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A maior herança americana: romper com as ortodoxias

A maior herança americana: romper com as ortodoxias

Ao celebrar os 250 anos da sua Independência, os Estados Unidos oferecem uma oportunidade para recordar que a sua influência no mundo foi muito mais profunda do que os acontecimentos recentes parecem sugerir. Essa influência exerceu-se, em particular, no domínio da teoria económica e da construção institucional, através da capacidade de inovação e de rutura demonstrada por Marriner Eccles durante as quase duas décadas em que esteve ligado à Reserva Federal. Primeiro como membro do Conselho de Governadores (1934-1936), depois como Presidente (1936-1948) e finalmente de novo como membro do Conselho (1948-1951).
Eccles assumiu funções quando os Estados Unidos enfrentavam a mais profunda crise económica da sua história. Numa época dominada pelas ideias do equilíbrio automático dos mercados, da neutralidade da moeda e do primado dos orçamentos equilibrados, defendeu que a Grande Depressão resultava da insuficiência da procura agregada, da excessiva concentração da riqueza e da incapacidade do sistema económico para sustentar níveis adequados de consumo e investimento. As suas posições anteciparam várias das ideias que viriam a integrar a macroeconomia keynesiana.
A sua contribuição mais decisiva terá sido a transformação da Reserva Federal numa autoridade monetária moderna, com capacidade de intervir na estabilização da economia e de assegurar o funcionamento do sistema financeiro. A reforma da Fed de 1935 representou uma rutura fundamental com a ortodoxia anterior e lançou as bases do modelo contemporâneo de banco central. Em coerência com esta visão, Eccles participou também na construção da ordem monetária internacional do pós-guerra associada a Bretton Woods, que deu origem ao FMI e ao Banco Mundial e sustentou uma das fases mais prolongadas de crescimento económico mundial e europeu.
Décadas mais tarde, estas referências podem ser identificadas na atuação de Mario Draghi durante a crise da Zona Euro. Perante os desafios de 2008-2011, Draghi rejeitou uma interpretação estritamente conservadora da função de banco central e introduziu instrumentos de política monetária não convencional que alteraram profundamente a atuação do BCE. O compromisso de fazer whatever it takes para preservar o euro representou uma rutura comparável à protagonizada por Eccles nos anos 1930. Em ambos os casos, a resposta à crise exigiu ultrapassar os limites da ortodoxia dominante e adaptar as instituições às exigências da realidade.
A comparação entre Eccles e Draghi evidencia uma das principais lições da história económica moderna: as grandes crises exigem não apenas novas políticas, mas também novas referências e novas conceções do papel das instituições. Eccles ajudou a transformar a Reserva Federal numa autoridade macroeconómica nacional; Draghi contribuiu para afirmar o BCE como verdadeiro banco central de uma união monetária.
Neste sentido, a celebração dos 250 anos da Independência dos Estados Unidos pode também ser entendida como uma homenagem à capacidade americana de produzir referências, instituições e lideranças que influenciaram decisivamente a evolução da economia mundial. De Alexander Hamilton a Marriner Eccles, de Bretton Woods ao sistema financeiro contemporâneo, os Estados Unidos constituíram um dos mais importantes laboratórios de inovação económica dos últimos dois séculos e meio. A sua maior contribuição talvez não resida numa doutrina específica, mas na capacidade de questionar ortodoxias estabelecidas e construir respostas inovadoras aos desafios de cada época – uma lição que a Europa devia ter como referência na situação atual.

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