Debater o passado e perder o futuro
A direita portuguesa decidiu ajustar as suas contas com o seu passado histórico, particularmente com o 25 de Abril. Esta direita está empenhada a proceder a um revisionismo histórico sem compreender que está a perder o futuro.
Rever o passado português é abrir feridas sociais e afectar a imagem externa de Portugal no mundo. A convivência portuguesa com as antigas colónias se tornou menos tensa e complexa em termos políticos devido ao regime nascido no pós-25 de Abril. Por isso, um governo português que assume e glorifica a História Colonial Portuguesa provocará um constrangimento aos poderes africanos nascidos das lutas de libertação.
A direita portuguesa defende que os portugueses devem sentir orgulho no seu passado e não reconhecer aspectos negativos da sua trajectória histórica. Propaga essa perspectiva política e não consegue compreender o efeito francês. i.e., a França nunca teve a capacidade de reconhecer o seu passado colonial e empreender uma política de reparação quer através de um pedido formal de desculpas, quer por intermédio de uma política de restituição dos bens artísticos e culturais dos povos africanos.
Deste modo, os novos dirigentes africanos radicais decidiram romper as relações políticas com a França e colocar no seu lugar a Rússia.
A França, através do seu presidente Emmanuel Macron, solicitou ao intelectual e académico Achille Mbembe para redesenhar uma estratégia política de retorno da França ao continente africano. No entanto, este relatório e esse efeito francês não foi debatido na realidade portuguesa. Visto que a direita portuguesa acredita, tal como no período do Estado Novo com Salazar, está imune às dinâmicas políticas de transformação do futuro. Ou seja, os ventos do futuro não afectarão Portugal.
A direita portuguesa reduz a complexidade histórica e recusa analisar a história com sentido crítico devido ao seu projecto de comunidade política fechada e exclusiva, o que implica recusar o outro que é fruto de uma experiência histórica diferente e deseja problematizar e criticar a História Colonial Portuguesa. Esta alergia a um sentido crítico da História Portuguesa e uma glorificação do passado são sintomas de um projecto político incapaz de projectar um futuro político complexo e rico em contradições, onde as tensões produzem um novo produto histórico que possa sem uma síntese rica e diversa.
A direita portuguesa não consegue mobilizar o passado para projectar o futuro, porque cultiva a política do ressentimento e mobiliza o medo da transformação social como um perigo iminente da contaminação dos portugueses. O português de hoje não é o português de ontem e certamente não será o de amanhã, porque vivem em ambientes de socialização distintos.
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