A carregar agora

SpaceX a caminho da bolsa avaliada em 1,75 biliões: “Investidor está a comprar desempenho projetado, não apenas potencial”

SpaceX a caminho da bolsa avaliada em 1,75 biliões: “Investidor está a comprar desempenho projetado, não apenas potencial”

A SpaceX prepara a sua entrada em bolsa com uma valorização-alvo de cerca de 1,75 biliões de dólares, segundo o formulário S-1 já apresentado. A operação promete ser uma das maiores da história, mas também uma das mais polarizadoras de Wall Street. Numa análise assinada por João Lampreia, a Freedom24, alerta que a empresa de Elon Musk “combina conquistas operacionais reais com perdas impressionantes” e “não pode ser rotulada nem como um triunfo nem como uma ilusão”.
O que sustenta a tese de 1,75 biliões
O especialista de mercado da corretora Freedom24 destaca dois pilares que já saíram da fase de promessa. O primeiro é a reutilização de foguetões. “A SpaceX é uma empresa que já alcançou aquilo que a comunidade profissional considerava impossível”, escreve João Lampreia. Com o Falcon 9, o custo por quilograma colocado em órbita baixa caiu drasticamente e a quota de mercado nos lançamentos comerciais ultrapassa os 80%.
O segundo é a Starlink. A constelação já tem cerca de 10.000 satélites em órbita, dois terços de todos os satélites ativos do mundo, e mais de 10 milhões de assinantes. Em 2025, as receitas atingiram 11 mil milhões de dólares, mais de metade do total da empresa. “No primeiro trimestre de 2026, este segmento gerou 1,19 mil milhões de dólares de lucro operacional e continua a ser a única divisão lucrativa dentro da holding”, refere a análise. Para João Lampreia, “quando uma infraestrutura de telecomunicações atinge esta escala, ocorre uma mudança de paradigma e as receitas tornam-se recorrentes”.
Uma das críticas do mercado é que a SpaceX deveria separar a Starlink, os lançamentos e a xAI para facilitar a avaliação. João Lampreia discorda: “Os lançamentos e a Starlink formam um sistema verticalmente integrado. A Starlink só funciona porque a SpaceX consegue colocar satélites em órbita a um custo inacessível para qualquer outro operador”. Compara o modelo à AWS da Amazon: “A SpaceX está a construir algo semelhante, mas no espaço”.
A Starship é o próximo passo. Se conseguir reduzir os custos de lançamento em 99% face aos padrões históricos, “significará a abertura de novos mercados que atualmente não existem”, como produção industrial em órbita ou centros de dados orbitais.
xAI: o ponto mais controverso
Adquirida em fevereiro de 2026, a xAI gera 818 milhões de dólares de receitas por trimestre, mas perde 2,47 mil milhões, consumindo 76% do investimento de capital da SpaceX. “Estes números parecem intimidantes, mas seria errado interpretá-los fora do contexto”, defende Lampreia. “Todos os principais intervenientes no mercado dos LLM se encontram atualmente numa fase de investimento massivo”. A chave, diz, é que o Grok não precisa de bater o ChatGPT no segmento empresarial. Basta focar-se “nas subscrições de consumidores através da plataforma X e em nichos específicos”, como programação assistida por IA. Se conquistar esse espaço, “poderá atingir receitas de 80 mil milhões de dólares até 2036, com margens na ordem dos 50%”.
A estrutura acionista dá a Elon Musk 85% dos direitos de voto com apenas 42,5% da participação económica. “Os acionistas públicos obtêm exposição económica, mas dispõem de muito poucos mecanismos de influência”, nota o analista da Freedom24. Ainda assim, lembra que decisões que um conselho tradicional teria travado, como continuar o Falcon 1 à beira da falência ou avançar com a Starlink, “acabaram por se revelar corretas”.
Mas o reverso existe: “Musk faz apostas erradas ao lado das certas, e a sua tendência para polémicas públicas e dispersão operacional por múltiplas empresas cria riscos reais”, diz. Um escândalo na xAI, por exemplo, “não danificaria fisicamente os satélites, mas poderia prejudicar as relações da SpaceX com clientes governamentais” como a NASA ou o Pentágono, acrescenta.
A valorização é justa?
Aqui está o ponto central. O professor Aswath Damodaran estima 1,22 biliões no cenário base e 1,29 biliões na mediana. “Face a estes valores, a avaliação da IPO em torno de 1,75 biliões parece significativamente superior”, reconhece João Lampreia.
“Não se pode afirmar que uma valorização de 1,75 biliões seja impossível de justificar. Existem cenários em que esse preço parece razoável. No entanto, nesse caso, uma parte significativa do crescimento futuro já está incorporada no preço”, acrescenta.
Traduzindo: “A 1,75 biliões, o investidor está sobretudo a comprar desempenho projetado e não apenas potencial”. Para justificar o preço, a Starlink tem de se tornar líder global da internet por satélite, a Starship tem de reduzir drasticamente os custos, a xAI tem de encontrar um nicho sustentável e os novos mercados espaciais têm de criar valor. “Se tudo isto acontecer, essa valorização poderá até revelar-se barata em retrospetiva. Se apenas um se materializar, poderá ocorrer uma reavaliação em baixa”.
Conclusão: excelente empresa, mas a que preço?
“A SpaceX já construiu mais do que muitos críticos estão dispostos a reconhecer, mas está a pedir um preço de IPO que exige que os investidores acreditem num conjunto bastante amplo de pressupostos”, resume João Lampreia.
“A empresa possui efetivamente ativos tangíveis sólidos e sinergias operacionais raras, mas, a um preço de cerca de 1,75 biliões de dólares, os investidores já não estão a pagar pelo potencial em si, mas por grande parte daquilo que esse potencial ainda tem de demonstrar”, defende o analista.
“Sem dúvida, este é o tipo de empresa em que muitos gostariam de investir. No entanto, uma excelente empresa não é necessariamente um bom investimento a qualquer preço. O mercado já pagou caro mais do que uma vez por subestimar as empresas de Elon Musk, mas comprar no auge da narrativa raramente é uma decisão prudente”, acrescenta.
A SpaceX continua a ser privada, com rondas de financiamento que a avaliaram em 350 mil milhões de dólares em dezembro de 2024. Um IPO a 1,75 biliões representaria um salto de 5x em menos de dois anos.
A Freedom24, autora da análise, é uma corretora europeia autorizada pela CySEC e não disponibiliza acesso a investimentos em IPO.

Share this content:

Publicar comentário