Himalaias
Fomos aos Himalaias. Saímos de Catmandu numa camioneta cheia de cores, tejadilho entregue às cabras, e a estrada subia e descia incessantemente pelas montanhas, contornando precipícios, aproximando-nos lentamente.
Ao fim de muitas horas chegámos a Sunkhani, aldeia natal do nosso amigo Rajendra, músico que vive hoje no Alentejo e nunca deixou verdadeiramente a sua terra. Conhecemos o seu país pelos seus pais. O olhar da mãe acolhia-nos com ternura firme; os olhos do pai mostravam uma claridade sábia que nos expunha tudo, mesmo sem língua comum. Junto à sua casa simples, perto dos dois mil metros, havia um pequeno anexo que era uma igreja, comunidade católica discreta num território budista. Passámos ali uma noite, perto da fronteira onde se construía uma central hídrica chinesa, a lembrar como aquelas montanhas nunca deixaram de ser também território estratégico.
No dia seguinte a estrada terminou junto ao rio Tama Koshi, e começou verdadeiramente a viagem: mais de mil e quinhentos degraus até Simigaun, único acesso da aldeia, por onde tudo sobe às costas. Depois, dias a caminhar junto ao rio, entre florestas de rododendros vermelhos, hospedarias de milk tea e noodles, sempre a subir.
Cruzámo-nos com Kalpana Maharjan, a primeira mulher a atingir o Evereste pelas duas vertentes, obrigada pelo mal da altitude a descer transportada por sherpas. Enquanto esperava, sentámo-nos com ela num abrigo e jogámos uma partida de ludo. O jogo só depende da sorte, pretexto para uns tantos passarem um tempo sem diferenças.
A floresta deu lugar a um largo vale, o de Rolwaling, antiga rota entre o Nepal e o Tibete, ainda pressentida nas pedras mani, nos pórticos e nas bandeirinhas. Entrámos no território dos iaques, possantes, e chegámos a Beding, aldeia do mosteiro budista onde jovens monges corriam a rir pela montanha.
Depois do último abrigo, uma escadaria final, exigente àquela altitude, grãos de pimenta mastigados contra o mal de altura, paragens curtas, até contornarmos a última pedra e a tensão se dissolver em alegria. Debruçámo-nos de joelhos para tocar a água do lago, alimentada pelo glaciar. Lembrava os olhos do pai do Rajendra. À volta, cumes de mais de sete mil metros que nem os guias sabiam nomear. Bebemos a paisagem e começámos a descer, saciados.
No regresso, uma trovoada rebentou dentro das montanhas, ecoando de encosta em encosta. Não estávamos perante a montanha, estávamos dentro dela. Descemos quase a correr até ao primeiro abrigo, onde ainda havia sinal de telemóvel. “Está tudo bem.” Era tudo o que havia para dizer.
Hoje, quando penso no que nos aconteceu nos Himalaias, penso numa partida de ludo.
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