Tirar o sal da água do mar vai ser crucial para aliviar o stress hídrico em Portugal
Há vários milénios que a humanidade começou a pensar em tirar água do mar para a beber, removendo o sal. Há cinco mil anos, os navegadores no Pacífico deverão ter usado este processo para as grandes travessias entre ilhas distantes. As ilhas foram um local privilegiado para a dessalinização: como há quatro mil anos em Chipre. O processo foi documentado pela primeira vez pelo filósofo grego Aristóteles há mais de 2.300 anos. Avançando para a Renascimento, Leonardo da Vinci chegou a ter a ideia da dessalinização caseira para uso das famílias nas zonas costeiras, com a expansão do processo a ter lugar séculos mais tarde.
Atualmente, a dessalinização da água do mar já se tornou prática corrente em 80% dos países do mundo. O processo chegou a ser exclusivo de países do Médio Oriente e norte de África, mas continua a crescer.
Sem surpresas, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos lideram o ranking com mais de 10 mil milhões de litros por dia. Mais atrás, China, Espanha, Israel, Kuwait, Qatar, Argélia, Egipto ou Omã dessalinizaram entre dois a quatro mil milhões de litros diariamente, dados da Global Water Intelligence via BBC.
Portugal conta com uma central dessalinizadora há 46 anos, na ilha de Porto Santo. Além desta, para consumo público, duas unidades hoteleiras na ilha e outras duas no Algarve contam com centrais para consumo interno. Espanha conta com um total de 360. Portugal começou a construir outra no Algarve este ano e está prevista outra para Sines (para uso da indústria).
Perante a crise de água em Almada, o especialista Joaquim Poças Martins defende que o concelho deve ter mais fontes de abastecimento, além do aquífero Tejo-Sado.
“Para estar mais seguro é preciso ter uma segunda origem. Ou liga-se ao sistema das Águas de Portugal, como a Epal [com água vinda de Castelo de Bode] ou faz uma dessalinizadora. Isto tem solução. Não falta mar a Portugal”, defende o professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.
“A própria Lisboa vai, se calhar, amanhã pensar em ter uma dessalinizadora como tem Londres ou Barcelona. Porque a origem é ótima, que é Castelo de Bode e o Tejo, mas amanhã podem falhar. A água vem toda do mesmo lado [Ribatejo]. Seria mais seguro ter uma origem diferenciada, ou a norte ou a poente, mas aqui não há rios nem águas subterrâneas. Faria sentido analisar” esta central, defende, recordando que defendeu este projeto quando foi presidente da EPAL.
“As pessoas têm um nível de exigência absoluto, querem fiabilidade 100%. E isso consegue-se com duas origens”, sublinha, deixando os portugueses descansados: “Portugal não tem falta de água. Esta é uma situação pontual”, segundo o ex-secretário de Estado do Ambiente.
Também a perita Filipa Newton acredita que uma central dessalinizadora em Almada poderia ajudar. “É sempre uma solução, vemos isto em países como Malta, Grécia, Chipre, Médio Oriente. Mas este é um grande investimento como todas as grandes infraestruturas”.
Contudo, alerta que “não faz sentido economicamente fazer um investimento de milhões de euros, que demora muito tempo, e depois perder 35% dessa água na distribuição”.
Já o perito João Quinhonhes Levy afasta a possibilidade de uma central dessalinizadora em Almada, mas considera que existem outras zonas do país que precisam.
“Sem dúvida, na região da Comporta, mas também sei que há outros municípios costeiros em todo o país que estão a estudar”, afirmou.
“Agora, tem que se agilizar todo o aspecto do licenciamento, porque se pusermos tantos entraves ambientais, na captação de água e na rejeição da salmoura, não vai haver nenhuma central”, segundo o especialista.
João Quinhones Levy recorda que há 40 anos fez parte da equipa do Professor Lobato Faria que estudou o aquífero Tejo-Sado, tendo concluído na altura que não era necessário o reforço na Península de Setúbal com água vinda de Castelo de Bode. Mas dado o crescimento da população na região, defende que deve ser realizado novo estudo. “Passaram 40 anos e neste momento é normal e recomendável que se faça uma nova análise do aquífero para perceber como é que ele está e voltar a colocar a mesma alternativa que se colocou há 40 anos”, defendeu, referindo-se a Castelo de Bode.
Portugal já está a construir uma central dessalinizadora em Albufeira no Algarve com capacidade para abastecer 100 mil pessoas e com capacidade de expansão. Um investimento superior a 120 milhões de euros tem o objetivo de combater a seca na região.
Já para Sines está prevista a construção de uma dessalinizadora a partir de 2027, com um custo de 120 milhões de euros, desenvolvido pelas Águas de Santo André, do grupo Águas de Portugal. Com conclusão em 2031, vai fornecer a indústria da região que enfrenta escassez hídrica.
Quando custa dessalinizar?
“É uma solução mais cara do que o habitual”, avisa Eduardo Marques da AEPSA – Associação das Empresas Portuguesas para o Sector do Ambiente.
“É três vezes mais cara” face aos preços habituais, estimando que o metro cúbico atinja 1,5 euros, comparando com os 0,5/0,6 euros de custo médio de venda da Àguas de Portugal aos municípios. Deste valor, 50 cêntimos são para pagar o custo energético do processo, com o restante um euro para a vida útil da exploração.
Já Joaquim Poças Martins dá o exemplo de projetos em Israel, Singapura ou Austrália onde, através de parcerias com privados, os preços atingem os 50 cêntimos por metro cúbico em contratos de compra garantida de determinada quantidade durante 20/30 anos,
As duas centrais previstas para o Algarve e Alentejo vão custar 120 milhões cada uma.
Almada perde 140% mais de água face ao país
O concelho da margem sul do Tejo perde 284 litros de água por ramal diariamente, estando entre os 10 concelhos com maior perda de água a nível nacional, mais 140% de perdas face ao resto do pais.
“O país não tem problemas de escassez hídrica, tem uma grande escassez de gestão hídrica”, disse ao JE Eduardo Marques, presidente da AEPSA, apontando que o setor privado tem perdas na ordem dos 47 litros.
Almada sai muito mal da fotografia, com a reabilitação de condutas a andar à volta de 0,3% ao ano, muito abaixo do valor mínimo de referência de 1,5%, e abaixo da média nacional de 0,5%. Já a água não faturada anda acima de 33%, longe dos 20% de valor máximo de referência, e acima dos 26% da média nacional.
“É uma tristeza”, disse, por seu turno, João Quinhones Levy quando questionado sobre os argumentos da autarquia de Almada para o problema de água, com a justificação de aumento de consumo.
“Isso seria a mesma coisa que culpar o turismo se faltasse água no Algarve em Agosto. Há já uma regularidade nos consumos que nos leva a estar preparados”, segundo o especialista, criticando a falta de planeamento.
Habitantes à beira
de um ataque de nervos
Os residentes no concelho não conseguem perceber as desculpas da autarquia liderada por Inês de Medeiros (PS), que justificou a falta de água com o aumento de consumo.
“O que aconteceu em Almada não foi uma fatalidade inevitável. Houve incúria, falta de planeamento e insuficiência de investimento por parte dos SMAS de Almada e da Câmara Municipal de Almada sem esclarecimentos transparentes nem uma clara assunção de responsabilidades”, criticou João Garrido, residente neste concelho. “Assusta-me pensar que os meus filhos poderão viver num futuro marcado pela escassez hídrica, agravada pelas alterações climáticas, pela ausência de planeamento e pela negligência das gerações anteriores”, segundo o empresário.
Mandar vir água do Ribatejo para a margem sul
A água captada em Castelo de Bode, distrito de Santarém, já abastece Lisboa e pode vir a ser hipótese para abastecer o concelho de Almada, que tem sofrido com a falta de água.
A hipótese foi avançada esta semana pela ministra do Ambiente que defende que o concelho precisa de ter redundância no abastecimento, juntando a água de Castelo de Bode ao aquífero do distrito de Setúbal, a atual fonte de fornecimento.
“A EPAL irá estudar e vamos reunir com os municípios [do distrito de Setúbal] para saber também a opinião deles, porque isto pressupõe que eles se unam, pelo menos em alta [captação de água], e haja aqui uma gestão, por exemplo, da EPAL, para que haja uma transferência de água que vem de Castelo de Bode, que alimenta a margem norte do Tejo e que faça também a alimentação da margem sul. E aí ficam com duas alternativas, o aquífero e a água de Castelo de Bode”, disse Maria da Graça Carvalho na quarta-feira.
A ministra vai reunir-se com autarcas do distrito de Setúbal para perceber a sensibilidade para adotarem o fornecimento de água via Água de Portugal, que vem de Castelo de Bode, como complementar ao aquífero Tejo-Sado. No curto prazo, está previsto um novo furo a alimentar Almada com origem no Seixal, tendo já outro furo arrancado recentemente.
“Almada tem aumentado de população e aumenta muito no verão. Não têm sido feitos os investimentos que o regulador ERSAR considera adequados, nem a renovação que se considera adequada da rede de distribuição”, criticou a ministra do Ambiente desejando um aumento do investimento da autarquia na rede de água.
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