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Acordo de paz oficialmente em pausa para cerimónias fúnebres de Khamenei

Acordo de paz oficialmente em pausa para cerimónias fúnebres de Khamenei

Eliminado por um ataque cirúrgico do exército de Israel logo no início da guerra, a 28 de fevereiro, as cerimónias fúnebres oficiais do anterior líder supremo do Irão, Ali Khamenei, vão decorrer entre 4 e 9 de julho, motivo pelo qual as negociações – diretas ou indiretas – estão suspensas. A imprensa iraniana afirma que as cerimónias decorrerão em regime de cortejo (não se restringindo à capital) e que entre 15 e 20 milhões de iranianos marcarão presença. Dito de outra forma: as cerimónias fúnebres serão, evidentemente, um momento de catarse nacional, que contribuirão ainda mais para consolidar o sentimento de nacionalidade e de pertença. Ou seja, o regime – que a guerra era suposto ter obliterado – tornar-se-á ainda mais forte e o novo líder, Mojtaba Khamenei (filho de Ali), não terá dificuldade em continuar a dirigir o país, na ausência de qualquer oposição minimamente organizada.
Findo o período das celebrações, é expectativa dos Estados Unidos e dos dois principais países mediadores, Qatar e Paquistão, que as duas partes voltem a encontrar-se – com certeza no próprio Qatar. Mas, como ficou provado desde que o memorando foi remotamente assinado pelos Estados Unidos e pelo Irão, o regime iraniano tem todo o tempo do mundo – ao passo que Trump tem apenas quatro meses. Quatro meses para apresentar aos eleitores norte-americanos uma paz que acabe de vez com a aventura no Médio Oriente e que abra perspetivas reais (e não as fantasias do costume) de uma descida da inflação por via do corte no preço dos combustíveis em particular e da energia em geral.
 
Sem pressas
É por isso que, às pressas de Donald Trump, o Irão responde com uma sobranceira ausência. Foi isso mesmo que sucedeu no passado fim-de-semana, quando Trump ‘despachou’  Steve Witkoff e Jared Kushner para o Qatar e Teerão respondeu que não estava previsto nenhum encontro com eles e que não o iria marcar em cima da hora. Para além do caricato da situação – que faz lembrar que talvez o chanceler alemão Friedrich Merz tivesse razão quando disse que os iranianos andavam a gozar com Trump – o que importa é reter que esta diferenças de ‘tempos’ é a melhor arma negocial do Irão para impor as suas regras a Washington no quadro das negociações.
É casa vez mais evidente para os analistas que tanto na questão do debate sobre o nuclear, mas principalmente no que diz respeito ao Estreito de Ormuz, Teerão acabará por impor as suas regras. Ou seja, o Irão prescindirá da opção nuclear militar mas dar-se-á a si próprio tempo para a ela regressar mais tarde; e vai mesmo impor uma ‘portagem’ no Estreito de Ormuz sem que os Estados Unidos tenham tempo para esboçar uma recusa mais consistente que um ‘não’ formal, que soará a ‘nim’.
 
Entretanto, no Líbano
Da parte de Israel, o seu primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, voltou a dizer que as forças de defesa (IDF) não vão abandonar o sul do Líbano enquanto a ameaça do Hezbollah não desaparecer. Ora, como essa ameaça não vai desaparecer tão cedo, não é possível a qualquer analista antecipar essa saída das IDF. Até porque a presença de Israel no terreno é profunda – pelo menos desde que tomou a velho Castelo de Beaufort – onde, diz alguma literatura sobre o assunto, chegou a funcionar, na década de 1970, um campo de treino para forças palestinianas liderado por instrutores cubanos.
Segundo a imprensa israelita, a Cisjordânia continua, por seu lado, a ser palco de recontros violentos entre palestinianos e colonos israelitas – recontros esses que são replicados em Jerusalém.
O presidente libanês, Joseph Aoun, defendeu as negociações do governo libanês com Israel, afirmando que não constituem uma traição, mas que não cederia “um único centímetro do território libanês”. “É hora de o Líbano emergir da era das guerras e tutelas, e a maioria dos libaneses apoia esse caminho, especialmente o nosso povo no sul, que merece viver com dignidade e segurança”, disse em um comunicado divulgado pela presidência libanesa.
 
28 de fevereiro: uma curiosidade histórica
Curiosamente, no dia em que a guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão, 28 de fevereiro, passavam exatamente 40 anos sobre o assassinato Olof Palme, político e estadista sueco que foi primeiro-ministro de 1969 a 1976 e de 1982 até à sua morte – e que abalou profundamente as estruturas políticas da Europa. O seu assassínio nunca foi resolvido, mas uma das pistas mais insistentemente referidas pelos numerosos trabalhos ((jornalísticos e outros) sobre o assunto vão ter a Teerão. Ou seja, a presença do antigo Império Persa na história contemporânea do mundo ocidental é definitivamente consistente. Venda de armas por parte de uma empresa sueca, o encerramento do país à presença de estrangeiros implicados em movimentos violentos de contestação (desde logo palestinianos), a guerra Irão-Iraque e até o PKK curdo (e anti-turco) misturam-se num enredo que merece não ser esquecido. Porque, de algum modo, nunca é: não será por acaso que, tantos anos mais tarde, a Turquia colocou tantos entraves à entrada da Suécia na NATO, coisa que não fez no caso da Finlândia.

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