Produtores de leite pedem fiscalização à guerra de preços nos hipermercados
O leite que chega ao pequeno-almoço parece igual todos os dias — no café, no pão, na rotina apressada da manhã. Mas por trás desse gesto banal, está a intensificar-se uma guerra de preços que começa no campo e termina nas prateleiras dos supermercados.
O presidente da APROLEP – Associação dos Produtores de Leite, Miguel Silva, sublinha que a atual dinâmica de mercado está a ser alimentada por uma combinação de fatores: excesso de produção no espaço europeu, desvalorização do leite em pó e entrada de maiores volumes de leite a baixo preço, incluindo origem açoriana, no mercado nacional para consumo direto, levando a uma “guerra de preços” nos hipermercados. Miguel Silva refere ainda que o excesso de produção a nível europeu está a levar ao desvio de leite que antes era destinado à produção de leite em pó para leite embalado, aumentando a pressão sobre o mercado interno.
Segundo o presidente da associação, esta dinâmica traduz-se numa “guerra de preços” nos supermercados que está a reconfigurar o mercado retalhista. O dirigente sublinha que se trata de um fenómeno que já ocorreu no passado e que levou a protestos do setor, não sendo por isso uma situação inédita.
Nos últimos dias, foram registadas promoções de leite açoriano entre 0,79€ e 0,84€ por litro, valores que chegam a ficar abaixo da marca própria da grande distribuição, normalmente o segmento mais barato, situada em torno de 0,86€. “Quando temos uma marca própria abaixo das marcas mais baratas, é um sinal ao mercado de que o preço está para baixar”, referiu Miguel Silva.
Este fenómeno é na sua opinião particularmente relevante porque, tradicionalmente, as marcas próprias funcionam como referência de preço mínimo no mercado. Quando são ultrapassadas por produtos promocionais, o efeito imediato é uma descida generalizada das restantes referências comerciais, aumentando a pressão sobre toda a cadeia. O responsável admite ainda que, embora estas práticas não sejam necessariamente ilegais, levantam questões de natureza económica e ética sobre a sustentabilidade da produção.
“Estamos numa situação complicada porque não controlamos os preços a que vendemos. Se entrarmos numa guerra de preços nos hipermercados, isso pode colocar as produções leiteiras em causa”, avança.
Além da pressão no retalho, os produtores apontam o agravamento dos custos de produção como fator crítico de instabilidade. Nos últimos meses, o setor refere também o aumento dos custos energéticos e dos combustíveis agrícolas, num contexto de volatilidade dos mercados, com o gasóleo agrícola a assumir particular relevância na estrutura de custos. “Olhando para Espanha, vemos apoios muito maiores ao gasóleo. Nós temos 10 cêntimos de apoio ao gasóleo que ainda não foi pago porque está a decorrer a candidatura”, afirmou Miguel Silva, sublinhando a diferença de apoio face a outros países europeus. Miguel Silva acrescenta ainda que “as rações aumentaram cerca de 40 euros a tonelada”.
Quanto aos adubos e fertilizantes, o setor refere que continuam sem existir medidas concretas de apoio estruturado, apesar de anúncios e discussões em curso, mantendo-se a incerteza quanto à sua aplicação efetiva. “No caso dos adubos ainda não se sabe nada em concreto”, disse o presidente da APROLEP, acrescentando que “neste momento ainda não se viu nada, nem suficiente nem insuficiente”.
Além da pressão dos custos, a APROLEP alerta ainda para o impacto da importação de produtos lácteos, em especial queijo em barra destinado ao fatiamento, que entra na cadeia nacional com origem difícil de rastrear para o consumidor final, uma vez que é fatiado cá dentro e colocado o rótulo nacional, logo é difícil saber qual a sua origem.
Este conjunto de fatores — custos em alta, apoios limitados e pressão concorrencial no retalho — está a levar a uma redução do número de produtores — cerca de 1400 no continente e 1500 nos Açores — e a uma crescente fragilidade do setor. “Estas guerras de preços não ajudam ninguém, porque no fim de contas quem paga a fatura é o produtor”, lamenta Miguel Silva.
Questionado se já pedira fiscalização de preços e o que o Governo pode fazer para aumentar a resiliência do setor, o responsável defende que este deve assegurar o cumprimento efetivo das medidas anunciadas, criticando a demora na concretização de apoios já prometidos ao setor. O responsável da APROLEP aponta ainda a necessidade de uma estratégia mais estruturada de gestão da produção, em particular por parte do Governo e do Governo Regional dos Açores, de forma a evitar situações de excesso de oferta no mercado que acabam por pressionar os preços em baixa e penalizar os produtores. “O Governo Regional dos Açores tem um papel a cumprir para evitar uma corrida até ao fundo para ver quem chega lá primeiro”, termina.
Produtores saíram à rua para convencer consumidores
“De forma simbólica, fomos para a Rua de Santa Catarina, no Porto, entre as 12h30 e as 13h30, junto à saída da estação de metro do Bolhão oferecer leite nacional e pensamos repetir esta ação noutros locais de Portugal nos próximos meses”, diz Carlos Neves, secretário-geral da APROLEP. A intenção é convencer o consumidor a comprar o que é nacional.
“O leite, os produtos lácteos e outros produtos agrícolas, sendo nacionais, são produtos mais frescos, mais próximos, com menor pegada ecológica, são bons para a saúde dos portugueses e para a economia nacional porque reduzem o défice comercial e mantêm os campos cultivados e longe dos incêndios”, diz, acrescentando que a produção de leite em Portugal tem estado debaixo de enorme pressão devido aos elevados custos dos fatores de produção como gasóleo, fertilizantes e rações. “As ajudas anunciadas pelo Governo são limitadas, vão demorar meses até chegar aos produtores e serão inferiores às atribuídas aos nossos colegas espanhóis, nossos concorrentes diretos”.
Share this content:



Publicar comentário