A América em fogo-de-artifício
Há qualquer coisa de profundamente americana em celebrar uma crise com fogo-de-artifício. O céu arde, a multidão grita, a banda toca, as bandeiras multiplicam-se e, por momentos, parece possível esquecer que por baixo daquele espectáculo continua a existir um país partido ao meio.
Foi assim que Donald Trump falou no 4 de Julho dos 250 anos dos Estados Unidos. Não fez apenas um discurso. Encarnou uma ideia de América
A América dos Pais Fundadores nasceu de uma rebelião contra um rei. A América de Lincoln sobreviveu a uma guerra civil. A América de Roosevelt venceu a Grande Depressão e depois ajudou a derrotar o nazismo. A América de Kennedy prometeu a Lua. A América de Reagan vendeu ao mundo a imagem da cidade luminosa sobre a colina. A América de Trump, pelo contrário, já não promete tanto o futuro. Promete antes a recuperação de um passado.
Essa é a chave do discurso.
Trump apresentou os Estados Unidos como uma nação destinada à grandeza, traída por inimigos internos, ameaçada por ideologias estrangeiras e agora chamada a uma nova idade de ouro. É uma narrativa simples, quase bíblica: queda, humilhação, redenção. E funciona porque fala menos à razão do que à emoção. Fala aos americanos que sentem que o seu país deixou de lhes pertencer.
O 4 de Julho deveria ser uma cerimónia nacional. Trump transformou-o numa liturgia política. Havia bandeiras, veteranos, referências à liberdade, ao exército, à Constituição e à superioridade americana. Mas havia também a linguagem habitual da campanha permanente: inimigos, decadência, fronteiras, comunismo, força, vitória.
É aqui que Trump é mais eficaz. Ele percebeu que a política americana já não se organiza apenas em torno de programas. Organiza-se em torno de identidade. Para milhões de eleitores, Trump não é apenas um Presidente. É uma resposta emocional a uma pergunta antiga: quem roubou a América que eu conhecia?
O problema é que essa América nunca existiu exactamente como é hoje recordada. A história americana sempre foi feita de grandeza e contradição. A Declaração de Independência proclamou que todos os homens nascem iguais num país onde a escravatura continuava a existir. A Constituição fundou uma república admirável, mas excluiu mulheres, escravos e povos indígenas da promessa original. O sonho americano construiu universidades, empresas, cinema, ciência e prosperidade, mas também conheceu segregação, guerras injustas, pobreza e violência racial.
A força dos Estados Unidos nunca esteve na pureza da sua história. Esteve na capacidade de corrigir os seus próprios erros sem deixar de acreditar em si mesmos.
Trump fala da América como destino. Os melhores Presidentes americanos falaram da América como projecto. A diferença é enorme.
Um destino exige obediência. Um projecto exige participação. Um destino vive de mitos. Um projecto vive de instituições. Um destino precisa de inimigos. Um projecto precisa de cidadãos.
Por isso, o discurso dos 250 anos foi menos sobre 1776 do que sobre 2026. Menos sobre Jefferson ou Washington do que sobre a batalha cultural que domina a direita americana. A América de Trump é soberana, musculada, desconfiada, religiosa, industrial, militar e profundamente ressentida com as elites. É uma América que já não quer ser admirada pelo mundo. Quer ser temida.
Mas há uma ironia poderosa nisto tudo. O país que nasceu contra a concentração do poder celebra agora um Presidente que concentra em si a narrativa da nação. O país que inventou uma das mais sofisticadas arquitecturas constitucionais da modernidade escuta um líder que prefere a política como espectáculo. O país que durante décadas se apresentou como farol democrático aparece hoje consumido pela dúvida sobre a sua própria democracia.
Talvez por isso o discurso tenha sido tão revelador. Não porque Trump tenha dito algo verdadeiramente novo, mas porque mostrou até que ponto os Estados Unidos mudaram. A América já não discute apenas impostos, imigração ou política externa. Discute a sua própria alma.
E, aos 250 anos, essa é a pergunta que fica depois dos aplausos, das luzes e dos hinos: a América ainda quer ser uma promessa universal ou contenta-se em ser uma fortaleza?
Bruce Springsteen cantava Born in the U.S.A. como quem denunciava uma ferida escondida por baixo da bandeira. Trump usa a bandeira para dizer que a ferida não existe, ou que a culpa é sempre dos outros.
Talvez seja essa a grande diferença.
A América que se admira a si própria pode continuar poderosa. Mas a América que deixa de se interrogar sobre si própria começa a perder aquilo que a tornou excepcional.
Share this content:



Publicar comentário