Eleições em Cabo Verde: PAICV quer promover emprego e espera dinamizar o setor primário
O presidente da Câmara da Praia e líder do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV, oposição), Francisco Carvalho, aponta o emprego como “prioridade maior” das propostas para as legislativas de 17 de maio.
Em entrevista à agência Lusa, o candidato a primeiro-ministro refere que é o instrumento principal para combater a pobreza e para “permitir que os cidadãos sintam o impacto do crescimento nos seus bolsos e em casa, na panela” – especialmente os jovens, para “concretizarem os seus sonhos” sem saírem do país.
Francisco Carvalho fala de emprego “a criar pelo setor privado”, prometendo “uma administração pública que consiga ser tão veloz quanto a mente de um empresário para que este sinta que há um novo ambiente em que é valorizado”.
O líder do partido cabo-verdiano de esquerda, integrado na Internacional Socialista, defendeu que, “no processo de desenvolvimento, a base é o setor primário: agricultura, pesca e criação de animais”, peças que considerou fundamentais para “criar emprego” e “fornecer o setor do turismo”, que está em amplo crescimento – mas importa grande parte do que serve aos visitantes.
Os planos incluem “a criação de um banco para financiar o setor primário”.
A mira neste setor não diminui a aspiração em também conseguir “trazer fábricas para Cabo Verde” e, como na Câmara da Praia, criar programas de incentivo ao empreendedorismo.
“Eu não posso dizer que Cabo Verde é só isto. Eu não posso dizer aos jovens que não se pode fazer mais nada. Nós sabemos, o povo sabe, que, por exemplo, ao nível do Orçamento do Estado, há muita gordura por onde cortar”, aponta.
Por exemplo, a dimensão do Governo: “é uma crítica que está na rua, por todo o lado. Nós vamos diminuir o Governo em termos de gabinetes de ministros e vamos poupar aí”, refere Francisco Carvalho.
Acrescenta ainda outro exemplo, os custos com “estudos e consultorias”.
Contas feitas, diz que “representam 4,5 mil milhões de escudos (40,8 milhões de euros), dos quais basta mil milhões (nove milhões de euros) para financiar a universidade pública e os alunos poderem frequentá-la de forma gratuita”.
“Em relação à emigração, eu digo isto: vamos criar todas as condições para que os jovens fiquem em Cabo Verde e contribuam com a sua força e energia para o desenvolvimento do país”, refere.
A mobilidade “é algo que tem a ver com a liberdade” individual, mas “é responsabilidade do Estado criar condições para que, quem quiser ficar, fique”.
Sobre a diáspora, o líder do PAICV quer reabrir um documento de estratégia de emigração e desenvolvimento que acusa o Governo do Movimento pela Democracia (MpD) de ter deitado fora, quando chegou ao poder, em 2016.
“Estava tudo ali. Nós vamos retomar essa estratégia”, diz, adiantando que pretende criar um conselho das comunidades, “uma espécie de parlamento dos emigrantes cabo-verdianos”, a par de uma “agência voltada para a mobilidade”, com representações em todos os países com comunidades expressivas, para as acompanhar de perto.
“Não vamos inventar a roda”, refere, mas promete implementar “boas práticas” que partem de coisas tão simples como adequar horários de serviços ao fuso dos países de acolhimento e eliminar taxas aeroportuárias pagas por descendentes de cabo-verdianos.
A emigração é apenas um reflexo do que considera ser “a situação de desesperança no país”.
“O balanço não é meu, é do povo. Os jovens emigram todos os dias, olhamos para o caos que é o sistema de transportes” e “as redes sociais estão inundadas com pessoas que lançam apelos, porque o Estado é incompetente, incapaz de dar um amparo ao cidadão que precisa de cuidar da saúde”, por exemplo, refere o candidato – numa apreciação negativa que inclui desemprego e salários baixos.
“Isto são questões fundamentais, que estão na Constituição da República” e que o Estado deve cumprir, acrescenta, reafirmando as promessas de preços acessíveis nos transportes, saúde e educação.
O atual primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, tem encostado Francisco Carvalho ao “populismo” de promessas fáceis que vinga noutros pontos do globo, classificando-o como “uma ameaça à democracia”, mas o candidato do PAICV refuta a crítica.
“Acho estranho que as pessoas vejam no cumprimento da Constituição da República uma ameaça à democracia”, diz.
“Nós não podemos fotocopiar países. O Estado tem de ser desenhado, tem de ser pensado de acordo com a necessidade dos seus cidadãos e neste momento temos, em Cabo Verde, cidadãos que estão desesperançados. É aqui que entra o Estado de amparo, em que o cabo-verdiano sinta que não tem de abandonar o seu próprio país”, sintetiza.
Francisco Carvalho, 55 anos, professor e sociólogo, natural da ilha do Fogo, considera que o que diferencia a sua candidatura de todas as outras “é uma vontade real de implementar o programa. Pode parecer básico demais, mas é o que está no coração do desencontro”, entre eleitores e eleitos.
O PAICV ambiciona dar continuidade à onda vencedora das eleições autárquicas de há ano e meio (dezembro de 2024), em que conquistou 15 dos 22 municípios, uma maioria inédita.
Uma das vitórias mais expressivas aconteceu na capital, cidade da Praia, em que Francisco Carvalho se recandidatou e venceu com 62% dos votos, partindo para a conquista do partido, de que se tornou presidente em 2025.
MpD e PAICV têm governado o país com maiorias absolutas desde as primeiras eleições livres, em 1991, e ocupam atualmente o parlamento com 38 (MpD, maioria absoluta) e 30 (PAICV) deputados, cabendo ainda quatro à União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID), que ambiciona ter um papel relevante num eventual cenário sem maioria absoluta.
O Partido Popular (PP) e o Pessoas Trabalho e Solidariedade (PTS), fora do parlamento, concorrem também em busca de deputados em seis dos 13 círculos eleitorais.
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