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Cimeira da NATO tenta mostrar coesão que dificilmente será conseguida

Cimeira da NATO tenta mostrar coesão que dificilmente será conseguida

Já é uma tradição: as cimeiras da NATO sob o domínio de Donald Trump em Washington nunca mais foram uma conversa amena entre quase 30 países que tinham mais certezas que dúvidas: sabiam quem era o inimigo, tinham a certeza que todos tomariam conta de todos e que o ‘grande irmão’ norte-americano trataria de afastar toda e qualquer ameaça, por muito perniciosa, armada ou vocabularmente autoritária que fosse.
Com Donald Trump (no primeiro e no segundo mandato), tudo isso acabou. As conversas entre os 32 Estados-membros deixaram de ser amenas, a Rússia pode já não ser o inimigo principal (talvez seja a China, desde a cimeira de Londres em 2019, mesmo que a aliança não tenha funções previstas para o Pacífico) e, principalmente, ninguém tem a certeza que todos estão empenhados em defender todos. Donald Trump há de saber que, uma vez instalada a dúvida sobre o assunto (se aceitaria sem reservas defender qualquer Estado-membro, como propõe o famoso artigo 5.º) – e foram declarações suas que instalaram essa dúvida – só há uma forma de ela ser ultrapassada: em cenário real.
Vários analistas afirmam que essa dívida equivale à morte da própria NATO. E que, quando Trump pediu aos Estados-membros auxílio para defender o Estreito de Ormuz e todos sem exceção ‘assobiaram para o lado’, ao presidente dos Estados Unidos ficou claro que a aliança não serve para mais nada. A não ser para vender armas, como ficou claro na cimeira do ano passado. Na cimeira de Haia, Trump negociou um acordo no qual os países europeus da NATO se comprometeram a financiar e comprar armas produzidas pelas indústrias dos Estados Unidos. De fora ficava a possibilidade, anunciada pouco tempo antes pela União Europeia, de criar um setor de defesa que abastecesse as necessidades de armamento do bloco. Nada disso, afirmou Trump: as armas são para serem compradas nos Estados Unidos – injetando assim milhares de milhões de dólares no setor de defesa do seu país.
Entretanto, na passada semana, Trump voltou a criticar a NATO. “É ridículo para os EUA continuarem neste caminho de via única quando a relação não é recíproca. Eles não estiveram lá por nós!!!”, disse Trump nas redes sociais na sexta-feira. O ‘post’ inclui um gráfico com supostos gastos dos países-membros com a NATO. Os Estados Unidos aparecem com 999 mil milhões de dólares, muito acima do Reino Unido (90,5 mil milhões), da França (66,5 mil milhões), da Itália (48,8 mil milhões) e da Polónia (44,3 mil milhões).
 
O problema turco
Outros dos pontos de fricção da agenda da cimeira desta semana tem a ver diretamente com o país anfitrião. Uma das estratégias de Ancara em termos de política internacional é a tentativa de manter uma equidistância equitativa entre todos os países que têm implicação direta no país. Por questões geográficas (mas também religiosas), a Turquia não pode ter uma atitude de confrontação com a Rússia. As inúmeras vezes que Moscovo pensou e chegou a estudar campanhas militares para tomar a cidade de Istambul e a partir daí os Dardanelos e a costa oeste de todo o Mar Negro aconselham vivamente a que o tema esteja constantemente nas preocupações centrais de qualquer governo de Ancara.
Talvez tivesse sido por isso que, em 2019, Ancara tomou a bizarra decisão de comprar o sistema de defesa antiaérea S-400 à Rússia, o país que o criou. Washington ficou possesso, como outra coisa não seria de esperar. Mas a reação foi mais bruta que aquela que Ancara esperava: os Estados Unidos expulsaram oficialmente a Turquia do programa de desenvolvimento e compra dos caças F-35 de última geração; e impediram que os helicópteros de ataque turcos TAI T129 ATAK (que utiliza motores de tecnologia norte-americana desenvolvidos pela Honeywell e pela Rolls-Royce) fossem vendidos a países terceiros (no caso, o Paquistão, num negócio avaliado em 1,3 mil milhões de dólares).
Agora, como anfitrião, e segundo os analistas, Ancara está interessado em regressar ao bom entendimento com os seus parceiros. No caso dos Estados Unidos, terá enormes dificuldades: o presidente turco, Recep Erdogan, tem sido dos líderes mundiais mais críticos do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ao mesmo tempo que coincide com a Rússia e com a China na Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e nos BRICS, organizações de que a Turquia (não sendo membro de pleno direito) é estatutariamente “parceiro de diálogo”. Washington tem sérias reservas sobre tudo isto.
Mesmo assim, a Turquia quer impor temas de interesse regional na agenda. Um deles é a Iniciativa de Cooperação de Istambul (ICI): Ancara pretende aprofundar os laços de defesa e contraterrorismo da NATO com os seus parceiros do Golfo Pérsico (como o Bahrein, Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos) para estabilizar o Médio Oriente. A segurança do Mar Negro também deverá suscitar discussões urgentes sobre o impacto dos conflitos regionais adjacentes às fronteiras turcas.
 
Declaração final já preparada
Para todos os efeitos, a NATO devem reafirmar o seu compromisso inabalável com o Artigo 5.º do Tratado e declarar que a Rússia representa uma “ameaça a longo prazo à segurança e estabilidade euro-atlântica” na declaração final da cimeira. Uma cópia do documento dado a conhecer pela agência Euronews contém uma declaração de que “o Irão jamais poderá ter uma arma nuclear” e compromete-se com um apoio extra de 70 mil milhões de euros à Ucrânia, com “níveis pelo menos equivalentes” de apoio a serem recebidos em 2027.
A declaração é o texto final predefinido da cimeira, negociado pelos todos os 32 aliados, incluindo os Estados Unidos. Embora o documento já tenha sido acordado ao nível dos embaixadores, os líderes ainda precisarão de o subscrever no final da cimeira, a 8 de julho. “A Declaração de Ancara será divulgada assim que for acordada pelos líderes aliados na cimeira da NATO na quarta-feira”, disse um porta-voz da organização à Euronews.
Na cimeira, os membros europeus da NATO tentarão convencer a administração Trump de que a responsabilidade pela segurança europeia deixou de recair sobre as forças armadas dos Estados Unidos, com a aliança agora a caminhar rumo à chamada NATO 3.0 – um acordo de segurança transformado, com a Europa no comando da sua própria defesa, ainda segundo a Euronews. Ora, esta tentativa entra em contradição com o texto pré-definido – que assim pode ter de ser reescrito conforme for a decisão dos Estados Unidos.
A acrescentar, há ainda a retirada de tropas dos Estados Unidos estacionadas na Europa – nomeadamente na Alemanha – o que constitui outra contradição no discurso, como avançam vários analistas. Em maio, os Estados Unidos anunciaram que estão a reduzir o conjunto de recursos militares da NATO, com vários bombardeiros de longo alcance, caças, submarinos e navios de guerra a deixarem de estar disponíveis para uso europeu em tempos de guerra – o que tem diretamente a ver com o facto de os aliados europeus terem recusado ajudar os Estados Unidos na guerra contra o Irão. Neste aspeto, o caso de Espanha é o mais notório: o chefe do governo, o socialista Pedro Sánchez, fechou as bases aéreas em solo espanhol à utilização de suporte dos Estados Unidos à ação militar no Médio Oriente.
Na cimeira, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, irá insistir para que a Europa e o Canadá aumentaram os gastos essenciais com defesa em 20% em relação ao ano anterior – e num compromisso de gastos de 5% do PIB em defesa. A Espanha já recusou e conseguiu mesmo uma exceção regulada com a NATO para manter os gastos apenas ligeiramente acima dos 2%.
Um dos marcos práticos da agenda (agendado para o dia 7 de julho no complexo ATO Congresium) é o diálogo direto entre governos, as chefias da NATO e líderes das indústrias de armamento. O foco é transformar as promessas de investimento em capacidade industrial concreta, otimizando as linhas de produção militar para repor stocks europeus e cumprir os acordos de compras de armamento aos Estados Unidos.

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