Vladimir Putin visita China e por pouco não se encontrou com Donald Trump
A poeira levantada pelo Air Force 1 ainda não terá assentado totalmente e já Pequim recebe mais um avião presidencial, desta vez ocupado pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin. A proximidade das visitas de Trump e de Putin não é, para os analistas, despicienda, e muito menos um acaso de agendas: é uma forma de o presidente chinês, Xi Jinping, mostrar que se encontra sem hesitações ao lado do seu homólogo russo. E o facto de a cimeira com Trump ter deixado um claro sinal de pouco ‘entrosamento’ entre as duas maiores economias do mundo não ajuda a uma leitura separada das duas visitas.
O presidente russo chegou esta terça-feira, 19 de maio, a Pequim pela ‘enésima’ vez (parece que foram 25 vezes!), numa viagem confirmada na passada sexta-feira, poucas horas depois de Trump concluir a visita de Estado. Segundo o Kremlin, Putin e Xi Jinping pretendem discutir como “fortalecer ainda mais” a parceria estratégica entre os dois países e “trocar opiniões sobre questões internacionais e regionais relevantes”.
Diplomaticamente isolada no cenário mundial, a Rússia tem-se servido da amizade da China para manter um pé no cenário internacional – apesar de os interesses dos dois países nem sempre terem sido, no passado recente, convergentes. De facto, em algumas das mais recentes cimeiras dos BRICS, a China teve que se impor para impedir que a Rússia tomasse conta do bloco onde se reúnem países emergentes. A invasão da Ucrânia e o facto de a Rússia ter passado a ser um pária em várias capitais mundiais ajudou Pequim a consolidar a sua posição de liderança (que a Índia também pouco aprecia) dos BRICS. Mas nunca deixou de acolher a Rússia com uma ‘velha amizade’.
Sendo a China a principal compradora do petróleo russo mesmo quando a sua venda esta sob sanções internacionais, a Rússia tem todo o interesse em aumentar a sua exposição ao comércio bilateral – num quadro em que a economia de guerra vai gerando escolhos ao seu desenvolvimento. Antes da visita, os dois presidentes trocaram “cartas de felicitação” no domingo para comemorar os 30 anos da associação estratégica entre os seus países.
Em mensagem em vídeo dirigida aos chineses, divulgada esta terça-feira, Putin disse que as relações atingiram “um nível verdadeiramente sem precedentes” e que “o comércio entre Rússia e China continua a crescer”. “Sem nos aliarmos contra ninguém, buscamos a paz e a prosperidade universal”, acrescentou o chefe de Estado russo. Putin, que trata Xi Jinping por “querido amigo”, está ansioso para mostrar ao mundo que as relações bilaterais não serão afetadas pela visita de Trump. As duas partes consideram que os seus vínculos são “estruturalmente mais fortes e estáveis” do que os laços entre China e Estados Unidos – o que parece cerro dado que não há na agenda nenhum ponto que possa gerar polémica. Nem na economia nem na política: o Kremlin apoia firmemente tudo o que a China pretende fazer em Taiwan. Pequim responde da mesma forma: pede com frequência o início de negociações para acabar com a guerra na Ucrânia, mas nunca condenou a Rússia pela ofensiva.
Os analistas consideram que a falta de resultados claros da cimeira com Trump provavelmente tranquilizou Moscovo – e, de facto, Xi Jinping não chegou a nenhum acordo com Trump que colocasse em causa os interesses russos. Aliás, a Ucrânia terá sido uma espécie de não-assunto entre as duas maiores economias do mundo – uma vez que Trump também não se mostrou particularmente interessado em debater a matéria. E convém não esquecer que Trump flexibilizou temporariamente algumas sanções ligadas ao petróleo russo, sem acabar com o embargo por completo: uma isenção temporária que permite a alguns países continuarem a comprar petróleo russo transportado por mar
Putin espera que a China aprofunde o seu compromisso com Moscovo, depois de Trump ter declarado durante a sua visita que Pequim havia concordado em comprar petróleo aos Estados Unidos. Como a Rússia depende das vendas para a China para sustentar o esforço de guerra, Putin não quer perder o apoio da China. Depois de reunir com Xi Jinping em abril, o chefe da diplomacia russa, Sergey Lavrov, disse que a Rússia poderia “compensar” a escassez de energia resultante da guerra contra o Irão. O petróleo está, portanto, no centro das atenções –especialmente o gasoduto ‘Power of Siberia 2’. Uma última nota não menos importante: os dois países querem aumentar as trocas comerciais em moeda nacional, deixando o dólar de parte.
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