao estado gasoso, escapando dos contentores para a atmosfera. No Qatar, estes contentores de hélio são enviados aos compradores por via marítima. Praticamente todo o hélio exportado pelo Qatar sai normalmente do país por navio através do estreito de Ormuz, porque a produção do Qatar está concentrada no Golfo Pérsico e não existe outra rota marítima para o escoamento”, descreve o canal Al Jazeera.
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