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A guerra entra no depósito

A guerra entra no depósito

Há guerras que se decidem nas trincheiras, outras nos corredores diplomáticos e algumas nas bombas de combustível. A Ucrânia parece ter compreendido que não precisa de destruir toda a capacidade militar russa para tornar a guerra progressivamente mais cara, mais difícil de sustentar e, sobretudo, mais visível para a população russa. Basta atingir, de forma continuada, o sistema que mantém as máquinas, os aviões, os camiões e a própria economia em movimento.
É neste contexto que deve ser lida a campanha ucraniana contra refinarias, depósitos, oleodutos e outras infraestruturas energéticas russas. Não se trata apenas de uma sucessão de ataques com drones. Trata-se de uma tentativa deliberada de levar a guerra até ao coração económico da Federação Russa.
A Rússia continua a ser uma enorme produtora de petróleo. O problema começa quando deixa de conseguir transformar esse petróleo, em quantidade suficiente, em gasolina, gasóleo, combustível de aviação e restantes produtos necessários ao consumo interno, às Forças Armadas e à exportação.
Em julho, fontes do sector citadas pela Reuters estimavam que a produção russa de gasolina cobria apenas cerca de 65% da procura interna. Os ataques já tinham provocado escassez, subidas de preços e filas em postos de abastecimento em diferentes regiões do país. A refinaria de Moscovo, responsável antes da guerra por milhões de toneladas de gasolina e gasóleo por ano, dificilmente deverá retomar a produção normal ainda em 2026. A refinaria de Omsk, a maior da Rússia, com capacidade próxima dos 460 mil barris por dia, também foi atingida.
É aqui que a estratégia ucraniana revela inteligência. Atacar um poço de petróleo pode interromper a produção durante algum tempo. Atacar repetidamente uma refinaria destrói equipamentos complexos, difíceis de substituir e, em muitos casos, dependentes de tecnologia ocidental que as sanções tornaram mais difícil de adquirir.
Mesmo quando uma instalação não é completamente destruída, a necessidade de interromper operações, reparar unidades, redistribuir produção e reforçar a defesa aérea produz custos substanciais. Obriga ainda Moscovo a escolher entre proteger bases militares, cidades, centros industriais ou infraestruturas energéticas espalhadas por um território gigantesco.
Os efeitos já ultrapassam a refinação. Segundo a Agência Internacional de Energia, a produção russa de crude caiu em maio para cerca de 8,7 milhões de barris diários, aproximadamente 10% abaixo do objectivo definido para esse mês. A agência reviu em baixa a previsão para a produção russa em 2026, atribuindo uma parte significativa dessa redução à intensificação dos ataques ucranianos.
Contudo, seria precipitado concluir que a economia russa está à beira do colapso.
A Rússia cresceu cerca de 4,9% em 2024 e ainda registou um crescimento próximo de 1% em 2025. Para 2026, as estimativas recolhidas pelo próprio Banco Central russo apontam para uma expansão de aproximadamente 0,6%. O Banco Mundial admite um crescimento médio próximo de 1,3% em 2025 e 2026. Não é uma economia saudável, mas também não é uma economia em queda livre
A aparente resistência tem uma explicação. A Rússia transformou-se numa economia de guerra. O Estado compra armamento, financia fábricas, paga salários militares, contrata trabalhadores e injeta enormes quantidades de dinheiro na produção ligada à defesa. Estatisticamente, tudo isto conta como crescimento.
Mas crescimento não é sinónimo de prosperidade.
Uma fábrica que produz munições aumenta o produto interno bruto, mesmo que essas munições sejam destruídas dias depois na frente de combate. Um salário elevado pago a um trabalhador de uma indústria militar pode fazer subir o consumo, mas não aumenta necessariamente a produtividade civil. Uma economia pode crescer enquanto se torna mais desequilibrada, mais dependente do Estado e menos capaz de melhorar o nível de vida da população.
Os próprios números russos mostram essas contradições. A inflação deverá situar-se entre 6% e 7% em 2026 e o Banco Central mantém a taxa directora nos 14%. Os analistas consultados pela instituição prevêem um défice orçamental consolidado equivalente a 3,2% do PIB. O desemprego permanece extraordinariamente baixo, próximo de 2,2%, mas isso reflecte também a mobilização militar, a emigração, a escassez de mão-de-obra e a transferência de trabalhadores para a indústria de defesa.
A economia russa não está parada. Está sobreaquecida, militarizada e obrigada a financiar simultaneamente a guerra, os subsídios energéticos e a estabilidade social.
Os ataques às refinarias agravam esta equação. Ao reduzir a oferta interna de combustível, obrigam o Kremlin a subsidiar importações, limitar exportações e aceitar preços mais elevados. A situação chegou a um ponto politicamente embaraçoso: a Rússia, uma das maiores potências petrolíferas do mundo, começou a importar gasolina da Índia.
Segundo a Reuters, pelo menos 60 mil toneladas de gasolina indiana foram enviadas para a Rússia, num momento em que Moscovo procurava importar até 400 mil toneladas mensais de vários fornecedores. Ao mesmo tempo, as importações indianas de petróleo russo atingiram em junho um recorde de cerca de 2,7 milhões de barris por dia.
A ironia é evidente. A Rússia vende petróleo com desconto à Índia, as refinarias indianas transformam parte do crude disponível em produtos de maior valor e Moscovo acaba por comprar combustível refinado para compensar os danos provocados pela Ucrânia.
Não há, contudo, confirmação de que toda a gasolina enviada para a Rússia tenha sido fabricada a partir de petróleo russo. O que existe é uma circularidade económica que demonstra como as sanções e a guerra redesenharam os fluxos internacionais. A Índia tornou-se simultaneamente compradora de crude russo, grande centro de refinação e fornecedora de produtos petrolíferos para diferentes mercados.
É também aqui que surge o efeito colateral para a Europa.
Quando a Ucrânia destrói capacidade de refinação russa, não prejudica apenas o Kremlin. Retira do mercado internacional volumes de gasóleo, combustível de aviação e outros produtos. A Rússia pode continuar a exportar crude que será refinado noutros países, mas a perda de refinarias reduz a oferta global de produtos acabados, aumenta as margens das refinadoras e pressiona os preços europeus.
A Europa é especialmente vulnerável no gasóleo. A redução das exportações russas, combinada com perturbações no Médio Oriente e limitações noutras regiões produtoras, deixou os inventários europeus sob pressão. Em julho, a Rússia chegou a restringir exportações de gasóleo para proteger o mercado interno, contribuindo para margens de refinação particularmente elevadas na Europa.
Este é o paradoxo da guerra económica. A Ucrânia ataca uma das principais fontes de financiamento e abastecimento da máquina militar russa, mas os países que a apoiam podem pagar uma parte da factura através de combustíveis mais caros, inflação e perda de competitividade industrial.
Kiev sabe disso. Mas sabe também que uma guerra prolongada não será decidida apenas pela ocupação de mais alguns quilómetros quadrados. Será decidida pela capacidade de cada lado absorver custos durante mais tempo do que o adversário.
A economia ucraniana é muito menor, está fisicamente devastada e permanece dependente da assistência externa. O FMI prevê um crescimento de apenas 1% a 1,6% em 2026, enquanto o Banco Mundial aponta para cerca de 1,2%. Os danos directos acumulados já ultrapassam os 195 mil milhões de dólares e as necessidades de reconstrução aproximam-se dos 588 mil milhões durante a próxima década.
Ainda assim, a Ucrânia conseguiu preservar o funcionamento do Estado, do sistema bancário e de parte significativa da economia. Essa sobrevivência depende do apoio europeu e internacional. Só no âmbito do Ukraine Facility, a União Europeia já disponibilizou 29,5 mil milhões de euros, estando igualmente previsto um empréstimo europeu de 90 mil milhões para 2026 e 2027.
A diferença essencial é esta: a Ucrânia depende da vontade política dos seus aliados. A Rússia depende da capacidade do seu próprio sistema para continuar a transformar recursos naturais em receitas, receitas em armas e sacrifício económico em obediência política.
Os ataques às refinarias não obrigarão, por si só, Vladimir Putin a negociar. Regimes autoritários conseguem transferir custos para a população durante muito mais tempo do que democracias imaginam. Mas cada refinaria imobilizada, cada litro importado, cada aumento do preço da gasolina e cada rublo gasto em reparações reduz a margem de manobra do Kremlin.
A campanha ucraniana não pretende provocar um colapso imediato. Pretende transformar lentamente a guerra distante numa realidade doméstica russa.
Quando um país que exporta petróleo começa a importar gasolina, o problema já não está apenas na frente de batalha. Está dentro do depósito.

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