Carlos Duarte: “Portugal assume um papel de destaque na nova economia azul”
Carlos Duarte distingue-se pelo trabalho efetuado na área do oceano. Em 2025, foi distinguido pelo Imperador do Japão pela sua pesquisa pioneira na área do carbono azul. Esteve recentemente em Portugal como parte de um grupo de reflexão internacional sobre o capital natural azul, que foi recebido pela Fundação Oceano Azul. E foi claro no papel que o território luso tem desempenhado na área do oceano ao afirmar que Portugal tem um “papel de destaque na maioria dos pilares” que caracterizam a nova economia azul.
“Há uma grande oportunidade atualmente que é a nova economia azul. A nova economia azul é um novo olhar ao oceano como uma parte importante da economia. A nova economia dos oceanos olha para o oceano não como uma fonte de recursos extrativos mas como uma fonte de economias regenerativas. Esta economia azul parte do princípio de que é possível reconciliar um aumento da contribuição do oceano na economia global e [nas economias] nacionais e ao mesmo investir na conservação dos oceano”, adiantou o investigador da Universidade King Abdullah, na Arábia Saudita, e consultor da Fundação Gulbenkian, ao Jornal Económico (JE).
Carlos Duarte considera que existem cinco pilares que definem esta nova economia azul e afirma que Portugal assume um papel de destaque em quase todos eles.
Um dos pilares desta nova economia azul está ligado à aquacultura regenerativa. “Esta produz alimentos sustentáveis e saudáveis para as pessoas e para o mar”, define investigador.
“O segundo pilar é o capital natural azul. Este pilar já faz parte da economia de Portugal mas é uma parte que ainda não está devidamente reconhecida. E tem ainda muito mais valor. Não só através do carbono azul, mas também do turismo, e dos benefícios gerados pelas Áreas Marinhas Protegidas. Ainda estão por ser calculados quais são os benefícios económicos [de cada uma delas]”, acrescenta Carlos Duarte.
O consultor da Fundação Gulbenkian, no que diz respeito às Áreas Marinhas Protegidas, diz que é importante calcular qual é o benefício económico dessas áreas para a economia portuguesa.
“Estas Áreas [Marinhas Protegidas] aumentam o capital natural azul”, refere.
Outro dos pilares da nova economia azul é a biotecnologia marinha. “É uma área com um potencial de crescimento enorme”, afirma. “E Portugal tem a maior massa científica e tecnológica do mundo para desenvolver esta área”, adianta Carlos Duarte, que em seguida deixa um conselho. “É preciso investimentos mais determinados ao nível das empresas. Este potencial não se pode desenvolver se não existir um apoio financeiro e investimento importante”, afirma Carlos Duarte.
O quarto pilar é a energia marinha. “Não é só a energia do vento que se extrai do mar. É também a energia das marés e das ondas”, esclarece o investigador.
E por fim o último pilar são os serviços digitais ligados ao oceano. Carlos Duarte diz que esta área tem um valor “cada vez mais importante”.
Nesta área, o consultor considera que Portugal “ainda não tem um papel importante”. Mas existe uma boa notícia. “Portugal tem a capacidade científica para chegar lá”, defende.
“É preciso um investimento importante nesse campo”, acrescentou.
Carlos Duarte lembra a promessa da nova economia azul que prevê que se aumente a contribuição do oceano, na economia, num fator de cinco vezes, passando de cinco biliões de dólares (4,3 biliões de euros à taxa de câmbio atual) por ano para os 15 biliões de dólares (13 biliões de euros) por ano. “E o retorno no investimento é de 10 euros por cada um euro investido”, acrescenta.
“E mais do que uma questão de retorno económico investir em capital azul é uma responsabilidade moral para as gerações futuras. Não podemos entregar às geração futuras países que perderam uma parte importante do seu capital que foi estragado por uma única geração”, disse o investigador.
Carlos Duarte disse ainda que olha para Portugal “com esperança” de que o país vai aproveitar esta oportunidade de ter um “papel relevante e de liderança” nesta nova economia do oceano, da mesma maneira que há mais 500 anos Portugal também olhou para o oceano e viu uma “oportunidade económica” no oceano como uma plataforma para o comércio. “Há agora uma nova oportunidade de descoberta. E estas descobertas precisam de um apoio importante para a investigação e tecnologia. Necessita de investimentos importantes para se gerarem capacidade e escala. E necessita também de mudanças legislativas para facilitar o desenvolvimento destas atividades”, concluiu.
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