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Private equity está a comprar empresas familiares portuguesas à medida que geração de fundadores envelhece

Private equity está a comprar empresas familiares portuguesas à medida que geração de fundadores envelhece

Portugal está a viver uma vaga de transmissão de empresas familiares para fundos de private equity e investidores estrangeiros, à medida que uma geração de empresários que construiu os seus negócios nas décadas de 1980 e 1990 atinge a idade da reforma sem sucessores dispostos a continuar a atividade, segundo uma reportagem da Bloomberg.
O caso do empresário ítalo-português Stefano Saviotti, fundador do grupo hoteleiro Dom Pedro, ilustra a tendência apontada pela Bloomberg. Sem filhos para assumir o negócio e perto de completar 80 anos, Saviotti vendeu seis dos sete hotéis do grupo e os cinco campos de golfe à gestora britânica Arrow Global, em 2023, numa operação avaliada em cerca de 250 milhões de euros (272 milhões de dólares).
Para o empresário, a prioridade não foi o preço mas sim a continuidade do negócio e a manutenção dos postos de trabalho.
As empresas familiares representam entre 70% a 80% do tecido empresarial português, empregam cerca de metade da força de trabalho e geram aproximadamente 65% do Produto Interno Bruto, de acordo com estimativas da consultora PwC citadas pela Bloomberg. Entre os grupos que continuam sob controlo familiar contam-se a retalhista Jerónimo Martins, a produtora de cortiça Corticeira Amorim e o império da família Mello, com negócios na saúde e infraestruturas (Brisa).
A Bloomberg cita o historiador Miguel Figueira de Faria, a dizer que está a alterar-se a ideia de que os negócios devem ser preservados na família indefinidamente, com algumas das famílias mais ricas do país a recorrerem cada vez mais a fundos de private equity não apenas para captar capital, mas também como instrumento de gestão de portfólio em períodos de incerteza.
A reportagem recorda que o atual movimento contrasta com o modelo que moldou a economia portuguesa após a adesão à Comunidade Económica Europeia, em 1986, quando as privatizações e o forte crescimento económico da década de 1990 — em média 3,5% ao ano, segundo a Bloomberg, face a cerca de 2% nos últimos anos — permitiram a algumas dinastias empresariais construir impérios diversificados na banca, indústria, retalho e saúde.
A crise da dívida soberana e o resgate financeiro de 2011 expuseram, no entanto, a fragilidade de alguns desses grupos, com destaque para o colapso do universo empresarial ligado à família Espírito Santo.
Segundo a Bloomberg, Portugal continua a ser um mercado de difícil acesso para investidores estrangeiros, já que muitas operações de menor dimensão são originadas através de relações pessoais e não de processos de venda formais, sobretudo nas regiões norte e centro do país, onde se concentra o tecido industrial familiar.
O aumento da população residente estrangeira — que ronda atualmente os 15%, segundo a reportagem — tem também contribuído para criar novas oportunidades de consolidação para os fundos de investimento, num contexto em que as avaliações das empresas portuguesas permanecem inferiores às praticadas nos principais mercados da Europa Ocidental.
Nuno Fernandes Thomaz, fundador e sócio sénior da CoRe Capital, sociedade gestora com sede em Lisboa, considerou que o país tem “algumas das melhores empresas do mundo”, mas que estas carecem frequentemente de capital, gestão profissionalizada e escala.
A Bloomberg cita ainda o exemplo da Funerária Matias e Ferreira, fundada em 1999 por João Ferreira, que após não conseguir garantir a sucessão familiar do negócio vendeu a empresa, em 2019, à Servilusa — a maior operadora de serviços funerários do país, detida pelo grupo segurador espanhol Catalana Occidente.
De acordo com dados da TTR Data citados na reportagem, o valor das transações anunciadas em Portugal subiu 28% em 2025 face ao ano anterior, para 17,6 mil milhões de euros, mantendo-se o número de operações relativamente estável.
Entre as transações recentes destaca-se a entrada da MFE-MediaForEurope, controlada pela família italiana Berlusconi, no capital da Impresa, através de um aumento de capital que lhe permitiu ficar com 32,9% da maior empresa privada de comunicação social portuguesa, fundada pela família Balsemão.
A fabricante de embalagens Logoplaste, maioritariamente detida pelo fundo de pensões canadiano Ontario Teachers’ Pension Plan, surge igualmente referida como alvo de interesse de fundos norte-americanos, mantendo a família fundadora Botton uma posição minoritária.
O presidente da Associação Portuguesa de Capital de Risco e de Desenvolvimento (APCRI), Stephan de Morais, citado pela Bloomberg, afirmou que o número de associados da entidade duplicou nos últimos três anos, para cerca de 40 sociedades, beneficiando o setor também de fundos europeus canalizados pelo Governo para a economia.
A reportagem nota ainda que o aumento do investimento estrangeiro ocorre num momento sensível, com Portugal a registar um número recorde de residentes nascidos no estrangeiro — 1,5 milhões, quase o triplo do verificado em 2019 — fenómeno associado por alguns setores à subida dos custos de habitação e do custo de vida em geral.
Nem todos os empresários estão recetivos às propostas de investidores. Antonio Augusto de Oliveira, de 66 anos, à frente da Agência Funerária Augusto de Oliveira, negócio fundado pelo seu pai há seis décadas, tem recusado abordagens de investidores interessados em consolidar o setor funerário português, defendendo a manutenção da identidade nacional da empresa.
João Duque, professor de economia no ISEG, citado pela Bloomberg, sublinhou que, para muitos empresários portugueses, a questão da sucessão ultrapassa a dimensão financeira, existindo receio de que os fundos de private equity e compradores estrangeiros privilegiem a maximização do retorno em detrimento da preservação dos negócios a longo prazo

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