CEO do BCP concorda com redução da taxa de esforço mínima para se ter acesso ao crédito hipotecário
“Olhando só para diminuir a taxa de esforço, acho muito bem”, refere o CEO do BCP, Miguel Maya, na entrevista ao Programa Conversa Capital da Antena 1 e do Jornal de Negócios.
Atualmente o limite máximo da taxa de esforço (DSTI – Debt Service-to-Income) é de 50%, valor que poderá, segundo noticiou o jornal Expresso, ser cortado para 40% ou 45%. O Banco de Portugal considera que quanto mais alto for o seu DSTI, maior o risco de um cliente não conseguir pagar o que deve.
O Expresso noticiou esta sexta-feira que atualmente é possível dar crédito à habitação num prestação (incluindo a taxa de stress de 1,5 pontos percentuais) que se traduza em metade do ordenado líquido. Estes 50% do ordenado abrangem todos os encargos mensais com o crédito à habitação. O Banco de Portugal, cujo Governador, Álvaro Santos Pereira tem alertado para o aumento do risco devido à subida do crédito à habitação (muito fruto da garantia do Estado para 15% dos créditos para habitação própria e permanente dos jovens até aos 35 anos), quer apertar as regras. Segundo o Expresso está a ser estudado passar de uma taxa de esforço máxima de 50% para 40% ou 45%. O que exclui alguns dos mutuários com menores rendimentos.
Miguel Maya, uma apologista da garantia pública do crédito à habitação, diz que esta alteração específica é bem-vinda. “Olhando só para diminuir a taxa de esforço, acho muito bem”, diz o CEO do BCP, que salienta que não pode pronunciar-se em detalhe sobre as mexidas que ainda não foram formalmente comunicadas.
Já na apresentação de resultados do BCP Miguel Maya tinha defendido que “financiar um cliente tem muito mais a ver com a sua capacidade de gerar rendimento para suportar o serviço da dívida (DSTI) do que com o facto de o financiamento corresponder a 90% do valor da casa (loan-to-value)”.
Recordou ainda que o Banco de Portugal inclui na sua análise de aumento de risco (que passou de 3% para 21% após a introdução da garantia pública) todas as operações com DSTI (capacidade de o cliente suportar a dívida) superior a 60% e/ou com um LTV superior a 90%. Ora, os créditos a jovens com garantia do Estado têm, por definição, um LTV superior a 90%, o que não significa necessariamente que sejam mais arriscados do que os restantes, explicou.
O que entra no cálculo do DSTI? Todos os encargos com créditos e outros encargos financeiros mensais fixos. É o total de encargos financeiros mensais / Rendimento mensal líquido.
Segundo o Banco de Portugal, o valor de referência para o DSTI é de 50%. Significa que os encargos mensais não devem ultrapassar metade do seu rendimento líquido. Mas existem exceções: Até 60% do DSTI pode ser aceite em até 10% dos créditos concedidos por uma instituição financeira. Acima de 60%, só em 5% dos créditos, e apenas com justificação clara e avaliação de risco cuidada. Mesmo que ultrapasse os 50%, pode conseguir o crédito, mas vai ter que provar que tem estabilidade, que há um fiador, que tem poupanças. Os bancos analisam cada caso com base no risco.
Na apresentação de resultados, Miguel Maya revelou que “no BCP a produção de crédito com garantia, no primeiro trimestre do ano passado, situou-se na ordem dos 94 milhões de euros. Já no primeiro trimestre de 2026, andou na ordem dos 300 milhões de euros. O peso da garantia no total do crédito à habitação própria e permanente — onde se aplica esta medida — ronda os 40%”.
O crédito hipotecário na atividade do BCP em Portugal se fixou em 22.296 milhões de euros a 31 de março de 2026, registando um aumento de 11,4% (mais 2.281 milhões de euros) face à mesma data do ano anterior, impulsionado por uma procura crescente, sobretudo devido aos incentivos estatais dirigidos aos jovens.
O plafond inicial da garantia pública do BCP foi totalmente esgotado, acrescentou Miguel Maya. O valor inicial da quota atribuída ao banco era de 185,4 milhões de euros, tendo sido posteriormente reforçado em 150 milhões de euros.
O CEO do BCP revelou ainda que o peso dos créditos com garantia representa 40% do total do crédito para habitação própria e permanente.
Miguel Maya explicou também que o valor médio dos créditos à habitação com garantia do Estado para jovens até aos 35 anos se situa na ordem dos 218 mil euros.
“O que nos parece é que esta é uma boa medida e que está a ser gerida com muito rigor. É, portanto, algo que está a criar valor para a sociedade, na medida em que permite que mais casais tenham casa própria e, dessa forma, iniciem a sua vida”, defendeu na altura o CEO do BCP.
Saída da Fosun?
Na mesma entrevista, Miguel Maya, questionado sobre os sinais crescentes sobre a saída da Fosun da estrutura acionista do BCP, voltou a responder com o “feedback” é que os acionistas estão satisfeitos. “Em 2023 o banco valorizou 87%, em 2024 foi 69%, em 2025 foi 92,8%. Foi um dos bancos que mais valorizou na Europa. Os acionistas estão satisfeitos com a performance, os clientes estão satisfeitos com o trabalho que temos vindo a fazer”, disse lembrando a política de dividendos que prevê uma remuneração que pode ir até 90% do lucro.
“O banco pertence aos seus acionistas. Eu sou gestor, não sou dono do banco. Como gestor, a minha preocupação é assegurar, por um lado, que tenho estabilidade acionista, e essa estabilidade pode ser conseguida com acionistas com 20% ou com 10% ou com o maior acionista com 4%. Mas preciso de estabilidade acionista porque o banco precisa de acionistas. A preocupação é gerar valor, é ter um banco rentável, capaz de inovar, capaz de prestar um bom serviço à sociedade, que apoie o crescimento da economia e o bem-estar das famílias”, referiu na entrevista.
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