Grupo Sousa investiu 20 milhões de euros na descarbonização de oito navios
Entre Europa e China, entre armadores e fornecedores, entre inovação e pragmatismo, o setor navega uma das transições mais complexas da sua história, conclui-se no painel “Demand Side:Shipping Decarbonization Pathways and Port Applications realizado hoje no evento Portugal China Green Maritime Fuels & Descarbonization 2026, que aconteceu no Templo dos Poetas, em Oeiras.
Se a intervenção da PRIO mostrou o lado da oferta, a do Grupo Sousa expôs com clareza o dilema do lado da procura. Duarte Rodrigues, Executive Board Member do Grupo Sousa apresentou um retrato direto das decisões difíceis que os armadores enfrentam, num contexto de forte pressão regulatória e elevada incerteza tecnológica.
“O problema é simples de enunciar, mas difícil de resolver”, sugeriu: os investimentos em navios têm horizontes de 25 a 30 anos, o que obriga a tomar decisões hoje sobre tecnologias cujo futuro ainda não está definido. Metanol, amónia, hidrogénio, eletrificação — todas são hipóteses, nenhuma é ainda dominante.
Essa incerteza é agravada por realidades operacionais específicas. O caso das regiões ultraperiféricas, como a Madeira, foi particularmente ilustrativo. “Não basta saber qual será o combustível do futuro. É preciso garantir que estará disponível”, afirmou. A questão logística torna-se crítica em territórios insulares, onde a cadeia de abastecimento é mais limitada.
Há ainda contradições entre políticas públicas e necessidades práticas. Duarte Rodrigues apontou que os apoios europeus tendem a privilegiar soluções totalmente limpas, excluindo sistemas dual fuel que poderiam ser essenciais em certos contextos. O exemplo da ligação Madeira–Porto Santo é paradigmático: mesmo que fosse possível operar com eletricidade no trajeto entre ilhas, a necessidade de deslocar o navio ao continente para manutenção exige uma solução complementar. “São problemas reais, do dia a dia”, sublinhou.
Apesar de tudo, o Grupo Sousa não ficou à espera. Nos últimos 18 meses, investiu cerca de 20 milhões de euros na descarbonização de oito navios — sete porta-contentores e um ferry. Todos estão agora preparados para utilizar biocombustíveis, ainda que a sua utilização dependa da viabilidade económica.
O investimento incluiu também eletrificação em porto, com destaque para a ligação entre Madeira e Porto Santo. Neste caso, a intervenção foi dupla: nos navios e na infraestrutura em terra. O resultado é uma redução anual de cerca de 3.200 toneladas de CO₂, um ganho imediato e mensurável.
Além disso, a estratégia incluiu várias outras dimensões: digitalização, sistemas inteligentes de gestão energética, revestimentos de casco mais eficientes e outras soluções técnicas. A mensagem é clara: não há uma solução única, mas sim um conjunto de medidas complementares.
No final, Duarte Rodrigues deixou uma nota de otimismo prudente. “Em 10 anos teremos mais clareza”, disse, acreditando que o setor acabará por convergir para um número reduzido de soluções tecnológicas dominantes. Até lá, o desafio será investir — mesmo sem certezas.
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