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Empurrar com a barriga

Empurrar com a barriga

Em duas gerações, desde os anos 60, a esperança de vida em Portugal aumentou em 20 anos. São duas décadas. É obra. São boas notícias, desde que sejam anos de qualidade, com saúde que os permita viver. Devemos um agradecimento sentido à medicina e às condições de vida por esta conquista.
Agora, as más notícias. Ao mesmo tempo que isto acontecia, que ganhávamos tempo, a natalidade caiu drasticamente. O número de filhos por mulher caiu para menos de metade, de 3,2 para 1,45. Muito aquém do necessário para a substituição de gerações. Hoje, Portugal é o segundo país mais envelhecido da Europa, só atrás da Itália, e o quinto do Mundo. Quase um quarto da população tem mais de 65 anos e mais de 7% supera os 80 anos de idade. São 39 séniores por cada 100 habitantes em idade ativa e os dados não são mais extremados por causa da imigração, mais jovem. Desde 2001 que o número de idosos supera o dos jovens. E as projeções apontam para a acentuação destas tendências. Em 2050, um em cada três terá mais de 65 anos e o peso dos octogenários quase duplicará. O rácio de dependência deverá subir para cerca de 63 idosos por cada 100 pessoas em idade ativa. E o índice de envelhecimento continuará a agravar-se, serão três idosos por cada jovem.
Isto é um problema estrutural, imenso. Impacta toda a sociedade, com consequências para a forma como nos organizamos, como trabalhamos, como gerimos recursos. É impossível promover uma qualquer política para a saúde, a prazo, sem ter isto em conta, porque vai haver mais procura. O mesmo para a segurança social, que não está construída para suportar esta pressão. Não são as políticas de natalidade, que podem mitigar o impacto, mas que não alteram a direção do movimento, ou as alterações mínimas na idade de reforma que transformam o quadro.
Em poucos anos seremos menos, mais velhos, com diferentes necessidades. O embate será tão profundo que este devia ser um tema central dos agentes económicos e políticos. Não é. Só para o Presidente da República, que tem como primeira missão a construção do pacto para a saúde, uma herança de Marcelo Rebelo de Sousa, mas que já assinalou como tema para o próximo ano a demografia. Mesmo as empresas parecem alheadas. Menos os seguros, obrigados a olhar mais à frente. O regulador assinalou que esta questão da longevidade tem de ser abordada desde já. Porque a prevenção vai ser essencial, a informação e a literacia também. Desde agora. Porque são movimentos com uma força tremenda, estruturais, imparáveis. Em Belém, António José Seguro percebe o que vai ser transformador. No Parlamento, ainda se propõe baixar a idade de reforma, como se este fosse um daqueles problemas que se resolve por si, empurrando com a barriga. Dois países diferentes.

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