A espessura da Índia
Usar a palavra “país” para definir a Índia é ignorar a espessura do que ali se experimenta. É um Estado, decerto, mas percorrê-la assemelha-se mais à travessia de um continente. Não apenas pela dimensão, mas pela coexistência de mundos. Comecemos pelas línguas: não existe uma “língua indiana”, mas dezenas de idiomas, alguns com tradições literárias milenares, formas distintas de habitar o mundo e de o sentir.
Nos templos do sul tamil, animais, divindades, plantas e minerais parecem coexistir numa mesma continuidade connosco. Quase sem querer, tornamo-nos menos separados do mundo à volta, mais porosos. Aqui, o corpo não é ilusão, é templo. E a dança está representada em cada recanto.
Em Jaipur, capital do Rajastão, surge uma experiência inteiramente diferente. A fachada rosada do Hawa Mahal é perfurada por quase mil janelas. Cada uma permitia às mulheres da corte observar a cidade sem serem vistas; o conjunto, porém, oferece-se exuberantemente ao olhar. A visibilidade é a sua própria razão de ser. É uma estética da aparição, do deixar-se contemplar sem se deixar ver. Aqui, a beleza nasce da capacidade humana de produzir uma visão singular. Não é escuta, é manifestação; não é integração, é afirmação.
No Norte, perante o Taj Mahal, a experiência é outra. Se o Hawa Mahal celebra a forma que se afirma, o Taj Mahal parece devolvê-la àquilo de onde provém. O seu mármore recebe a luz e matiza-se ao longo do dia, sensível ao céu e também ao toque das mãos; no interior, vibra com a reverberação dos sussurros; no exterior, o olhar prolonga-se até ao rio Yamuna. Do outro lado, ergue-se o Forte de Agra. Foi dali que Shah Jahan, já prisioneiro, contemplou durante anos o mausoléu erguido em memória da mulher amada. Hoje, repousam lado a lado. É uma estética do acolhimento. Não procura apenas exibir a beleza, mas permitir que a beleza do mundo se exprima através da obra humana. Por isso, resiste à descrição: é preciso estar lá.
O que mais impressiona é encontrar estas experiências coexistindo no mesmo território. Não são “a” Índia; são apenas três entre inúmeras outras. A própria ideia de uma “essência indiana” parece ser desmentida pela diversidade que atravessa o subcontinente.
O que mantém unido um conjunto tão vasto? Em parte, instituições comuns, como os caminhos-de-ferro. Em parte, narrativas partilhadas, como o Mahabharata, alicerce de mil interpretações. Mas a verdade é que a pergunta permanece. Talvez seja precisamente isso o mais fascinante: atravessar milhares de quilómetros, cruzar línguas, paisagens, religiões e sensibilidades tão distintas e continuar, apesar de tudo, na Índia.
Esta crónica integra a série “Caderno de Viagem“, com publicação quinzenal do Jornal Económico.
Share this content:


Publicar comentário