Warren Buffett reformou-se, e agora?
Cheguei ao CHI Health Center, em Omaha, às seis da manhã. Achei que estaria uma longa fila. Afinal, há décadas a primeira hora do sábado da assembleia da Berkshire Hathaway se parece mais com um culto do que com um evento corporativo. Para minha surpresa, não havia fila. Caminhei pela feira de exposições das empresas investidas Geico, See’s Candies, Brooks Running, Dairy Queen, BNSF, NetJets sem disputa por souvenirs, sem aquela liturgia que canonizou o evento como o “Woodstock dos Capitalistas”. Quando subi para a parte mais alta da arena, a vista revelou a cena mais simbólica do dia: cadeiras vazias. Muitas. Numa arena que já recebeu mais de 40 mil acionistas, hoje estavam pouco mais de metade.
Foi a primeira assembleia da Berkshire Hathaway sem Warren Buffett no comando como CEO. Ele segue como chairman, fez comentários da plateia, deu entrevista à CNBC, mas o palco, agora, é de Greg Abel. E o vazio na arquibancada dizia mais sobre o momento dos mercados do que qualquer linha do balanço da holding.
Saí de Omaha com uma pergunta que interessa a qualquer investidor, em qualquer mercado: Warren Buffett reformou-se. E agora?
A era Abel é técnica, não é folclórica
Buffett deixou o cargo em janeiro deste ano. No palco de Omaha, quem conduziu a assembleia foi Abel, acompanhado de Ajit Jain (seguros), Katie Farmer (BNSF) e Adam Johnson (NetJets e retalho). A piada espontânea, a tirada de Munger, o improviso filosófico que durava quarenta minutos acabou. O que esteve em cena foi um discurso operacional, detalhado, quase pragmático demais para os padrões emocionais do evento.
Não é uma crítica. É uma constatação importante: a Berkshire deixou de ser teatro e voltou a ser empresa. Para o investidor, esta mudança é chave. A pergunta deixa de ser “o que pensa Buffett desse trimestre” e passa a ser “como opera o conglomerado.” A diferença, ao longo dos próximos dez anos, será tudo isto.
397 mil milhões em caixa: a paciência como ativo
Aqui está, na minha leitura, o ponto mais importante de toda a assembleia. A Berkshire fechou o trimestre com um encaixe recorde de 397,4 mil milhões de dólares, quase 16 mil milhões a mais do que no trimestre anterior. E Buffett, em entrevista a Becky Quick, foi cirúrgico na análise: “Este não é o nosso ambiente ideal para alocar capital.” Quase 400 mil milhões de dólares fora do mercado. Num contexto retalhista, dir-se-ia “ficar fora do jogo”. Para Buffett e Abel, é exatamente o oposto: é o jogo.
Os números do primeiro trimestre confirmam que a Berkshire vendeu cerca de 24,1 mil milhões de dólares em ações e comprou apenas 16 mil milhões. É o quarto trimestre consecutivo como vendedora líquida. A leitura macro implícita é incómoda: o maior investidor do mundo está a reduzir a sua exposição a equities porque os preços não compensam o risco – na sua perspectiva. Não é catastrofismo. É disciplina. E essa disciplina é a mensagem mais subestimada que saiu de Omaha.
“Os mercados são uma igreja com um casino ao lado”
Foi a frase do dia. Buffett comparou os mercados a uma igreja com um casino ao lado, distinguindo o investimento de valor da febre por opções de curtíssimo prazo e mercados de futuros. A sentença completa é definitiva: “Comprar uma opção de um dia não é investir, não é especular – é jogar.” E concluiu: “Nunca tivemos pessoas com tanta vontade de apostar como agora.” Buffett ainda comentou o caso em curso na Justiça americana, do soldado dos EUA acusado de usar informação confidencial sobre uma operação militar na Venezuela para ganhar 400 mil dólares no mercado de futuros. O recado foi claro: nunca como hoje a fronteira entre investimento e jogo foi tão ténue.
A frase soa especialmente forte quando se observa o investidor brasileiro contemporâneo. Volumes recordes em opções de curtíssimo prazo na B3, gamificação do investimento via aplicativos, e uma geração inteira que confunde liquidez intradiária com tese de longo prazo. Traduzido para português, quer dizer que a maior parte daquilo que hoje se chama de “investimento” é apenas apostar com um nome técnico.
O deepfake que abriu a sessão
A primeira “pergunta” do Q&A chegou em vídeo. Uma versão deepfake de Buffett, gerada por IA, questionando por que razão os investidores deveriam conservar as ações da Berkshire. Foi uma encenação deliberada e funcionou. “É assustador”, disse o próprio Buffett mais tarde, lembrando que a tecnologia já permite criar versões convincentes de líderes mundiais, incluindo aqueles que têm armas nucleares à sua disposição.
A Berkshire, conhecida pelo conservadorismo tecnológico, escolheu o palco mais visível do ano para colocar o risco cibernético em primeiro plano. Mensagem subjacente: a próxima década vai exigir que todas as empresas, de todos os setores, considerem a cibersegurança como matéria do seu balanço, não de TI.
“Não vamos usar IA só porque sim”
A frase é de Abel e merece destaque num momento em que Snap, Atlassian e até a Allbirds invocam a IA para justificar demissões ou mudanças estratégicas. A Berkshire avisou que não vai surfar a onda por motivos de marketing. Abel sinalizou a aplicação “de âmbito reduzido e focada em criar propostas de valor”. É a velha disciplina de Buffett vestida de tecnologia: só investir no que se entende e só implementar o que vai ter retorno. Num momento de hype global em torno da IA esta é uma posição contracorrente. E, historicamente, as posições contracorrente da Berkshire acabaram por ser as mais lucrativas.
Estreito de Hormuz: a precificação geopolítica em estado puro
Aqui o assunto cruzou-se diretamente com o que venho cobrindo na CNN Brasil nos últimos meses. Ajit Jain foi questionado se a Berkshire seguraria navios que passassem no estreito de Hormuz no contexto da guerra Irão-Israel-EUA. A resposta sintetiza tudo o que é necessário saber, hoje, sobre o mercado de seguros globais: “Depende do preço.” Jain acrescentou que há capacidade no mercado para absorver o risco, mas exigiu duas condições: prémio compatível e escolta da Marinha americana. Tratando-se de uma das principais artérias do petróleo mundial, isto seria ‘precificação geopolítica’ em tempo real, integrada no balanço da empresa.
Para o investidor brasileiro, a leitura é imediata: a geopolítica voltou a precificar tudo. Não é manchete, é variável. Quem ignorar o mapa em 2026 está ignorando metade do retorno potencial e da exposição ao risco.
Petróleo a 100 dólares mexe no bolso do consumidor
Adam Johnson, agora aos comandos de 32 negócios retalhistas da Berkshire, foi muito claro: os períodos de petróleo a 100 dólares/barril já reduziram a procura de bens de consumo e retalho. O recado importa para quem investe em consumo discricionário globalmente e para o investidor brasileiro, que precisa entender que o petróleo caro fortalece as exportadoras de commodities e, simultaneamente, esmaga o consumidor final, em qualquer lugar do mundo.
A Petrobras vibra. O shopping center sofre. O mesmo barril, dois efeitos opostos. Quem aloca recursos precisa saber em qual lado da equação está em cada ciclo.
Lucro mais do que duplicou e a máquina continua a funcionar
O resultado do primeiro trimestre foi forte. O lucro da Berkshire mais do que duplicou no período. A unidade de seguros que inclui a Geico reportou lucro de subscrição de 1,7 mil milhões de dólares, contra 1,34 mil milhões no mesmo trimestre do ano anterior. BNSF, utilities e manufatura também avançaram, embora Abel tenha admitido que a BNSF ainda está atrás dos pares no setor ferroviário americano. A leitura é importante: enquanto o S&P 500 vive de promessas de inteligência artificial e múltiplos esticados, a Berkshire entrega resultado operacional sólido em negócios tradicionais seguros, ferrovia, energia, manufatura. É a diferenciação que sempre foi a sua marca, e continua sendo.
Sem desmembramento, sem fragmentação
Os acionistas há anos que pressionam no sentido de uma eventual cisão da Berkshire. A tese clássica de que a soma das partes valeria mais separada. Abel descartou. “Somos um conglomerado, mas somos um conglomerado eficiente. Não temos camadas de gestão.” Acrescentou que, quando a Berkshire compra uma empresa, é “para sempre”, exceto em casos de relações laborais insolúveis ou riscos reputacionais graves. E completou com uma frase que precisa ser anotada por todos os investidores: “Podemos mover capital de seguros para não-seguros, para equities, ou se quisermos mantê-lo em caixa.” É a definição mais clara alguma vez dada sobre a vantagem estrutural da Berkshire: uma flexibilidade de alocação que nenhum hedge fund tem.
Camisas ao alto
O momento mais emocionante do dia foi simbólico. Abel anunciou a reforma das “camisas” de Buffett e Munger, eternizadas junto ao teto da arena, à imagem do que fazem as principais ligas desportivas norte-americanas. Munger morreu em 2023. Buffett, aos 95 anos, estava ali, sentado com os outros conselheiros. Num outro momento, Abel pediu a Tim Cook, CEO da Apple, que também vai passar o testemunho, que “acenasse”. Duas sucessões iminentes. E o momento mais humano de uma reunião que, em tudo o mais, foi estritamente corporativa.
E agora? Três mensagens para o investidor
Saí da arena com uma certeza: o teatro acabou, mas o princípio permanece. E talvez essa seja esse o maior legado que Buffett podia deixar: uma cultura forte o suficiente para sobreviver à sua própria ausência. Buffet reformou-se da rotina, mas não da filosofia. E essa filosofia, traduzida para o investidor brasileiro de 2026, contém três mensagens que considero indispensáveis:
Primeiro, a paciência institucional passou a ser um ativo escasso. Num mercado em que as opções de um dia movimentam volumes recordes, manter quase 400 mil milhões de dólares em stand-by à espera do ativo certo é uma forte declaração de princípios e um lembrete de que a disciplina ainda é a vantagem competitiva mais durável que existe. Ter dinheiro em caixa não é cobardia. Em alguns ciclos, é a posição mais corajosa de todas.
Segundo, a geopolítica voltou a precificar tudo. Hormuz, petróleo a 100 dólares, tensões no Médio Oriente, reorganização das cadeias globais não são apenas manchetes, são variáveis no spreadsheet. A mensagem da Berkshire, na linguagem dos seguros e do consumo, é que o mundo de 2026 é estruturalmente mais caro para quem escolhe ignorar o mapa.
Terceiro, o “humor de casino” descrito por Buffett precisa ser lido com a mesma seriedade no retalho brasileiro. A frase “comprar opção de um dia não é investir” precisa ser ouvida pelo investidor da B3 com o mesmo peso com que é ouvida em Wall Street. Investimento é o que sobrevive a ciclos. O resto, por mais sofisticado que pareça, é apenas uma aposta com nome técnico.
Warren Buffett reformou-se. E agora? Agora começa o teste mais difícil para qualquer cultura empresarial: continuar a ser o que era sem a liderança do seu fundador. Em Omaha, neste sábado, a Berkshire deu o primeiro sinal: continuidade. A arena estava mais vazia, é verdade. Mas o que se ouviu lá dentro foi exatamente o que precisava ser ouvido. E isso, no final do dia, talvez seja a maior vitória que um sucessor pode entregar no ponto de partida.
O autor acompanhou presencialmente a Assembleia Anual 2026 da Berkshire Hathaway, em Omaha, EUA
Share this content:



Publicar comentário