Estreito de Ormuz é o principal tema das negociações EUA-Irão
O acordo entre os Estados Unidos e o Ião assinado em 2015 pelo então presidente Barack Obama demorou 20 meses a ser negociado. O acordo que começa hoje a ser discutido na especialidade em Burgenstock, Suíça, tem um tempo de negociação previsto de dois meses – e Donald Trump, o presidente norte-americano, trabalha sob a obrigação de, no máximo, o ter fechado em quatro meses, a tempo de exercer influência positiva nas eleições intercalares de novembro que vem. Ou seja, o tempo corre a favor do Irão. Neste quadro, o que é essencial para os Estados Unidos, mas não para o Irão, é que seja encontrada rapidamente uma solução estável para o Estreito de Ormuz: o seu eventual re-encerramento iria exercer mais pressão sobre a inflação norte-americana (recorde-se que a Reserva Federal não mexeu nas taxas de juro, contrariando a vontade da Casa Branca), que é tudo o Trump não quer para novembro.
Resta ao lado norte-americano pagar para que isso não aconteça – e o pacote é, para os analistas, extremamente generoso: descongelamento dos ativos iranianos estacionados fora das suas fronteiras, levantamento das sanções (as dos EUA e as do G7) e um envelope de 300 mil milhões de dólares para reparações. Para mais tarde ficará, portanto, a questão nuclear, muito mais difícil de dirimir em sede de negociações dada a imensidade de detalhes que a acompanham – essa que era, afinal, a razão que levou às ações militares iniciadas no pretérito dia 28 de fevereiro. Persiste ainda uma dúvida: vão os Estados Unidos aceitar – como os iranianos dizem que já o fez – a gestão do Estreito por parte do Irão e de Omã? Alguns analistas admitem que Trump aceitará esta gestão de forma temporária, com a ‘desculpa’ de que o Irão tem direito a financiar a destruição de que foi alvo. Mas o certo é que a passagem livre por Ormuz não mais deixará de ser uma recordação dos bons tempos, que acabaram a 28 de fevereiro.
A dúvida de sempre: Israel
Quando há negociações para o fim de uma guerra, a tradição manda que de um lado se sentem uma das partes e do outro lado a outra ( e os mediadores, havendo-os, no meio). Desta vez, eventualmente pela primeira vez, não será assim: a cadeira de um dos lados permanecerá vazia: Israel não faz parte do acordo. Para os analistas mais cáusticos, a dúvida não está em saber-se se Israel voltará a atacar o Irão, mas quando é que isso sucederá. Ou seja, havendo poucas dívidas sobre o assunto, persiste uma outra: que farão os Estados Unidos quando o Estado hebraico voltar à Pérsia? Partindo do princípio que não voltarão a cair no ‘engodo’ de que foram alvo em fevereiro e em junho do ano passado, o que fará a Casa Branca?
Para a grande maioria dos analistas, e apesar da irritação que Donald Trump mostrou das últimas vezes que falou com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, a Casa Branca em nenhuma circunstância regateará o auxílio que presta a Israel há décadas (mas não desde 1948). Será a dimensão desse auxílio que colidirá ou não, ver-se-á na altura, com aquilo que está a ser neste instante ‘cozinhado’ em Burgenstock. Para todos os efeitos, dizem os analistas mais céticos, nada disto encerrará o conflito. Em Camp David (em 1978) as negociações entre Israel e o Egipto não correram mal e o litígio está aparentemente sanado – mas, no caso do Irão, isso não vai acontecer, até porque Teerão não remove da sua retórica pública a intenção manifesta de fazer desaparecer o “Estado sionista”.
Petróleo a deslizar
Neste contexto, será interessante ler-se em que lugar está o preço do petróleo quando, ao final da tarde de hoje, as negociações em Burgenstock forem encerradas. O quadro geral é que o brent cotava esta quinta-feira abaixo dos 77 dólares o barril, sensivelmente o mesmo que a 2 de março, três dias depois do início da guerra. Curiosamente, era o mesmo preço que a commoditie custava a 25 de junho de 2025. Ou seja: há muito que os automobilistas (e os consumidores em geral) não eram tão felizes como entre 25 de junho de 2025 e 2 de março de 2026. Se esta segunda-feira o petróleo continuar numa fase de queda, isso quererá dizer que as coisas estão a correr bem na Suíça.
Outro dado que os analistas indicam que sucederá no fim-de-semana e que aparentemente não tem nada a ver com Burgenstock: muito provavelmente, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia estará numa das suas fases mais agudas, não vá o ocidente achar que a felicidade está ao seu alcance no topo de uma cordilheira nevada do Alpes centrais.
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