Refinaria de Sines abastece 80% do combustível para aviões
A refinaria de Sines abastece 80% do consumo nacional de combustível para aviões, com o país a não estar em risco de escassez, segundo a empresa que detém a infraestrutura.
“Precisamos de importar 20%, conseguimos abastecer 80% das necessidades”, disse o co-presidente-executivo da Galp João Diogo Marques da Silva ao JE.
“Estamos a reforçar stocks, estamos a reduzir a utilização do jet no processo produtivo para gasóleo, porque estamos equilibrados no gasóleo. Há um conjunto de medidas que são mitigadoras e que nos permitem estar relativamente confortáveis, mas ativos para dizer que nesta altura não há sinal de alarme em Portugal”, acrescentou o gestor.
Já o contexto na Europa é um “bocadinho diferente”, pois o Médio Oriente representa 40% das importações europeias de jet fuel, com países mais expostos como o Reino Unido e França.
“No nosso caso, estamos numa posição diferente. Olhando para a nossa refinaria, estamos longos em gasolina e nafta. Estamos mais ou menos equilibrados no gasóleo, e estamos curtos em jet”, afirmou.
No caso do pico de consumo no verão, a companhia procura sempre reforçar as importações, mas não há razão para alarmes com a mensagem a ser de “segurança e de confiança”. “Estamos a monitorizar diariamente os mercados, tanto o lado da oferta como do lado da procura, e não é menor o facto de teres alguns voos e companhias a cancelarem voos, o que está a quebrar o lado da oferta. Também podemos antecipar e tipicamente compramos com um mês e meio de antecedência, mas estamos a antecipar”, acrescentou João Diogo Marques da Silva.
Por sua vez, a co-presidente-executiva Maria João Carioca também rejeita alarmismos sobre o tema.
“Vamos ter que acompanhar em permanência até termos uma regularidade dos mercados”, com a companhia a reforçar a sua “capacidade produtiva”, mas também a “armazenagem”, olhando para os “dois lados da equação”.
A Galp anunciou os seus resultados trimestrais na segunda-feira, tendo gerado lucros de mais de 270 milhões de euros no primeiro trimestre do ano, mais 41% face a período homólogo, com a subida a ser alcançada à boleia do aumento de produção de petróleo e gás no Brasil, com o novo navio-plataforma na área de Bacalhau a contribuir decisivamente para esta subida.
A companhia destacou o “período de alta volatilidade” vivido no primeiro trimestre com “disrupção no abastecimento” e “desequilíbrio do mercado” devido à guerra de EUA/Israel contra o Irão a que se seguiu o bloqueio do estreito de Ormuz por Teerão.
A companhia também anunciou que espera fechar o acordo com os espanhóis da Moeve até meados deste ano.
A Galp e a Moeve querem fundir as suas redes de postos de combustível, mas também as suas refinarias (duas em Espanha, uma em Portugal).
Já na Namíbia, a companhia está a fechar os preparativos para a próxima “campanha de pesquisa e avaliação”, que deverá arrancar ainda este ano.
Mais de 60% das importações de combustível para aviões vem do Golfo Pérsico
Tal como o JE escreveu a 7 de abril, mais de 60% das importações nacionais de combustível para aviões vem do Golfo Pérsico. No caso da Europa, pesa 50%. Os preços mais do que dobraram desde o início da guerra no Médio Oriente, depois do Irão ter fechado o estreito de Ormuz. Portugal compra 25% do jet fuel que consome a países estrangeiros.
O Kuwait foi mesmo o maior fornecedor estrangeiro de Portugal de jet em 2024, com 241 mil toneladas. Na quarta posição, a Arábia Saudita forneceu 47 mil toneladas. Na segunda e terceira posições, surgem a Coreia do Sul com 112 mil toneladas e a China com 62 mil.
O país comprou 475 mil de toneladas equivalentes de petróleo (TEP) de jet fuel ao exterior em 2024, tendo consumido mais de 1,87 milhões de TEP, segundo os dados da Direção-Geral de Energia (DGEG).
Desta forma, 75% do jet consumido em Portugal tem origem na única refinaria nacional, a da Galp em Sines.
“Portugal pode ficar sem stocks de jet fuel daqui a quatro meses”, segundo uma análise da consultora Argus que analisou um cenário em que o país não consegue substituir o jet fuel que vinha da Golfo Pérsico.
O país é um dos que está mais em risco na Europa, a par do Reino Unido e da Dinamarca. Estes países estão “particularmente vulneráveis se o tráfego através do estreito de Ormuz permanecer efetivamente encerrado”.
No caso de Portugal, os stocks deverão ser suficientes para cobrir o período de primavera por a refinaria de Sines ter fechado para manutenção no final de 2025.
Em Portugal, as importações arrancam em meados de maio, principalmente do Médio Oriente. “Se o tráfego de petroleiros no estreito de Ormuz continuar sob restrições pesadas até lá, os stocks de jet fuel podem cair rapidamente”, alerta a Argus.
A aviação é crucial para o setor do turismo em Portugal. Em 2025, os aeroportos nacionais movimentaram mais de 73 milhões de passageiros, mais 5% face a 2024. O turismo é estratégico para a economia nacional, sendo responsável por 12% da produção de riqueza do país. Em 2024, contribuiu com 34 mil milhões de euros para a economia portuguesa.
A Ryanair já avisou para o risco de escassez de combustível de aviação na Europa no início de maio, caso a guerra continue e o estreito de Ormuz continue fechado.
“Os fornecedores de combustível estão sempre a olhar para o mercado. Não pensamos que haja alguma disrupção até ao início de maio, mas se a guerra continuar, corremos o risco de escassez de combustível na Europa em maio e junho. Pensamos que existe um risco razoável, entre 10% a 25% dos nossos abastecimentos estarem em risco em maio e junho”, disse recentemente Michael O’Leary em entrevista à “Sky News”.
Em Itália, a BP já emitiu um ‘notice to airmen’, um aviso às companhias aéreas, a alertar que vai haver restrições de combustível aos seus clientes nos aeroportos de Bolonha, Milão Linate, Treviso e Veneza, mas isto só afeta os clientes da companhia nestes aeroportos, havendo outras empresas a vender combustível.
Problema: o encerramento de refinarias na Europa ocidental está a colocar sob pressão o fornecimento de jet fuel.
Existem vários países onde a produção nacional cobre ou excede o consumo, como a Polónia ou a Grécia, ou que têm armazenamentos mais profundos, como a Irlanda, estão “melhor protegidos face a disrupções no abastecimento do Médio Oriente”.
“O conflito no Médio Oriente não deverá levar nenhum país europeu a ficar sem produtos petrolíferos totalmente porque os limites da guerra limitam apenas as importações. Mesmo os países com menos reservas têm algumas semanas de cobertura se perderem tanto a produção doméstica como importações. Mas os stocks nacionais podem cair para níveis baixos pouco confortáveis, levando a escassez localizada e a mudanças mais bruscas nos preços onde os stocks permanecem altos”, segundo a Argus.
A análise da consultora britânica destaca que os cenários têm em conta a possibilidade de o fornecimento do Médio Oriente não conseguir ser substituído.
Outros países debaixo de pressão são a Hungria (quatro meses), Dinamarca (seis meses), Itália e Alemanha (sete meses) e França e Irlanda (oito).
Os stocks normalmente caem na Primavera e no outono, com a paragem das refinarias para manutenção e sobem no verão quando aumenta a procura.
Mas as importações também flutuam sazonalmente, com grandes disrupções, a poderem afetar esta tendência.
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