Um em cada seis casais portugueses tem problemas de infertilidade
A infertilidade é, para muitos casais, uma experiência profundamente sensível e emocional, que envolve não só questões médicas, mas também sonhos, expetativas e projetos de vida. Cada vez mais, este tema deixa de ser vivido de forma isolada e passa a ser reconhecido como um fenómeno com impacto demográfico, social e laboral. A mensagem foi deixada por Luís Vicente, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, numa sessão de esclarecimento organizado pela Merck dirigida a jornalistas.Segundo dados citados na apresentação, a prevalência da infertilidade terá passado de cerca de um em cada dez casais (estimativas de estudos anteriores de 2009, em Portugal) para valores hoje alinhados com a Organização Mundial da Saúde, que aponta para um em cada seis casais afetados ao longo da vida reprodutiva. “Não se trata apenas de maior procura de cuidados médicos; há um aumento real da infertilidade”, sublinhou.
Segundo a Health News, 500 mil casais portugueses enfrentam este problema, ou seja 15% da população. E, desengane-se quem pensa que engravidar naturalmente é muito fácil. A fertilidade natural é limitada. A probabilidade por ciclo tem uma taxa de sucesso que ronda os 20% a 30%, descendo para 10% a partir dos 35 anos. O relógio biológico é implacável! Por este motivo adiar o pedido de ajuda à ciência pode significar a não concretização do sonho de ter um filho. Contudo, o médico alertou para a necessidade de transparência: “Não estamos a fazer milagres. A medicina reprodutiva não garante resultados, oferece probabilidades.”
O peso da idade e a taxa de sucesso nos tratamentos
As taxas de sucesso dos tratamentos de fertilidade variam de forma significativa sobretudo em função da idade da mulher e da técnica utilizada. Em fertilização in vitro, a probabilidade de nascimento por ciclo pode situar-se entre 30% e 45% antes dos 35 anos, descendo progressivamente para cerca de 15% a 25% entre os 38 e os 40 anos, e para valores inferiores a 10% após os 41 anos, sendo residuais depois dos 43 quando se utilizam ovócitos próprios. Já em casos de doação de ovócitos, os resultados deixam de depender da idade da recetora e podem atingir taxas de sucesso na ordem dos 40% a 60% por tentativa, consoante os centros e a qualidade embrionária.
O especialista destacou como fator central o adiamento da primeira gravidez, tendência comum em Portugal e noutros países europeus. A partir dos 35 anos, explicou, verifica-se uma queda significativa da fertilidade feminina, associada à diminuição da reserva ovárica e ao aumento de alterações cromossómicas nos ovócitos.
“Depois dos 40 anos, quase metade dos ovócitos podem apresentar alterações cromossómicas”, referiu, acrescentando que isso se traduz numa menor taxa de gravidez espontânea e assistida. A partir dos 43 anos, as taxas de sucesso em reprodução medicamente assistida podem descer para cerca de 5%.
Entre os riscos associados ao aumento da idade materna, foram também referidos o aumento de trissomias, como a trissomia 21, e maior probabilidade de complicações obstétricas, incluindo hipertensão, pré-eclâmpsia e restrição do crescimento fetal.
O fator masculino: um problema subestimado
Um dos pontos mais sublinhados na intervenção foi a crescente relevância da infertilidade masculina. Além da idade, há evidência de uma diminuição da qualidade seminal, com redução da concentração de espermatozoides em vários estudos internacionais.
Vários estudos internacionais têm documentado uma queda acentuada na concentração de espermatozoides nas últimas décadas. A partir de uma meta-análise frequentemente citada na literatura científica, estima-se uma redução superior a 50% desde a década de 1970, com a concentração média a descer de valores historicamente próximos dos 100–150 milhões de espermatozoides por mililitro para cerca de 40–60 milhões por mililitro em várias populações ocidentais. Em paralelo, observa-se uma maior proporção de amostras que se aproximam do limiar inferior de referência atualmente utilizado pela Organização Mundial da Saúde (cerca de 15 milhões por mililitro), o que aumenta a prevalência de subfertilidade masculina e a necessidade de recorrer a técnicas de reprodução assistida.
O especialista destacou ainda a influência de fatores ambientais e comportamentais, como a exposição a disruptores endócrinos (nomeadamente o bisfenol A presente em plásticos e papéis térmicos), consumo de cannabis, sedentarismo e até o uso prolongado de dispositivos móveis no bolso, associado a alterações na fragmentação do DNA espermático.
“Hoje sabemos que não basta avaliar a mulher. O homem também faz parte do problema reprodutivo e muitas vezes é subavaliado”, afirmou o médico.
Novas soluções médicas: preservação e doação
Entre as respostas clínicas, destacou-se a preservação de ovócitos como estratégia preventiva, idealmente antes dos 35 anos, permitindo congelar a “idade biológica” dos gâmetas. A técnica de vitrificação, segundo o especialista, permite taxas de sobrevivência dos ovócitos congelados próximas dos 95%.
A doação de ovócitos surge também como alternativa em idades mais avançadas, permitindo taxas de sucesso dependentes da idade da dadora e não da recetora.
Uma questão social e laboral
Além da medicina, a infertilidade foi enquadrada como um problema social e político. O adiamento da parentalidade, segundo o especialista, está ligado a condições laborais, falta de apoio à família e ausência de políticas consistentes de conciliação entre trabalho e vida pessoal.
Foi neste contexto que surgiu a referência ao movimento internacional “Tackling Infertility”, lançado em 2024, que reúne especialistas, associações de doentes e entidades europeias com o objetivo de promover políticas públicas mais favoráveis à parentalidade.
Em Portugal, o movimento já conta com várias empresas envolvidas em políticas “fertility friendly”, incluindo apoio financeiro a tratamentos, flexibilidade laboral e benefícios associados à parentalidade.
A urgência da literacia em fertilidade
Outro ponto central da intervenção foi a falta de conhecimento da população sobre a reserva ovárica e os limites biológicos da fertilidade. Estudos europeus citados indicam que cerca de 80% das mulheres jovens desconhecem este conceito.
“Continuamos a achar que a menopausa é o limite da fertilidade, mas não é”, alertou o especialista, defendendo a introdução do tema nos programas educativos e maior sensibilização pública.
Entre a ciência e a política
Apesar dos avanços científicos, o especialista defendeu uma mudança de paradigma: atuar antes do problema se instalar. Isso implica não só inovação médica, mas também políticas públicas, legislação laboral e incentivo à parentalidade mais precoce.
“A pergunta já não é apenas se conseguimos tratar a infertilidade, mas se podemos criar condições para que menos pessoas cheguem a ela”, concluiu.
Em termos de custos, o acesso aos tratamentos de fertilidade varia significativamente entre o setor público e privado. Há cerca de 29 centros de Procriação Médica Assistida (PMA) e as taxas de sucesso são equiparadas às melhores do mundo.
Em Portugal, nos hospitais públicos os tratamentos de procriação medicamente assistida são, em regra, comparticipados pelo Estado, embora sujeitos a critérios clínicos e listas de espera. No setor privado, os valores podem ser elevados: uma fertilização in vitro clássica situa-se geralmente entre os 3.500 e os 5.000 euros por ciclo, enquanto técnicas mais complexas como a microinjeção intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI) podem acrescentar vários milhares de euros ao custo total do tratamento, dependendo da medicação e dos protocolos utilizados.
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