“Portugal ainda está numa fase inicial de adoção da IA”, diz CEO da Solutions 360
João Vieira, atual diretor-geral de Tecnologia da MDS e CEO da Solutions 360 (empresa do Grupo MDS), lidera projetos de transformação digital em gigantes do setor segurador (Zurich e Chubb), com forte experiência internacional na América Latina. Mestre em Gestão pelo ISCTE e a concluir o IMD Digital Excellence Diploma, alia a visão corporativa ao rigor académico, sendo professor convidado na área da Sustentabilidade na Católica Porto Business School e membro ativo do INSURE.Hub.
Até que ponto considera que as empresas portuguesas estão preparadas para integrar a Inteligência Artificial nos seus modelos de negócio?
Hoje, praticamente todas as empresas têm condições para implementar soluções de Inteligência Artificial, independentemente da sua dimensão ou setor. Tal como aconteceu com a internet, assistimos a uma democratização do acesso à informação, ao conhecimento e à automatização de tarefas que antes eram difíceis, demoradas ou até impossíveis de executar.
No entanto, para que a IA tenha impacto real numa organização, não basta apenas adotar ferramentas. É fundamental que a liderança incorpore a Inteligência Artificial na estratégia da empresa e a assuma como uma peça importante para o futuro do negócio.
A implementação deve fazer parte de um processo de transformação mais amplo, com várias etapas: definição de prioridades, identificação de casos de uso, plano de adoção, comunicação interna, formação das equipas e acompanhamento contínuo da mudança. As empresas que conseguirem alinhar tecnologia, pessoas e estratégia estarão claramente mais preparadas para os desafios dos próximos anos.
A economia portuguesa, muito dependente do turismo e de serviços, está mais exposta ou mais protegida face à disrupção da IA?
O turismo e os serviços continuam a depender muito das pessoas, mas ao mesmo tempo vivemos um contexto de escassez de recursos humanos em várias áreas. Isso faz com que a Inteligência Artificial possa ter um papel importante no aumento da produtividade e no apoio às equipas.
A economia portuguesa estará mais exposta ou mais protegida consoante a capacidade que tiver para adotar estas tecnologias de forma eficiente. A IA não é apenas um tema tecnológico, é também um fator de competitividade.
Hoje, muitos consumidores já recorrem a ferramentas de IA para pesquisar destinos, comparar preços, analisar experiências ou planear viagens. A escolha entre um país ou outro poderá, cada vez mais, ser influenciada pela informação que essas plataformas disponibilizam e recomendam.
Por isso, os países e as empresas que conseguirem adaptar-se mais rapidamente terão uma vantagem competitiva importante.
Que setores em Portugal têm maior potencial de transformação com IA no curto prazo?
O setor dos serviços será certamente um dos mais impactados no curto prazo. Muitas organizações ainda têm uma forte componente administrativa e operacional, o que acaba por consumir tempo das equipas em tarefas repetitivas e de menor valor acrescentado.
A Inteligência Artificial pode ajudar precisamente nessa área, automatizando processos, acelerando tarefas e permitindo que as pessoas se foquem mais em funções estratégicas, comerciais ou de relacionamento com clientes.
A indústria é outro setor com enorme potencial de transformação. A combinação entre Internet of Things (IoT), dados e Inteligência Artificial poderá trazer ganhos relevantes ao nível da produtividade, eficiência operacional e manutenção preditiva.
Também setores como seguros, saúde, banca, retalho e logística terão uma evolução muito significativa nos próximos anos.
Num setor como o turismo, onde o fator humano é crítico, como é que a IA pode criar valor sem comprometer a experiência do cliente?
Na minha perspetiva, a Inteligência Artificial deve servir para apoiar as pessoas e não para substituir o fator humano, especialmente num setor como o turismo, onde a experiência e a relação com o cliente continuam a ser fundamentais.
Tudo aquilo que possa ser delegado à IA para libertar tempo às equipas e permitir um maior foco no cliente é positivo. Muitas tarefas administrativas e operacionais podem ser automatizadas, permitindo aos profissionais dedicar mais atenção ao acompanhamento e à experiência do cliente.
Ao mesmo tempo, a IA pode ajudar as empresas a conhecer melhor os seus clientes, analisar tendências de mercado, acompanhar a concorrência nacional e internacional e personalizar serviços.
O equilíbrio estará sempre em usar a tecnologia para melhorar a experiência humana, e não para a substituir.
E no caso do setor segurador?
No setor segurador, a Inteligência Artificial terá um impacto muito relevante, não apenas na automatização de tarefas administrativas, mas sobretudo na prevenção e antecipação de risco.
No setor automóvel, por exemplo, poderá ajudar a prevenir acidentes através da análise de padrões de condução e monitorização em tempo real. Poderá ajudar na regularização dos sinistros de forma mais rápida e justa.
Na área da saúde, poderá apoiar diagnósticos mais rápidos e precisos, e antecipar diagnósticos que permitem tratamentos mais efetivos.
Além disso, a IA permite acelerar processos, melhorar a análise de informação, reduzir fraude e criar soluções mais ajustadas ao perfil de cada cliente.
A IA pode ajudar a mitigar a escassez de talento no setor do turismo? De que forma?
Pode ajudar bastante. Se a IA for utilizada para executar tarefas mais repetitivas e operacionais, será possível reduzir pressão sobre as equipas e otimizar recursos.
Existe também uma questão importante relacionada com a atratividade do setor. Muitas funções no turismo implicam horários exigentes e tarefas pouco diferenciadoras. Se a tecnologia conseguir assumir parte dessas atividades, os profissionais poderão focar-se em funções de maior valor acrescentado, mais qualificadas e mais motivadoras.
Isso pode contribuir não só para melhorar a produtividade, mas também para atrair e reter talento.
Sabendo que o tecido empresarial português é maioritariamente composto por PME, quais são os principais desafios que estas enfrentam na adoção de IA?
As PME enfrentam vários desafios na adoção de Inteligência Artificial. Desde logo, a capacidade financeira para investir, mas também o conhecimento das lideranças e das equipas sobre o potencial real destas tecnologias.
Muitas empresas ainda não sabem exatamente onde a IA pode ser aplicada ou por onde devem começar. E essa é uma das questões mais importantes: identificar casos concretos onde a tecnologia possa trazer ganhos reais para a organização.
A capacitação será fundamental nos próximos anos, tanto ao nível da gestão como das equipas.
As iniciativas do PRR ligadas à adoção de IA nas PME foram extremamente positivas. O apoio até 300 mil euros, com uma componente significativa a fundo perdido, permitiu acelerar vários projetos com impacto direto na competitividade e eficiência das empresas portuguesas.
Seria importante continuar a apostar neste tipo de incentivos por parte do Governo, garantindo também prazos de candidatura mais alargados, de forma a permitir às empresas estruturar projetos mais sólidos e com impacto efetivo no negócio.
Qual é o papel da liderança na adoção eficaz de IA dentro das organizações?
A liderança é, na minha opinião, a base de tudo. Sem um alinhamento claro da liderança sobre a importância da Inteligência Artificial para a organização, dificilmente a sua implementação será bem-sucedida.
O primeiro passo passa por reconhecer a IA como um tema estratégico e central na transformação das empresas nos próximos anos. A partir daí, é fundamental definir um plano de implementação estruturado, envolver as equipas, promover formação e garantir alinhamento interno em torno dos objetivos da organização.
Mais do que um projeto tecnológico, a Inteligência Artificial deve ser encarada como parte de um processo mais amplo de transformação organizacional.
Que casos de sucesso internacionais podem servir de inspiração para empresas portuguesas?
A Inteligência Artificial já está a ser aplicada com impacto real em diferentes dimensões, desde startups a PME e grandes empresas.
A nível internacional, há vários exemplos em setores-chave para a economia: na agricultura, a John Deere usa IA e visão computacional para agricultura de precisão; no vinho, a Treasury Wine Estates aplica IA na análise de consumidores e otimização da produção; na logística, a Ocado recorre a IA e robótica para automatizar centros de distribuição; na indústria, a Siemens utiliza IA em manutenção preditiva; e no setor energético, a Enel otimiza redes e consumo com base em modelos inteligentes.
Em Portugal, destacam-se empresas nativas de IA como a Sword Health, na saúde, e a Feedzai, no setor financeiro, ambas com soluções aplicadas em escala global. Nas PME, começam a surgir aplicações muito práticas, sobretudo em turismo, serviços e indústria, como a Play Up no têxtil, onde a IA já apoia o desenvolvimento de produto e a eficiência operacional.
O impacto já não está apenas na eficiência, mas na capacidade de decisão, antecipação e criação de novos modelos de negócio.
Portugal ainda está numa fase inicial de adoção, com cerca de 16–18% das empresas a usar IA, abaixo da média europeia de 20%. No Norte da Europa, esse valor sobe para cerca de 35–40%, mostrando ritmos de adoção muito distintos.
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