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Pássaros e passarucos

Pássaros e passarucos

Vamos ter em breve uma mudança de inquilino na presidência da Reserva Federal norte-americana (Fed). Powell acaba o seu mandato a 15 de maio e será substituído por Kevin Warsh, após confirmação pelo Senado. Mas tudo aponta a que seja mais difícil de gerir a Fed que qualquer condomínio, não só devido a ter que suportar as interferências de Trump. Se Warsh disser que as incertezas se agravaram com Trump na Casa Branca, será o understatement do ano, sobretudo depois que o estreito de Ormuz se tornou a espada de Dâmocles da economia mundial.
Para já beneficia do beneplácito de Trump, como Powell no início. Mas recordemos que Trump se tem portado com Powell pior que em qualquer divórcio, a ponto de o ter tentado destituir acusando-o de gastos excessivos nas obras de remodelação da sede do Banco, esquecendo a Lei de Quéops: nada é construído no prazo e orçamento fixados.
Chegou-se ao ponto do senador Thom Thillis (republicano) ameaçar votar contra a nomeação de Warsh no Banking Committee do Senado – e bloquear a nomeação – se Trump não deixasse cair o processo a Powell. Este respondeu à altura: não vai deixar o lugar de membro do Conselho de Governadores, que expira a 31 de janeiro de 2028 (o mandato dura 14 anos), o que quebra uma prática de 75 anos e obriga à saída de Miran, impedindo Trump de ter consigo a maioria do Conselho. Agora a grande questão é o que vai mudar com Warsh, e se chegou ao fim a independência da Fed.
Trump precisa de uma descida dos juros (Miran votou por ela na última reunião do FOMC), para reduzir o défice orçamental e dinamizar a economia em vésperas de eleições (novembro), fonte do desaguisado com Powell. Ora, Warsh é um republicano (contribuiu com mil dólares para as campanhas de 2000 e 2004 de G. W. Bush, que o nomeou governador da Fed em 2006) e era um falcão: renunciou ao mandato na Fed em 2011 por discordar da política monetária expansionista de Bernanke, especificamente do programa de compra de títulos de 600 mil milhões de dólares idealizado por este, o QE2 – na altura o único governador a opor-se.
Mas não conhecemos as suas atuais conversas com Trump, que o podem ter travestido em pomba. POTUS quer “espevitar” a economia, mas Warsh não vai querer ter o mandato marcado pelo regresso da inflação, que em março acelerou de 2,4% para 3,3%, a taxa mais alta desde maio de 2024. Na atual situação de estagflação, vai Warsh seguir Trump e reduzir os juros ou vai dar prioridade à inflação? Como dizem os britânicos, the proof is in the pudding, e Warsh é o pudding.

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