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“Temos de fazer o mercado interno de armamento”

“Temos de fazer o mercado interno de armamento”

A conferência anual da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP), de que o Jornal Económico é mais uma vez parceiro, deixa sempre para o encerramento, no capítulo ‘notas finais’, o sumo do que foi dito durante os trabalhos e, desta vez, coube a Sérgio Sousa Pinto na sua qualidade de comentador, deixar recados sábios a quem estava presente: “Temos de fazer o mercado interno de armamento”, não só para dotar a União de capacidade de defesa – que a realidade tornou penosamente necessária – mas também para que não sejam sempre os mesmos a comandar uma necessidade que é comum.
Sousa Pinto, ex-deputado socialista, preocupou-se em percorrer de forma sucinta a história recente da economia portuguesa – a partir da entrada do país na Zona Euro., esse “período decisivo”, que devia ser “acompanhado de transições económicas”. “A receita do crescimento económico não correu mal” depois da estabilização política, da reversão das privatizações, a da reconstrução da economia privada. As exportações ganharam aura de salvadoras da economia, o que, do seu ponto de vista, estava bem.
Mas, como Sousa Pinto recordou, a entrada do país numa zona económica defendida por uma moeda forte retirou-nos uma competência: a desvalorização da moeda, que tantas vezes antes tinha salvo a economia caseira. “Passámos a ter de vender valor numa altura em que o nosso valor não era suficiente para competir com o valor dos outros”, disse, e isso trouxe novos problemas no quadro da ‘imutabilidade’ do valor da moeda. “Como fazer? Na transição para o euro devíamos ter falado sobre o que fazer do nosso perfil produtivo” – num quadro em que “a criação do euro criou novas distorções à economia”. E novas realidades que de alguma forma ‘enganaram’ toda a gente: o crédito barato. Era um duplo engano: “esse mundo não ia durar para sempre.
Tudo piorou quando “a China entrou na Organização Mundial do Comércio (OMC) ee com o alargamento da União”. “Passámos a ser periféricos” – com o centro da União e da sua economia a ‘deslizar’ para Leste. Por essa altura, para os mesmos níveis de salários e com trabalhadores imensamente mais capacitados, o país, que tinha sentido uma espécie de choque de rico, passou também pelo choque de pobre. Felizmente, disse, “temos empresas que se souberam adaptar”.
Mas os enganos não se ficaram por aí: “Prevaleceu a ideia de que íamos assistir a una globalização” e que, nesse novo contexto – ‘vendido’ como eterno ou quase –“a Europa não ia mais precisar de indústria pesada – que ir poluir o terceiro mundo”. Ora, uma das indústrias que passou a ser ‘descartável’ foi precisamente a siderurgia. Sérgio Pinto recordou que o empresário António Champalimaud (verdadeiro ‘enfant terrible’ do antigo regime) dizia que um país não existe sem siderurgia.
A realidade viria, tantos anos depois, a dar-lhe razão. “Os números não mentem: a metalurgia é um setor pujante” – e, neste novo quadro geoestratégico que pelos vistos apanhou de surpresa a elite bem pensante em Bruxelas e Estrasburgo “há dois ou três setores que são os que estão à porta de uma oportunidade. A metalurgia é um deles”. As novas necessidades de independência em termos de estratégia e segurança da Europa obrigam à reindustrialização e a metalurgia, que teve artes de não se deixar morrer, está aí para responder ao desafio. Que surge por más razões, é necessário que se diga: “a soberania coletiva já não depende do direito internacional, os tratados já não contam, as Nações Unidas já não contam, a confiança num sistema internacional já não existe”.
Aquilo a que se assiste neste novo quadro europeu é talvez diverso do que devia: como Sérgio Sousa Pinto chamou a atenção, as guerras fazem-se muito mais de drones que de tanques de guerra. Que é como quem diz: a ver se o enorme pacote financeiro concentrado não plano ReArm Europe não vai ser todo capturado por empresas e países que produzem material militar que tem cada vez menos importância nos campos de batalha. No meio de funcionários com ideias pré-concebidas, de lobistas encartados e diplomatas a cumprirem as funções para que são pagos, o risco de transformar o desafio da defesa numa ‘bandalheira’ que não transmitirá segurança nem trará independência na defesa, é grande. E como “a defesa vai ter um autêntico plano Marshall” é bom que as empresas nacionais saibam que posição tomar. Com duas preocupações centrais: não correrem o risco de tentarem uma aventura solitária, que não os colocará em boa posição na cadeia de valor; e terem em atenção o valor acumulado nas associações que há anos se dedicam à indústria. A AIMMAP é uma delas.

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