Gramática política angolana
A gramática política angolana reduz-se a um conjunto de classificações políticas simples sobre as atitudes e os comportamentos dos sujeitos face ao poder político. Esta gramática procura inviabilizar a mera condição de cidadão e a impossibilitar qualquer tentativa emancipatória da sociedade civil. Estabelecendo-se, assim, dois tipos de sociedade civil, uma pacífica, quando é neutra ou ausente de algum juízo crítico, e outra contestatária, quando ousa tecer críticas ao estado da governação do país.
À luz dessa gramática, os sujeitos angolanos são classificados da seguinte forma: se um angolano decide elogiar o governo, é, pois, rotulado de bajulador e almeja, deste modo, receber algo em troca. Se, pelo contrário, opta por criticar o estado de governação, passa a ser um sujeito da oposição. No período da guerra civil era, logo, associado à UNITA.
Se é um mero crítico, mas não é um actor activo nos protestos e manifestações contra o governo, é apenas um revú. Quando assume uma postura de contestação frontal, participando, directamente, nas manifestações e nos protestos contra o governo, passa, assim, a ser classificado como um activista. Segundo a gramática política angolana, um revú é um sujeito com uma tomada de consciência crítica sobre o estado da governação do país. Por sua vez, o activista é um sujeito crítico em estado permanente que estabelece uma rede de contestação e promove manifestações. Sem uma associação política a um partido, mas, sim, a uma causa.
Dentro do activismo angolano foram estabelecidas duas modalidades: i) os activistas-milicianos que actuam sob a agenda de determinados partidos e são bastantes activos nas redes sociais; ii) os activistas-militantes que estão inscritos nos partidos. Esta nova reconfiguração do activismo é o reflexo das cisões, conflitos, ciúmes e tensões que atravessam esses sujeitos, onde a luta pelo poder através de um derrube do regime do MPLA é o único ponto de concordância.
A gramática política angolana traduz o produto histórico de um Estado marcado pela luta de poder, onde as relações humanas foram forjadas na desconfiança permanente e onde todos se tornam vigilantes dos outros, criando um ambiente social panótico. Assim, os silêncios, omissões e desinteresses são, apenas, encarados como uma estratégia política de sobrevivência e não como um resultado de uma decisão de um cidadão.
Resta-nos, assim, questionar como será possível construir uma sociedade civil coesa e fortalecida, sem vasos comunicantes fiáveis e sem uma terra sólida confiável, onde possamos depositar alguma fé nas pessoas ou nas instituições que regem o bem-comum.
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