A carregar agora

Mais de meia volta ao mundo para garantir combustível

Mais de meia volta ao mundo para garantir combustível

Portugal prepara uma verdadeira ofensiva diplomática energética. Missão: garantir o fornecimento por parte de parceiros estratégicos durante a maior crise energética mundial da história. Os países a visitar são o Brasil, a Nigéria e a Argélia que fornecem petróleo, gás e combustíveis a Portugal. São mais de 24 mil quilómetros a percorrer, mais de meia volta ao mundo (60% do total), ou mais do que o caminho marítimo para a Índia de Vasco de Gama. Objetivo: assegurar o cumprimento dos contratos de energia para a República Portuguesa em tempos de guerra no Médio Oriente.
“Temos tido ao longo dos anos fornecedores muito estáveis e confiáveis”, afirma a ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho ao Jornal Económico (JE). “Queremos agradecer-lhes e ter a certeza de que vamos continuar, seja quais forem as circunstâncias, a ter o abastecimento para que não seja necessário fazer nenhuma alteração na vida do nosso país”, explica.
Maria da Graça Carvalho qualifica esta ação como “normal”, ainda que feita num “período crítico para o abastecimento de energia”. Resumindo: “Há um reforço de ligações de contactos com os nossos fornecedores”, diz a governante ao JE.
O Brasil é, de longe, o maior fornecedor de petróleo a Portugal, com 44% do abastecimento total. Segue-se a Argélia com 18%, os estados Unidos da América (EUA)com 10% e a Nigéria com 8%, segundo os dados de 2024 da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG).
No gás, a Nigéria abastece 48% do consumo de Portugal, seguida dos EUA com 38%, Espanha com 9% e a Rússia com 6% em 2024.
“É importante que haja aqui uma boa relação entre os governos que nos fornecem os combustíveis fósseis”, diz a ministra. “Se as questões do conflito no Médio Oriente não abrandarem, vai ser uma questão crítica. É muito importante ter fornecedores que nos garantem uma ajuda em qualquer circunstância”, destaca.
Apesar de os contratos de abastecimento serem feitos com empresas privadas, o Governo sente que é importante estar atento a este dossier no atual momento de crise.
Em abril, o ministro de Minas e Energia do Brasil, Alexandre Silveira, garantiu que o seu país estava disposto a ajudar Portugal no abastecimento de energia, se necessário.
“Este assunto foi falado e houve toda a disponibilidade de nos ajudarem a continuar com o fornecimento de combustíveis fósseis e de nos ajudar”, em caso de eventuais dificuldades, diz Maria da Graça Carvalho.
O ministro da Energia brasileiro volta a Portugal a 1 de junho e a ministra portuguesa visita o Brasil na última semana de julho. A relação estreita-se.
Sobre a Argélia, Graça Carvalho revela que tem havido contactos “muito bons” com o embaixador magrebino em Portugal. O secretário de Estado do Ambiente, João Manuel Esteves, desloca-se esta semana à Argélia, onde vai realizar “contactos com membros do Governo exatamente para reforçar as relações”.
Mais tarde, o ministro da Energia da Argélia desloca-se a Portugal antes do verão, e a ministra lusa visita o país do Magrebe em setembro.
Em relação à Nigéria, Maria da Graça Carvalho desloca-se a Abuja, a capital do país africano, no início de julho para “acompanhar os fornecedores e fortalecer as relações”.
A governante considera que é importante “as relações pessoais entre os ministros” da tutela, o que é crucial para ajudarem em “qualquer dificuldade”, sendo importante “ter um contacto mais direto” com estes líderes.
A ministra deixou também uma palavra de agradecimento ao governo da República Federativa do Brasil.
“Além da relação comercial, agora também é uma relação de ajuda, porque eu sei que há muita pressão de outros países que estavam a ser abastecidos pela zona do Golfo Pérsico e que agora têm mais dificuldade”, aponta ao JE. “Há uma grande pressão. Temos de manter esta boa relação, que sempre existiu, com o Brasil”, defende.
Visita à Nigéria com invasão da Ucrânia
Recorde-se que em 2022, noutra grande crise energética, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, o então secretário de Estado da Energia, João Galamba, deslocou-se à Nigéria com a Galp, a companhia que tem os contratos com o país africano, para exigir o cumprimento do acordado, depois de a Nigéria ter falhado quatro carregamentos.
“Na crise de 2022/2023, houve casos, de outros países, de contratos que foram cortados e que mudaram para fornecer outros países… queremos ter a certeza que nada disto nos vai acontecer, que esta relação continua a ser estável, como sempre foi”, diz Maria da Graça Carvalho. “A relação próxima ajuda a dar confiança a todos”, reforça.
“Na relação que temos com estes países… todos nos dizem que somos um parceiro preferencial pelas ligações históricas, políticas e de confiança ao longo dos anos. Isso dá-nos um conforto devido a estas boas relações diplomáticas que existem com estes países. Mas é uma ajuda, porque há muitos que estão a pressionar”, acrescenta
Um dos combustíveis de que a Europa mais está dependente do Médio Oriente é o combustível para aviação (conhecido por jet fuel ou querosene).
Sobre a capacidade atual de Portugal, a ministra diz que a Galp continua-nos a assegurar que produz 80% e que “os restantes 20% estão assegurados”.
Portugal produz maioria do jet fuel e do gasóleo
Antes da guerra, a maioria das compras de Portugal ao exterior tinham origem precisamente no Golfo Pérsico (60% das importações).
O Kuwait foi mesmo o maior fornecedor estrangeiro de Portugal de jet fuel em 2024, com a Arábia Saudita na quarta posição. Na segunda e terceira posições surgem a Coreia do Sul e a China.
Mas, nesse ano, Portugal comprou somente 25% do jet fuel de que necessitou ao estrangeiro com os restantes 75% a virem da refinaria de Sines.
Outro dos combustíveis que Portugal compra bastante ao exterior é o gasóleo. Olhando para 2024, a quase totalidade do gasóleo comprado ao exterior em Portugal teve origem em Espanha, pesando 85% nas importações, seguida dos Países Baixos com 14%. Mas o gasóleo importado corresponde apenas a 25% do consumo do país, com 75% a ser produzido na única refinaria nacional.

Share this content:

Publicar comentário