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Serra da Freita, Rali de Portugal 1991: asfalto, terra, neve, gelo e azar, tudo servido no mesmo prato

Serra da Freita, Rali de Portugal 1991: asfalto, terra, neve, gelo e azar, tudo servido no mesmo prato

A Serra da Freita, no Rali de Portugal de 1991, não foi bem uma especial. Foi mais uma partida particularmente maldosa da meteorologia com a ‘produção’ do Mundial de Ralis. Ali, no mesmo troço, houve asfalto, terra, neve e gelo — tudo ao mesmo tempo, como se alguém tivesse decidido misturar Monte Carlo, RAC, Safari, uma estrada camarária e uma Serra lindíssima, num único cenário.
A caravana vinha já fustigada pela chuva, a subir para norte, depois de Arganil, com o céu a fechar-se e a estrada a mudar de pele quilómetro após quilómetro. Em Muna, José Miguel perdeu uma roda a quatro quilómetros do fim. No Caramulo, o aviso estava dado. Mas foi na Freita, com os seus 24,2 quilómetros, que o rali resolveu tirar o casaco, arregaçar as mangas e distribuir “pancada a sério”.
A neve começou a engolir tudo. Fernando Peres olhou para a frente e praticamente deixou de ver estrada. “A neve chegava ao para-choques do meu carro!”, recordou. E não era força de expressão. O carro avançava devagar, o volante mexia-se mais por fé do que por aderência, e a sensação era a de conduzir dentro de um frigorífico lançado serra acima e abaixo.
Na ligação, o cenário piorou. Peres parou junto ao carro de Alessandro Fassina, já fora de estrada, e sentiu o próprio Sierra a escorregar, lentamente, para o buraco. Não houve tempo para filosofia. “Só tive tempo de meter a primeira e dar gás!”
Carlos Bica também não vinha propriamente num passeio turístico. O navegador avisava-o de que, àquele ritmo, iam penalizar em Arouca. Bica nem quis ouvir. “Era preferível isso a ficar ali”, atirou. Pelo caminho, o troço parecia um mercado de peças usadas: para-choques, plásticos, destroços. “Não era possível andar naquelas condições!”
E não era mesmo. Armin Schwarz, que liderava o rali com 46 segundos sobre François Delecour, saiu de estrada no Toyota Celica GT-4 oficial. Delecour fez o mesmo e acabou no hospital por precaução, com uma luxação numa perna. A especial foi interrompida. No meio da confusão, Massimo Biasion deu por si na frente da prova sem precisar de foguetões — bastou sobreviver e ter muita sorte.
Anos depois, Schwarz recordaria tudo com uma serenidade quase irritante. Gostava daqueles troços, dizia ele. Gostava até demais. Divertiu-se tanto que subestimou o limite. O Toyota deslizou devagar para fora da estrada, noite cerrada, visibilidade zero. O carro não estava destruído. O problema é que ninguém viu que, dez metros abaixo, havia uma estrada de acesso. “Estava escuro como breu.” E assim, por causa de dez metros e uma serra transformada em armadilha, acabou uma liderança que parecia segura.
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