Até 2070, metade dos idosos portugueses não terá cuidadores diretos
A quebra da natalidade e o envelhecimento da população estão a alterar a estrutura demográfica do país a um ritmo preocupante e as consequências poderão ser particularmente graves nas próximas décadas. Luísa Canto e Castro Loura, diretora da Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, deixou este aviso numa sessão de esclarecimento organizada pela Merck e dirigida a jornalistas. A especialista em estatística alertou para as consequências sociais profundas, nomeadamente o risco crescente de isolamento da população idosa.
“Estamos perante uma mudança muito rápida e, quando as transformações são rápidas, a sociedade não tem mecanismos para se adaptar”, afirmou na abertura da sua intervenção, na qual apresentou uma análise baseada em dados estatísticos e projeções demográficas.
Este fenómeno não é exclusivo de Portugal. A nível global, o número de crianças está a diminuir. Ainda assim, a especialista sublinha que a distribuição desta quebra é desigual. “A Europa tem vindo a registar uma diminuição significativa no número de crianças, — redução de cerca de 10 milhões entre 2015 e 2025, tendência que deverá manter-se. Ainda assim, o fenómeno é global, com países como a China (queda de 35%) e a Rússia a enfrentarem quebras ainda mais acentuadas. Em contraste, África continua o único continente em crescimento. Por isso, o mundo está a ficar envelhecido, ou seja tem muitas pessoas acima dos 65 anos e poucas abaixo dos 15 ou dos 20 anos.
Luísa Canto e Castro Loro na sua apresentação destaca outro indicador importante: “o da taxa bruta de natalidade, ou seja, o número de nascimentos por cada 1000 habitantes. “A União Europeia passou de 16,4 por mil para 7,9, não chega a 8 agora em 2024, isto é muito, muito baixa”.
No contexto europeu, Portugal destaca-se pela rapidez da transformação. As pirâmides etárias mostram uma mudança estrutural profunda ao longo das últimas décadas. “Passámos de uma pirâmide clássica para algo mais próximo de uma ‘bomboneira’”, descreveu, referindo-se ao aumento do peso das faixas etárias mais idosas face à redução das mais jovens, mudando por isso o formato da pirâmide que fica com a forma de um recipiente, uma espécie de taça mais abaulada.
A taxa de fecundidade é um dos indicadores mais críticos. Atualmente, na Europa, situa-se em 1,34 filhos por mulher, bem abaixo dos 2,1 necessários para assegurar a renovação das gerações. Em Portugal, o cenário é semelhante — e historicamente marcado por uma queda abrupta desde os anos 60. “As mulheres foram tendo cada vez menos filhos, até atingirmos níveis muito baixos”, explicou. A Itália é o país com menos natalidade, ronda os 1,1.
Portugal seguiu uma trajetória particularmente acentuada. “Nos anos 60, estava entre os países com maior número médio de filhos por mulher. Desde então, registou uma queda contínua, com uma quebra abrupta nas últimas décadas do século XX. As mulheres foram tendo cada vez menos filhos, até atingirmos níveis muito baixos”, afirmou.
A evolução está também associada a mudanças sociais estruturais, nomeadamente o aumento da escolarização e da participação feminina no mercado de trabalho. “As mulheres estão cada vez mais qualificadas e não estão a investir na sua formação para depois se dedicarem exclusivamente à família”, sublinhou.
Outro indicador relevante é o adiamento da maternidade. Em Portugal, a idade média ao nascimento do primeiro filho já ultrapassa os 30 anos, acompanhando uma tendência europeia.
Mas é nas projeções futuras que o cenário se torna mais preocupante. O estudo apresentado pela responsável da Pordata procurou quantificar o núcleo familiar de apoio dos idosos nas próximas décadas — filhos, irmãos e outros familiares próximos.
“Atualmente, uma pessoa com mais de 75 anos tem, em média, vários filhos e irmãos. No futuro, isso deixará de ser assim”, alertou. As estimativas indicam que uma parte significativa dos idosos terá apenas um filho — ou nenhum”, constata com o seu estudo. Os dados indicam ainda que 40% será filho único.
Segundo os dados apresentados, cerca de 20% dos idosos poderão, no futuro, não ter qualquer familiar direto disponível para apoio. Se incluirmos os casos com apenas uma pessoa de suporte, o número sobe significativamente, colocando quase metade da população idosa em situação de vulnerabilidade.
“As gerações mais novas não vão ter o mesmo suporte familiar. E isso é particularmente relevante numa sociedade como a portuguesa, onde o apoio familiar é o principal pilar”, explicou a especialista.
Apesar do diagnóstico preocupante, a responsável sublinha que o problema não é inevitável — mas exige ação atempada. “Isto não é, por si só, uma desgraça. O problema é a velocidade da mudança”, afirmou.
Entre as soluções, destaca a necessidade de reforçar os sistemas públicos de apoio. “O Estado terá de criar estruturas eficazes para garantir apoio às pessoas idosas. E isso tem de começar a ser preparado agora”, defendeu.
O impacto económico é outra dimensão crítica. A redução da população em idade ativa e o aumento do número de dependentes colocam pressão sobre a sustentabilidade da segurança social. “Todas as poupanças atuais na promoção da natalidade terão custos muito mais elevados no futuro”, avisou.
A especialista reconhece, no entanto, as limitações do contexto nacional. “Portugal é um país estruturalmente pobre, o que dificulta a implementação de medidas como trabalho a tempo parcial ou maior flexibilidade laboral, que são mais comuns em economias mais desenvolvidas”, referiu.
Ainda assim, deixa um apelo claro à antecipação: “Isto é determinístico — já sabemos que vai acontecer. A questão é se estamos preparados.”
A longevidade, uma das maiores conquistas das sociedades modernas, poderá assim tornar-se um desafio estrutural. E o modo como Portugal responder a esta transformação demográfica será determinante para evitar que o envelhecimento se traduza num problema social de grande escala.
A quebra da natalidade na Europa e no mundo
Europa: menos cerca de 10 milhões de crianças entre 2015 e 2025, com nova redução semelhante projetada para a década seguinte.
União Europeia: taxa de fecundidade média de 1,34 filhos por mulher, abaixo dos 2,1 necessários para renovação geracional.
Portugal: queda da taxa bruta de natalidade de 20,8‰ (1960) para cerca de 7,5‰ (2024).
Itália: uma das taxas de fecundidade mais baixas da UE, cerca de 1,1 filhos por mulher.
China: quebra projetada de cerca de 44 milhões de crianças, com reduções até 35% na próxima década.
Rússia: declínio acentuado da população jovem, superior ao registado na Europa.
África: único continente com crescimento significativo da população infantil até 2035.
Share this content:


Publicar comentário