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Ensino Superior. Uma revolução silenciosa do mercado de trabalho

Ensino Superior. Uma revolução silenciosa do mercado de trabalho

Há, em Portugal, quase 1,9 milhões de pessoas empregadas com ensino superior. Deixemos este número respirar um pouco, porque não é um valor qualquer. Neste momento, já corresponde a mais de um terço (35%) de todo o emprego no país e, igualmente impressionante, é já o segmento mais representativo, ultrapassando os 1,79 mil milhões que têm ensino secundário ou pós-secundário (formação profissional especializada) e os 1,6 mil milhões que não têm mais do que o terceiro ciclo, segundo os mais recentes dados trimestrais do Instituto Nacional de Estatística (INE).
O salto foi significativo em apenas 15 anos, num contexto de crescente terciarização da economia e à medida que novos licenciados vão substituindo as gerações mais velhas, maioritariamente com menores qualificações. Em 2011, quando a Troika aterrou em Portugal, havia 876 mil pessoas empregadas com ensino superior. Ou seja, subiu 104% até 2025 (1,8 milhões), contra um aumento de 88% no secundário e uma redução acentuada de 40% entre trabalhadores com menores qualificações. É um número que também não deixa qualquer dúvida sobre a transformação em curso: desde 2011, há menos um milhão de pessoas empregadas com escolaridade até ao nono ano — num período em que o mercado de trabalho ganhou 723 mil trabalhadores.
A tendência tem sido tão imparável que mesmo durante o resgate financeiro, conhecido pela forte “fuga de cérebros” do país, o valor nunca deixou de subir: estavam empregadas 907 mil pessoas com um diploma em 2012, 927 mil em 2013 e 1 milhão em 2014.
O país tem hoje a nível europeu a 10.ª maior força de trabalho diplomada da UE, fazendo “match” com o ranking da população — sim, Portugal, tem mais habitantes do que outros 17 estados-membros.
Haver perto de 2 milhões com, pelo menos, a licenciatura é uma evolução significativa, tendo em conta que há 30 anos, em toda a década de 90, a força de trabalho total (estivesse ou não empregada) nunca chegou sequer a ter 600 mil pessoas com ensino superior. Números que, convém sublinhar, já eram uma gigante conquista face aos 50 mil de 1970.
O que estes números não nos dão é a dimensão do atraso que ainda existe. Os 35% de diplomados face à população empregada que referimos acima deixam Portugal apenas na 20.ª posição a nível europeu. Só sete países (Roménia, Itália, Chéquia, Eslováquia, Hungria, Croácia e a industrial Alemanha) têm percentagens mais baixas. Por outro lado, Irlanda e Luxemburgo lideram, ambos na casa dos 57%.
Também aqui a posição relativa já foi pior. Em 2011, Portugal, com 20%, estava na 24.ª posição, tendo só Áustria, Chéquia e Itália com menor percentagem. Desde então — também porque Portugal estava entre os países com mais caminho por desbravar — apenas três países viram a percentagem aumentar em mais de 15 pontos percentuais (Áustria, Luxemburgo e Malta). França teve uma subida da mesma dimensão.

E haverá mesmo trabalho para tanto diploma? Os dados do Eurostat mostram que sim, para a larga maioria (88,5%) e, por feliz coincidência, enquanto escrevemos estas linhas, foi publicado na quinta-feira um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos que nos dá uma ideia complementar para as novas gerações. Luís Catela Nunes, Pedro Reis e Teresa Thomas, que analisaram as tendências no ensino superior e no emprego jovem em Portugal, mostram que os mestrados estão a garantir taxas de emprego de 88% em um ou dois anos, e as licenciaturas 75% (convergindo, a cinco anos, com os mestrados).
Nem todos vão executar tarefas correspondentes às suas qualificações, mas, neste capítulo, Portugal compara bem com os parceiros europeus, segundo dados do Eurostat. Para se ter uma ideia, 34% dos diplomados em Espanha estão a fazer trabalhos para os quais são sobrequalificados, seguindo-se outros dois países do sul da Europa – Grécia (31,4%) e Chipre (27,5%). Portugal surge apenas no 18.º lugar (16,4%), com valores semelhantes aos de países nórdicos (Finlândia e Dinamarca). Diga-se, aliás, que Portugal até já foi melhor neste aspeto: em 2017 e 2018, na casa dos 13%, só tinha o Luxemburgo com uma menor proporção de casos desajustados.

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