A carregar agora

Falta um mês para o maior choque energético da história

Falta um mês para o maior choque energético da história

O relógio está em contagem decrescente para o maior choque petrolífero da história. Se a situação já era grave, ameaça piorar nas próximas semanas. Será que estão atentos em Washington e em Teerão? A data-limite é junho, altura em que terão passado mais de três meses do início da guerra. Apesar do mundo ter resistido, o fecho do estreito de Ormuz e a paragem na produção e refinação no Golfo Pérsico estão a pressionar ainda mais a economia global.
“Estamos na presença da maior crise da oferta energética que já aconteceu na história”, disse ao JE o especialista em energia António Costa Silva.
Com o fecho do estreito de Ormuz, a cada cinco dias chegam menos 100 milhões de barris aos mercados globais.
“A crise de preços altos vai degenerar também numa crise de abastecimento. Os sinais já estão todos aí”, acrescenta o ex-ministro da Economia apontando para as “dificuldades” já sentidas em vários países asiáticos.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) já avisou: “nenhum país evitará o impacto dos preços altos” com a crise energética. O crescimento da zona euro já foi revisto em baixa pelo FMI: de 1,4% para 1%. Com a inflação já a pressionar perante um disparo no preço do petróleo em 70% e uma subida de 45% do gás.
António Costa Silva destaca o impacto negativo da crise na economia global: “Os operadores no mercado estão a sentir que, se esta falha de circulação no estreito de Ormuz continuar mais algum tempo vai ser dramático para as economias mundiais. É isso que está em cima da mesa”, explica.
O preço do petróleo atingiu mesmo um máximo de quatro anos esta semana: 126 dólares por barril, perante os avanços e recuos nas negociações de paz e o abre-e-fecha do estreito de Ormuz. Os preços têm vindo a corrigir com os progressos nas conversações e negociavam nos 100 dólares na quinta-feira ao final da tarde.
“O ponto de viragem é claramente junho. Este é o momento em que algo vai ter de ceder. Não temos meses”, avisou o analista Frederic Lasserre da Gunvor, citado pelo “Financial Times”, prevendo uma “grande dor” para a economia global.
As reservas globais de petróleo afundaram a um ritmo recorde em abril para cerca de 200 milhões de barris, segundo a S&P Global, apesar do disparo nos preços.
“Isto é enorme, é muito acima da média. Uma correção inevitável do mercado está a caminho”, disse Jim Burkhard da S&P citado pelo FT. O mercado já perdeu mil milhões de barris de crude desde que a guerra no Irão começou. “Os preços elevados de petróleo ainda estão para vir”.
Um acordo de paz em breve iria atenuar, mas não terminar, a crise energética. A reabertura gradual do estreito de Ormuz ao longo de 30 dias significa que a produção só retomaria níveis significativos em junho, com mais seis a oito semanas até a “normalização real do fluxo”, alerta a Rystad.
Já António Costa Silva explica que o reinício da produção e exportação é um processo “muito complexo”: “isto não é como abrir uma garrafa de Coca-Cola”. “Para recuperar e voltar à produção são precisas entre 6 a 8 semanas, cerca de dois meses para chegar ao normal”, prevê.
Depois, “há muitas infraestruturas danificadas”, com 70/80 atingidas durante a guerra nos países do Golfo Pérsico, incluindo o maior complexo petroquímico do mundo, o terminal de Tanura na Arábia Saudita, que processa 8 milhões de barris por dia. Também o Qatar, um grande produtor de gás, teve várias instalações atingidas, com a recuperação a demorar 3 a 5 anos.
“Com as ameaças constantes, o retomar do tráfego no estreito de Ormuz vai ser feito pouco a pouco. Mesmo que a guerra acabe, ainda vai passar bastante tempo até regressarmos a uma situação de normalidade. Este ano vai ser difícil e, muito provavelmente, a primeira metade do próximo ano”, rematou António Costa Silva.

Share this content:

Publicar comentário