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Insolvências arriscam subir, mas abaixo do pré-pandemia

Insolvências arriscam subir, mas abaixo do pré-pandemia

Um estudo da seguradora Allianz aponta para um aumento de 4% das insolvências em Portugal em 2026, para um total de 2.350, invertendo a tendência dos últimos anos. No entanto, se a expectativa for cumprida, o aumento será inferior à média esperada para a economia mundial (+6%) e representará, ainda assim, uma queda face à média registada no país entre 2016 e 2019.
“Em Portugal, a previsão da Allianz Trade é de um ligeiro aumento das insolvências empresariais em 2026 (+4%) e 2027 (+5%), após a queda de 4% registada em 2025, num contexto ainda marcado por fortes assimetrias entre setores e tipologias de empresas”, escreveu a seguradora, que assinala “um enquadramento económico mais exigente, influenciado pelo recente choque energético que condiciona o consumo e o investimento”.
Em todo o caso, Portugal está inserido no lote de países que apresenta uma queda superior a 15% face à média entre 2016 e 2019 — a par de Noruega, Letónia, Lituânia, Índia, África do Sul, China, Rússia e Taiwan. Destes, no entanto, apenas na Noruega as insolvências deverão continuar a descer em 2026.
Os desafios da indústria
No ano passado, as insolvências em Portugal caíram na generalidade dos setores, desde logo na indústria (-24%), mas também em educação, saúde e atividades de apoio social (-17%), na construção (-7%), na informação e comunicação (-16%) e alojamento e atividades de restauração (-1%) — setor que tem estado envolvido em polémica, devido aos apoios prometidos pelo Governo para fazer face à crise.
Em sentido inverso, aumentaram no comércio (2%), nas empresas de finanças, seguros, imobiliário e atividades B2B (6%) e, sobretudo, nos transportes e armazenagem (+41%).
Agora, em 2026, a guerra no Irão e a crise energética gerada depois do bloqueio do estreito de Ormuz pressionam, em grande medida, a indústria. “Já estamos a sentir os efeitos nos combustíveis e gás natural que terão repercussão mais ou menos imediata, na generalidade das atividades”, afirma ao Jornal Económico o presidente da AIP (Associação Industrial Portuguesa). José Eduardo Carvalho destaca, em particular, “os setores mais intensivos em energia e nas exportações dependentes dos mercados externos”.
Mas pode não ficar por aqui, dependendo “da sua duração e intensidade em termos de afetação das rotas de tráfego internacional de mercadoria e de produção de combustíveis fósseis e seus derivados diretos”. Por isso, “gradualmente, as condições macroeconómicas poderão refletir-se em piores condições de competitividade para as empresas, com o agravamento dos custos de produção pela via da inflação interna e importada, a subida das taxas de juros e maiores dificuldades de acesso ao crédito e descida da confiança e do sentimento económico”, diz o presidente da AIP.
Nesse sentido, as insolvências podem “atingir de forma mais gravosa” os tais setores que mais dependem da energia e das exportações, “sobretudo quando, em simultâneo, ainda estão confrontados em determinadas regiões com problemas não resolvidos, decorrentes das tempestades de fevereiro deste ano”.
José Eduardo Carvalho ressalva que será importante também perceber qual é o saldo entre a criação de empresas e as saídas de mercado — “não só as insolvências, mas também outro tipo de dissoluções não ligadas a dificuldades financeiras, que representam cerca de 90% do total das saídas”.
“Turismo não está imune”
Já no turismo, setor que tem sido importante para o equilíbrio da balança externa do país, é ainda muito cedo para perceber em que medida o impacto será negativo. Mas os riscos existem, avisa o presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), Francisco Calheiros ao Jornal Económico: “É uma atividade com um largo número de PME ou microempresas familiares, sobretudo na restauração, que sente de forma muito vincada situações inesperadas, existindo ainda atualmente riscos reais para muitas empresas, não só pelos impactos negativos do atual momento mundial, mas porque há ainda muitas empresas com fragilidades financeiras que advém ainda dos anos da pandemia”.
O setor, diz, tem-se mostrado “muito resiliente”, mas, “não sendo o principal foco das falências, também não está imune”, uma vez que há “um aumento dos custos operacionais (por exemplo, com a energia, transportes de alimentos)”, uma “redução nas margens das empresas” e, “sobretudo, muitas PME ainda têm de gerir a descapitalização que sofreram nos anos da pandemia”.
Francisco Calheiros assinala que as previsões de insolvências feitas para o país “não são de admirar”, embora afirme que a economia nacional “continua a ser resistente”. Prova disso “é que as insolvências em Portugal são num número inferior à média europeia e só em 2026 assistimos a uma inversão da tendência dos últimos anos”.

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