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76% dos jovens rurais querem ficar, mas exigem transportes e emprego: estudo europeu expõe fragilidades do interior

76% dos jovens rurais querem ficar, mas exigem transportes e emprego: estudo europeu expõe fragilidades do interior

Quase 80% dos jovens que vivem em zonas rurais na Europa querem continuar a viver, estudar ou trabalhar nos seus territórios de origem ou nas proximidades. A vontade de permanência, porém, esbarra numa condição quase incontornável: a existência de transportes eficazes, oportunidades de emprego e serviços públicos acessíveis.
As conclusões fazem parte do relatório europeu “Here to stay? The transitions of rural youth before and after the Covid-19 pandemic”, coordenado pelo investigador do CIS-Iscte, Francisco Simões, no âmbito da Youth Partnership — uma parceria entre o Conselho da Europa e a Comissão Europeia.
O estudo, que analisou jovens entre os 18 e os 30 anos em 14 países europeus, entre 2019 e 2023, sublinha uma tensão persistente: a forte ligação dos jovens ao território contrasta com a dificuldade estrutural em nele permanecerem de forma autónoma e sustentável.
Transporte continua a ser a chave
Entre os principais obstáculos identificados, a mobilidade surge como elemento decisivo. Segundo o relatório, entre 14 fatores associados ao emprego, possuir viatura própria foi considerado o mais importante para aceder a trabalho.
Este dado ajuda a explicar a proposta avançada pelos investigadores: a criação de sistemas de mobilidade partilhada em zonas rurais mais remotas, incluindo carsharing e carpooling. Para Francisco Simões, estas soluções não só reduzem o isolamento como são mais sustentáveis e menos dispendiosas.
Emprego depende mais de redes informais do que do Estado
Outro dos dados mais relevantes do estudo aponta para a fragilidade dos mecanismos públicos de apoio ao emprego. Apenas 18% dos jovens inquiridos recorre a serviços públicos de emprego, sendo o acesso ao trabalho altamente dependente de redes informais.
Perante este cenário, o relatório sugere a criação de estruturas móveis de apoio ao emprego, inspiradas em modelos já existentes noutros países europeus, como a Bulgária. Estas unidades, articuladas com municípios e associações locais, poderiam facilitar o encaminhamento de jovens para ofertas ajustadas ao seu perfil.
“Direito a ficar” entra no debate europeu
Para o coordenador do estudo, está em causa um debate político mais amplo: o chamado “direito a ficar”. Francisco Simões defende que a União Europeia deve criar condições reais para que os jovens não sejam forçados a emigrar por falta de oportunidades.
A ideia central do relatório é clara: a permanência dos jovens nas zonas rurais não depende de vontade individual, mas de condições estruturais — desde transportes e educação até emprego e participação cívica.
Interior mais qualificado, mas mais frágil
O estudo aponta ainda uma evolução significativa na qualificação dos jovens rurais, com uma maior frequência do ensino superior face a gerações anteriores. No entanto, este aumento de qualificações não tem sido acompanhado por um reforço equivalente das oportunidades locais.
Apesar disso, o relatório destaca uma redução da percentagem de jovens NEET (que não estudam, não trabalham nem estão em formação), embora persistam níveis elevados de desemprego e uma quebra na população jovem residente em áreas rurais.
Cultura não é o principal problema
Contrariando algumas perceções, o estudo conclui que a oferta cultural não é um fator decisivo na saída dos jovens das zonas rurais. A preferência recai sobre atividades ao ar livre, em detrimento de espaços culturais tradicionais, como teatros, ainda que com níveis de satisfação mais baixos neste último tipo de oferta.
Um desafio estrutural para a Europa rural
O retrato traçado pelo relatório reforça uma ideia já conhecida, mas agora sustentada por dados comparativos europeus: os jovens querem ficar, mas as condições para ficar continuam por cumprir.
Entre mobilidade, emprego e serviços públicos, o futuro das zonas rurais europeias parece depender menos da vontade dos seus jovens e mais da capacidade política de responder a um problema estrutural que atravessa fronteiras.

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