Adoção de IA na banca europeia supera 90% mas persistem falhas na responsabilização, segundo especialistas
A utilização de Inteligência Artificial (IA) já abrange mais de 93% dos bancos sob supervisão europeia, mas os modelos de governação e responsabilização continuam aquém do ritmo de adoção da tecnologia, alertaram reguladores e instituições financeiras num fórum promovido pela Zango AI, em Lisboa.
O encontro, realizado no Grémio Literário, reuniu representantes do Banco Central Europeu (BCE), da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), do Banco de Portugal, da Caixa Geral de Depósitos (CGD) e da Ageas para debater o impacto da IA na banca e nos seguros, com enfoque na proteção dos consumidores, estabilidade financeira e resiliência operacional.
Na intervenção principal, o membro do Conselho de Supervisão do BCE Pedro Machado revelou que o investimento em IA pelos bancos europeus atingiu cerca de quatro mil milhões de euros até ao final de 2025, sendo a tecnologia mais utilizada em áreas como deteção de fraude e cibercrime, marketing, assistentes conversacionais e avaliação de risco de crédito.
Apesar da elevada adoção, o responsável alertou para o risco de as instituições permanecerem numa “armadilha da micro eficiência”, ao automatizarem tarefas isoladas sem ganhos estruturais. “A transformação digital não pode existir sem confiança, tal como a confiança não pode existir sem resiliência”, afirmou.
Pedro Machado identificou três prioridades para a supervisão: responsabilização clara pelas decisões assistidas por IA, supervisão efetiva pela gestão de topo e escrutínio rigoroso pelas funções de risco, ‘compliance’ e auditoria interna. Sublinhou ainda que a responsabilidade pela utilização da IA permanece frequentemente fragmentada entre equipas tecnológicas e unidades de negócio, sem um quadro de governação definido.
O responsável do BCE alertou também para o aumento dos riscos tecnológicos, referindo que modelos avançados de IA já conseguem identificar vulnerabilidades de software e gerar código para as explorar em poucos minutos. A intervenção surge após o envio das cartas “Dear CEO” pelo BCE, exigindo planos de mitigação até 31 de outubro.
Uma das principais conclusões do fórum foi a necessidade de manter a responsabilização humana nas decisões apoiadas por IA, com identificação clara de quem desenvolve, aprova, avalia e responde pelos sistemas utilizados.
Os supervisores destacaram preocupações em duas frentes: proteção dos consumidores e governação dos modelos, por um lado, e resiliência operacional e de mercado, por outro. Representantes da CMVM e do Banco de Portugal defenderam que a prioridade deve passar por maior convergência entre supervisores e aplicação eficaz do enquadramento regulatório existente, incluindo o Regulamento da Resiliência Operacional Digital (DORA), em vez de nova legislação.
A ASF reiterou a aposta numa abordagem de “inovação com responsabilidade”, garantindo o acompanhamento próximo do setor sem travar o desenvolvimento tecnológico, incluindo através da iniciativa InovaSup prevista para 2026.
Do lado das instituições, a diretora de ‘compliance’ da CGD, Raquel Vila Verde, destacou os desafios no controlo de conteúdos gerados por IA: “A obrigação de garantir que os conteúdos são justos, claros e compreensíveis mantém-se. O desafio é assegurar uma revisão humana efetiva à medida que o volume aumenta”.
Já o cofundador e CEO da Zango AI, Ritesh Singhania, sublinhou o potencial da IA na conformidade regulatória, nomeadamente na análise automática de conteúdos de marketing, alertando, contudo, para a necessidade de modelos de governação robustos para evitar vulnerabilidades exploráveis por agentes mal-intencionados.
A Zango AI é uma empresa tecnológica focada em soluções de Inteligência Artificial para o setor financeiro, com especial incidência em áreas como conformidade regulatória, análise de risco e automação de processos, apoiando instituições na adaptação às exigências de supervisão e transformação digital.
O fórum concluiu que a próxima fase da adoção da IA no setor financeiro dependerá não só do acesso à tecnologia, mas também da capacidade de combinar inovação com responsabilização clara, governação eficaz e confiança dos consumidores.
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