Byung-Chul Han: “Só o pensamento nos pode salvar da catástrofe iminente”
“Se a revolução não parece possível, talvez seja porque não temos tempo para pensar”. Com tantos estímulos e dependências, “quem é que pode dizer que é livre?”, questionou Byung-Chul Han na conferência inaugural do Babell, o evento literário que decorre no Porto até 29 de junho e que reúne na Invicta uma constelação de autores, nomes maiores da Literatura mundial, entre nobelizados, como Olga Tokarczuk e László Krasznahorkai, e vencedores do Booker Prize, caso de Julian Barnes, sem esquecer Salman Rushdie, Javier Cercas ou Margaret Atwood.
Mas regressemos ao Jardim do Pensamento – o novo espaço verde criado junto ao Mosteiro de Leça do Balio, em Matosinhos, que abriu oficialmente ao público esta quarta-feira –, apadrinhado por Byung-Chul Han, onde o filósofo colheu magnólias “sempre verdes”, que libertam um delicado e inconfundível aroma a limão. Partilhou-as com a audiência e, partindo delas, fez a seguinte revelação aos presentes: viajar deixa-o particularmente ansioso. Para se “acalmar”, rodeia-se de plantas, flores, e interpreta Bach no seu piano de cauda, apesar de não ser um “grande intérprete”, confessa. É um autodidata que, antes de falar em público, ouve sempre o compositor alemão, acrescenta.
O vasto jardim, projetado pelos arquitetos Álvaro Siza Vieira e Sidónio Pardal, é um lugar que convida a abrandar, a reaproximarmo-nos da natureza, a meditar. Outra confissão: “Eu era para ter sido padre, portanto, pertenço aos mosteiros”, afirmou o filósofo mais traduzido da atualidade. E eis que o conceito de jardim está de volta. “Um jardim é um lugar para nos determos demoradamente”, disse. “Se o jardim tivesse um verbo, seria, certamente, pensar.” Num discurso marcado pela crítica à vertigem da vida contemporânea, o autor de “A Sociedade do Cansaço” alertou para a crescente incapacidade do ser humano parar e refletir. “Estamos a transformar-nos em gado de consumo”, afirmou perante uma assistência atenta à tradução simultânea do alemão. Nem o atraso de perto de duas horas demoveu as 200 pessoas que compunham a plateia.
O apocalipse do digital
Nas obras de Byung-Chul Han, a ideia de jardim serve de imagem para o ato de resistir às restrições do mundo digital, que considera serem uma materialidade muito difusa e desprezível. O tempo é outro elemento crítico no mundo de hoje. O que agora prevalece é a aceleração e o passageiro – o que constitui um ataque à permanência. Ora, para o filósofo é fundamental termos tempo para nós próprios, ou seja, fora do sistema de produção. Para recuperarmos os momentos de lazer e os momentos de celebração. Para termos tempo para o improdutivo e não para a ‘pausa’ que torna o trabalho mais eficiente.
O filósofo que se retrata como um eremita – “raramente saio de casa”, diz – cita dois grandes nomes da filosofia, Nietzsche e Simone Weil, e, pelo meio, lê algumas passagens de obras suas, destacando-se “Louvor da Terra”. Vai deixando alertas para a “catástrofe iminente”, para o apocalipse do digital. “A arquitetura digital favorece o extremismo”, “cada um tem a sua verdade”, “o tempo desintegra-se no digital, a digitalização leva à desintegração”. O autor de “Sem Respeito – Uma Crise Social”, o seu mais recente livro, ainda por publicar em Portugal, falou também de “falta de respeito” e da “crise da religião, que é uma crise da atenção, uma crise do ver e do sentir.”
O orador que todos ali ouviam com a máxima atenção não improvisou uma sonata de Bach. Teria sido um grand finale. Ou um brilhante e inesperado começo. Apesar de as notas musicais não terem ecoado no Jardim do Pensamento, ficará a memória da sua mensagem e avisos como pensador-eremita, para quem a poesia e todos os livros “são o melhor antídoto para a depressão.” E que continua a deixar-se encantar por uma fragrância. “Ah, como é extraordinário o cheiro desta flor na jarra. Cheira maravilhosamente bem a limão.”
Babell | até 29 junho | vários espaços, Porto | Programa completo aqui
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